Manaus, 12 de Novembro de 2018
Siga o JCAM:

As medalhas de ouro do Waldocke

Por: Evaldo Ferreira - eferreira@jcam.com.br
11 Jul 2018, 14h58

Crédito:César Pinheiro
Houve uma época, até a década de 1970, em que escola pública era sinônimo de ensino de qualidade. Depois, por motivos vários, a coisa degringolou e se tornou comum citar 'escola pública' como local onde não se aprendia nada. Mas bastam algumas ações para que as coisas se modifiquem.

"Quando a PM assumiu a direção da Escola Estadual Professor Waldocke Frick de Lyra, no Tarumã, o coronel Rudney Caldas, seu primeiro diretor, tinha como objetivo transformar o Waldocke numa escola de referência. Os resultados começaram a aparecer em 2014, quando assumi a direção da escola em substituição ao coronel Rudney e dei continuidade ao trabalho dele. Naquele ano, e no ano seguinte, dois de nossos alunos ganharam medalha de ouro na Obmep (Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas)", falou o coronel Alysson de Almeida Lima, atual diretor do Waldocke.

Este ano os alunos do Waldocke foram mais longe e seis deles (Alessandra, Ana Flávia, Luiz Alberto, Raphaela, Thiago Matos e Felipe Vieira) ganharam medalha de ouro na Olimpíada Internacional de Matemática sem Fronteiras, organizado pela Rede POC (Programa de Olimpíadas do Conhecimento). Pelo feito, foram convidados a integrar a delegação do Brasil que irá a Bangcoc, na Tailândia, participar da Aimo (Asia International Mathematical Olympiad), entre os dias 3 e 7 de agosto. E eles vão. Já estão com passagens, passaportes e diárias nas mãos.

Essa segunda conquista se deu graças ao fato de o Waldocke ter sido a única escola pública do Amazonas a conquistar as tão almejadas medalhas de ouro. "Após eles ganharem as medalhas, fomos fazer uma visita ao secretário de Educação Lourenço Braga e eu falei sobre o convite para irmos a Bangcoc. Prontamente o secretário liberou as passagens e estadias para os alunos, mais dois professores e eu, como chefe da comitiva", exultou Alysson.

O coronel creditou as conquistas de seus alunos principalmente aos professores de matemática da escola: Wilson, Mael, Mona Lisa e Saraiva. Mael, inclusive, foi aluno do Waldocke e foi apontado por alguns dos alunos medalhistas como seu principal mentor para o gosto pela matemática.

Ensino moderno e diferenciado

"Para se aprender matemática com mais facilidade, primeiro você tem que gostar da matéria, depois, ter alguém que te inspire. Quando ensinamos matemática precisamos relacioná-la aos assuntos do dia a dia, e propor desafios para os alunos. E outra coisa: incentivar os alunos a ler porque hoje em dia os problemas de matemática trazem textos explicativos os quais você precisa entender para conseguir resolver os problemas", falou Wilson. "A conquista das medalhas é uma vitória dos alunos e um orgulho para nós, professores, em ver que o nosso trabalho está sendo bem feito", completou. "Também não devemos esquecer do suporte que a direção da escola nos dá: bons livros, material didático e uma sala específica para o estudo da matéria", lembrou Saraiva. "E temos liberdade para trabalhar o conteúdo. Isso é muito importante. Com o sucesso dos alunos, notamos o interesse de outros em querer fazer parte do grupo que estuda matemática", revelou Mona Lisa.

"Além do lanche, que é servido para os alunos, os que estudam matemática ainda têm direito a almoçar aqui na escola, pois ficam alguma horas a mais no Waldocke", explicou o coronel Alysson.

Uma escola numa área vermelha

Cada um dos seis alunos têm histórias diferentes, porém, parecidas com relação ao seu gosto pela matemática. "Comecei a gostar de matemática por causa do professor Mael. Suas aulas são diversificadas, além do currículo diferenciado. Ele ensina matemática através de brincadeiras", explicou Thiago.

"Comecei a aprender matemática com meu pai Roberto, que era professor de matemática, e depois com meus irmãos, que também gostam da matéria", contou Ana Flávia.
"Desde muito novo sempre entendi os números e o meu pai Gilson ajudou demais. Ele sempre me ensinou que tudo na vida é possível", revelou Felipe.

"Desde pequena gostava de ler, mas tinha dificuldades com as contas. Meu pai Rosenir e minha mãe Érida me ajudaram bastante. Os professores das outras escolas onde estudei me indicaram o Waldocke e realmente aqui me aperfeiçoei na matemática", falou Alessandra.

"Primeiro os meus pais, depois os colegas aqui no Waldocke e depois os professores me fizeram gostar de matemática", disse Luiz.

"No começo achava a matemática fácil. Depois os cálculos foram piorando até começar a estudar com o professor Mael, que me passou confiança, e eu voltei a entender e gostar de matemática", completou Raphaela, que fala inglês fluentemente e aprendeu sozinha, principalmente na internet. Ela já se prepara para fazer o discurso, em nome do grupo, em Bangcoc.

A Escola Waldocke está localizada na comunidade São Pedro, na antiga invasão da Carbrás, de 2004, no Tarumã, considerada uma das áreas vermelhas da cidade. Avessos à falta de serviços de saúde e segurança na região, os seis garotos, na faixa etária de 13 e 14 anos, cursando a 8ª série, estão mais preocupados é com sua viagem à Tailândia, que acontecerá no próximo dia 1º de agosto. Serão 30 horas de viagem e cinco dias no país asiático, na primeira grande conquista de suas vidas conseguida graças aos seus conhecimentos.

Comentários (0)

Deixe seu Comentário