Manaus, 25 de Setembro de 2018
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Advertências à pretensão diretória - parte 2

Por: Daniel Nascimento
06 Jul 2018, 17h11

Crédito:Divulgação
Se a primeira advertência a todo aquele que quer ser diretor de instituição de educação profissional e tecnológica (EPT) é que não se candidate se não tiver um memorial de feitos devidamente registrados para apresentar e a segunda é a demonstração de que tem conhecimentos, habilidades e atitudes que lhe equiparem a um estadista institucional, as três outras comporão o perfil profissiográfico mínimo para que alguém possa ocupar essa posição com a garantia de que a instituição e seus membros componentes não se arrependerão dessa ocupação. Note bem: essas três exigências em termos de advertências não é o retrato de um diretor ideal, impossível de ser encontrado na prática. São requisitos mínimos, o que implica em obrigatoriedade para todo indivíduo que, honestamente, queira se dispor a trabalhar pela coletividade. Este artigo tem como objetivo apresentar as três exigências que todo indivíduo precisa cumprir para ocupar a posição de diretor de uma instituição de EPT sem passar vexame.

Todo diretor precisa ser bom de pesquisa. Entenda-se pesquisa como a geração de conhecimentos sobre fatos e fenômenos do mundo (pesquisa científica) ou a geração de novos produtos e serviços (pesquisa tecnológica). Aquelas pesquisas que você fez durante o doutorado (mais uma vez: se você não é doutor, esqueça a candidatura a diretor: você não tem perfil para tal) até podem lhe dar uma ideia do que você precisa fazer durante o mandato, mas não são suficientes para que você entenda o desafio de fazer com que sua instituição instaure ou mantenha uma produção científica consistente. E consistente significa ser capaz de gerar conhecimentos que as comunidades científicas dos grupos científicos de sua instituição considerem importantes ou que os ambientes de atuação reconheçam dessa forma, tanto que pagam para que sua instituição continue a produzi-los.

Se você não for doutor e se for e não pesquisar, não saberá e nem desconfiará que uma publicação em revista científica qualificada como A na Capes, por exemplo, equivale a uma medalha de ouro em olimpíadas ou conquistar a copa do mundo de futebol. Se você não for pesquisador, quando alguém de sua instituição conseguir publicar um livro, você nem desconfiará que aquele feito teria que ser festejado, reunido toda a imprensa do seu Estado para uma entrevista coletiva e divulgado o feito em todas as mídias. Se você não for pesquisador, quando for diretor dará tanta importância às descobertas dos seus pesquisadores quanto as baratas dão importância para os ambientes limpos.

A quarta exigência é consequência da pesquisa: você tem que conhecer os mercados das áreas de atuação da sua instituição. E, quer você queira ou não, é sua obrigação obter dinheiro e recursos para que as atividades-fim de sua instituição continuem produzindo, principalmente em momentos de crise. Aliás, é nesses momentos que se sabem quem é que está efetivamente preparado para ser diretor: só eles conseguem fazer suas instituições crescer, enquanto as demais naufragam. Naufragam como consequência do improviso gerencial de seus dirigentes, que não apresentam as exigências aqui listadas.
Você precisa saber o nome dos principais atores dos seus mercados e ser reconhecido por eles. E ser reconhecido quer dizer ser lembrado e ter notoriedade em relação a eles, ainda que eles não lhe conheçam pessoalmente. Na prática, você precisa saber que organizações querem comprar pesquisas científicas, inovações, capacitações e qualificações profissionais e quem quer se unir à sua instituição inclusive para formar novas organizações em formato de parcerias e joint ventures. Conhecer a demanda, quem quer comprar aquilo que sua instituição sabe, pode e quer vender (ensino, pesquisa, extensão, inovação e empreendedorismo tecnológico) é tão importante quanto a outra ponta, que são as parcerias de produção.

É preciso que você seja capaz de estabelecer um sistema de produção para alavancar as atividades-fim de sua instituição. Se você faz parte de uma instituição pública, por exemplo, estará certamente limitado a contratar pessoas, materiais, equipamentos, tecnologias e toda sorte de aquisições. Como fará o suprimento? Novamente, aqueles seus contatos de tempo de doutorado podem ajudar, mas é sua história, seus feitos, seu network, que efetivamente decidirão se os contratos e convênios serão passíveis de serem honrados. Você precisa conhecer pesquisadores nacionais e internacionais para dar conta dos desafios. Se você não for pesquisador, certamente pesquisa, extensão, inovação e empreendedorismo tecnológico ficarão à míngua, como se constata em praticamente todos os campi mal dirigidos. Se você não for pesquisador, provavelmente até terá ódio de quem o é e produz.

A quinta e última exigência ou advertência é com relação às atividades-meio. Você deverá dominar as técnicas de engenharia de produção para casar os desafios a serem superados com o corpo social cuja natureza de suas atividades é o suporte às atividades-fim. Traduzindo em miúdos, você tem que ser bom de finanças, produção, compras, vendas, materiais, patrimônio, contabilidade, recursos humanos, marketing, de maneira que você saiba que informações, recursos e dinheiro precisam ser investidos em determinadas situações e que resultados gerarão em esquema matemático de apoio à decisão.

Tecnicamente, chamamos a isso de sistemas multicritérios de apoio à decisão, mas que, na prática, significa levar em consideração um monte de coisas importantes em uma fórmula matemática que lhe permita demonstrar que você otimizou o uso dos recursos disponíveis para obter o máximo de aproveitamento deles fazendo o que pretende fazer. Nada de improviso.

Esses são os cinco campos de atuação que um diretor de EPT precisa conhecer a lógica (ter conhecimento), saber fazer (ter habilidade) e agir sempre assim (ter atitude). É a isso que chamamos competência: conhecer, ter habilidade e ter atitude. Dessa forma, um diretor de campus, centro ou instituto precisa ter um histórico de feitos que permita atestar sua capacidade de realizações, dominar os procedimentos e ferramentas de gestão, ser pesquisador, conhecer profundamente o mercado da área de atuação de sua instituição e dominar as técnicas multicritérios de produção. Sem isso, esqueça a pretensão de ser diretor. Além de ser ridicularizado nos corredores, certamente servirá de chacotas e ironias entre as organizações e instituições com as quais tentará, em vão, qualquer tipo de parceria.

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