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Risco do autodiagnóstico e a segurança do check-up

Por: Américo Tângari
13 Set 2018, 11h14

A internet é uma ferramenta tecnológica que torna mais rápida a comunicação no mundo moderno, um grande avanço da civilização. Mas é um meio eletrônico para troca de informações, não pode ser confundida com o guru iluminado que sobe ao pico da montanha para semear a sabedoria na terra.

Como é máquina alimentada por seres humanos - em geral desconhecidos, limitados e sujeito a erros, como toda a espécie -, convém não submeter a própria vida às informações que chegam pelo computador ou pelo smartphone.

Mas, infelizmente, é o que vem ocorrendo com uma boa parte dos brasileiros e de outros povos que preferem se autodiagnosticar e a se automedicar segundo a "sabedoria" do doutor Google. Essas pessoas ainda não perceberam os riscos a que estão sujeitas.

Assim como proliferam as fake news, as informações médicas pela internet podem ser igualmente falsas ou desprovidas do devido embasamento científico, embora reconheçamos as mais sérias, de fontes identificadas e comprovadas.

Porém, isso não justifica o fato de alguém, a partir de um incômodo qualquer, recorrer à internet, verificar o nome de algum remédio, se automedicar e, depois, ficar sem saber se é portador ou não de alguma doença. Pode ser que o incômodo volte outras vezes e só aí o paciente poderá desconfiar de algo mais sério, além do mal-estar passageiro.

Nesses tempos de tanta tecnologia disponível na área médica, algumas pessoas se esquecem da importância do exame clínico para o diagnóstico e tratamento de doenças. O exame é dividido em duas etapas: a anamnese e o exame físico.

Anamnese (do grego ana, trazer de novo, e mnesis, memória) é básico: o paciente deve relatar ao médico seus sintomas, falar de seu passado e presente, de sua vida, de sua família e de seus antecedentes, de seus hábitos. Neste processo deve-se estabelecer uma conversa franca entre os dois.

A partir daí, além dos exames laboratoriais, é possível obter informações sobre o estado geral do paciente, podendo ser identificadas doenças por meio de sinais e sintomas. Mas medicina não é uma ciência exata. Por exemplo, não é possível um diagnóstico de infarto do coração em diversas situações em que nenhum exame o identifica, principalmente pela internet.

Nessa interação com o paciente se formulam 70% dos diagnósticos. O foco na pessoa - e não no computador ou na ressonância magnética - é que levará às causas de uma moléstia e a indicar o melhor caminho para o tratamento. Em cardiologia, por exemplo, médico e paciente precisam ficar atentos aos sintomas que podem indicar algum tipo de comprometimento.

Alguns sinais podem ser confundidos com um simples mal-estar. Sudorese, tremores e falta de ar estão entre as várias manifestações de princípio de infarto agudo do miocárdio. Mesmo em análise para diferenciar infecção de inflamação é preciso levar em conta sinais, sintomas e as diversas variações clínicas e exames laboratoriais. Outro caso é o AVE - Acidente Vascular Encefálico, antes chamado de AVC -, que pode se manifestar apenas como uma confusão mental passageira. Como tratar essa informação pela internet? O que pode ser apenas mal-estar de momento pode esconder algo mais grave e cabe ao médico investigar e tratar.

Levantamento recente do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ), entidade de pesquisa e pós-graduação na área farmacêutica, divulgado pelo jornal O Estado de S. Paulo, mostrou que a situação é mais grave do que se imagina. Afinal, pessoas das classes A e B, jovens e com curso superior, formam a maioria dos pacientes que usa a internet para se autodiagnosticar. O terceiro estudo do instituto sobre o tema apontou que 40,9% dos brasileiros fazem autodiagnóstico pela internet. Desses, 63,84% têm formação superior.

Na pesquisa anterior, de 2016, o índice de autodiagnóstico online foi de 40%. Imaginava-se que o público em busca de soluções pela internet era de classe média para baixo, por falta de condições de procurar um médico.

Mas o resultado surpreendeu e surgiram então as pessoas das classes altas, esclarecidas e com poder econômico para buscar informações mais concretas e conscientes sobre saúde. Na classificação econômica, 55% dessas pessoas são das classes A e B e 26% das classes D e E. As de renda mais baixa ainda buscam mais o médico em prontos-socorros. Quanto mais idosas, mais recorrem ao médico, pois têm dificuldade com a internet. O levantamento foi feito em maio deste ano em 120 municípios, incluindo todas as capitais, e ouviu 2.090 pessoas com mais de 16 anos.

Para os pesquisadores, o imediatismo está entre as motivações, principalmente entre os jovens de 16 a 34 anos. Imediatismo ou preguiça da rotina de marcar um horário, o tempo às vezes longo na sala de espera, depois os exames, etc.

Esses pacientes costumam procurar o médico já com efeitos colaterais ou interação medicamentosa. Ou seja, alguma doença foi mascarada, o que resultará em diagnóstico retardado.

Boa parte das doenças começa com dor, febre, indisposição, sintomas comuns, e as pessoas se valem de remédios mais conhecidos, sem esperar sua progressão. Aí mora o perigo de mascarar algo mais grave.

Se o paciente não tem nenhum dos sintomas e vai ao consultório apenas em nome da prevenção, ótimo. Está a caminho de uma vida mais longa. De todo modo, é importante fazer um check-up uma vez por ano, a verdadeira chave da boa saúde.

Enfim, fazer da prevenção o principal aliado, manter o compasso da máquina e viver intensamente. O corpo merece, em nome da sobrevivência.

Américo Tângari Junior é especialista em cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia e Associação Médica Brasileira.

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