Manaus, 30 de Abril de 2017
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O grande arquiteto do Amazonas

Por: Evaldo Ferreira eferreira@jcam.com.br
20 Abr 2017, 19h39

Severiano Mário Vieira de Magalhães Porto, ou simplesmente Severiano Porto, é nome conhecido, e respeitado, no Amazonas quando o assunto é arquitetura. Severiano morou em Manaus por quase 40 anos e deixou obras arquitetônicas por toda a cidade, e até em outros municípios do Estado, sempre 'carimbando' sua marca, seu estilo, sua característica.

Existem obras do arquiteto, no entanto, que caíram no esquecimento e estão abandonadas, tendo sido alterada a ideia original do autor, ou acabaram destruídas, lembrou o historiador e coronel da reserva Roberto Mendonça. "Em 1967 eu havia sido incorporado à PM fazia um ano, quando foi inaugurada a granja da instituição, numa distante área onde hoje está o município de Rio Preto da Eva", disse o ex-militar.

Na época, o comandante da PM era o coronel Hernani Teixeira que, junto com o governador Danilo Areosa, mais oficiais e a banda de música, inaugurou o prédio da administração e os alojamentos dos funcionários da granja, toda construída pelos soldados, de acordo com suas habilidades e projetados por Severiano, contou Mendonça. "Em seguida, da granja começaram a sair frangos e ovos, que abasteceram durante anos a instituição. Depois o projeto foi abandonado, o município foi criado, muita gente foi pra lá e o terreno da granja começou a ser invadido, mas até hoje os prédios idealizados por Severiano estão lá", afirmou.

Antes, porém, Severiano havia projetado aquela que, possivelmente, tenha sido a sua maior obra no Estado, o estádio Vivaldo Lima, derrubado e substituído pela Arena da Amazônia para a Copa de 2014. Se o projeto atual do novo estádio foi feito na Alemanha, no formato de uma grande cesta de palha trançada, o de Severiano era o de uma tartaruga gigante. Até os tijolos das paredes externas do Vivaldo Lima eram tijolos aparentes, representando as divisões que as tartarugas têm no casco.

Obras desfiguradas e desmontadas
Falando em Copa do Mundo, após a Copa de 1970, no México, foi inaugurado o restaurante Chapéu de Palha, no bairro de Adrianópolis, também obra de Severiano. O restaurante tinha o formato de um imenso chapéu. Na época as pessoas diziam que o estabelecimento era um 'sombrero' mexicano, desconhecendo que a homenagem era, na verdade, para a indumentária amplamente usada pelo caboclo ribeirinho. O Chapéu de Palha durou décadas até fechar suas portas e ser desmontado. Atualmente no lugar existe um mini shopping.

Outra obra de Severiano que acabou desfigurada com o tempo foi a famosa, enquanto existiu, Credilar Teatro. A Credilar foi uma rede de lojas de eletrodomésticos existente em Manaus a qual prosperou com a chegada da Zona Franca. A loja em questão ficava na esquina da avenida Eduardo Ribeiro com a 10 de Julho, onde hoje tem uma Caixa Econômica. Vários elementos tanto da estrutura interna quanto da externa da loja, eram de grossas madeiras de lei, matéria-prima característica de Severiano, abundantes naquela época e fartamente usadas por ele. A loja era um atrativo turístico da cidade, pelos produtos importados que vendia e também pela arquitetura inusitada.

"O atual comando da PM, em Petrópolis, também é obra do Severiano", falou Roberto Mendonça. "O prédio também possuía várias partes interiores em madeira, como as venezianas, por exemplo, que ele costumava colocar em seus projetos devido o calor de Manaus. Ainda hoje possui partes de madeira, mas já foi muito modificado. O prédio foi inaugurado em 1971, como quartel do 1° Batalhão e só virou comando em 2002", acrescentou.

Roberto Mendonça lembrou ainda que o prédio do Banco da Amazônia, na Sete de Setembro; da Suframa, no Distrito Industrial; e a igreja ecumênica de Rio Preto da Eva são obras do arquiteto, "Mas existem várias outras espalhadas pela cidade, que mereceriam uma melhor atenção pelo fato de serem históricas", reclamou.

O arquiteto da floresta e seus modelos únicos
Severiano Porto, conhecido como "arquiteto da floresta" ou "arquiteto da Amazônia", foi o responsável por conceber um modelo único de arquitetura amazônica, que mescla técnicas locais com estratégias que atentam ao rigor do clima e à economia de meios.Nascido em Uberlândia em 1930, aos cinco anos de idade Severiano mudou-se com a família para o Rio de Janeiro. Em 1954 formou-se pela FNA (Faculdade Nacional de Arquitetura), da Universidade do Brasil.

Em 1963 viajou a turismo para Manaus. Dois anos mais tarde foi convidado pelo então governador do Amazonas, Arthur Cezar Ferreira Reis, a realizar a reforma do palácio do governo e o projeto da Assembleia Legislativa do Estado, que não se concretizaram. No período em que permaneceu na capital amazonense, Severiano recebeu outras encomendas de projetos e então se mudou para Manaus.
Seu escritório, no Rio de Janeiro, permaneceu sob a coordenação de seu sócio Mário Emílio Ribeiro, colega de turma na FNA e coautor de importantes projetos como o estádio Vivaldo Lima (1965) e o Campus da Universidade do Amazonas (1970).

O conjunto de sua obra foi premiado em 1985 pela Bienal Internacional de Arquitetura de Buenos Aires. Em 1987 foi reconhecido internacionalmente, sendo eleito o homem do ano pela revista francesa L'Architecture d'Aujourd'hui. A parceria entre Severiano e Mário Ribeiro é, também, amplamente reconhecida, tanto que ambos receberam o prêmio Personalidade do Ano em 1986 pelo IAB carioca.
Entre 1972 e 1998, Severiano exerceu a função de professor de arquitetura e urbanismo na Faculdade de Tecnologia da Universidade do Amazonas.

Em 2003 retornou ao Rio de Janeiro e transferiu seu escritório para Niterói, onde passou a morar.
A obra de Severiano Ribeiro, sobretudo os projetos desenvolvidos em Manaus, é marcada pela presença de um regionalismo eco-eficiente, no sentido de uma aplicação sempre renovada dos princípios de conveniência e economia tradicionais da cultura local amazonense.
Fonte: Arch Daily

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