Manaus, 14 de Novembro de 2018
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Esse jeito único de falar

Por: Antonio Parente
22 Out 2018, 17h58

Antigamente, o que era vergonhoso para muitos cidadãos manauara, hoje é motivo de orgulho e uma forma de mostrar a identidade e cultura de um povo, que a cada dia revive sua história e redescobre pontos que ajudaram a construir toda uma maneira de ser.

Quem já parou para conversar com um manauara em uma feira ou na esquina de um buteco, já deve ter ouvido expressões do tipo: "Tá quente nos baldes"; "o tamanho daquela cobra era maceta" ou simplesmente um "Vishi Maria!". Todas estas, são algumas da expressões que fazem parte do tradicional modo de falar do manauara, que a cada dia reflete as diferente culturas que contribuíram para formar o que ela é hoje.

De acordo o amazonense Sérgio Augusto Freire de Souza, manaura e professor da UFAM (Universidade Federal do Amazonas),os vocábulos e expressões usados em Manaus, são propriedade da cultura baré, unicamente vivida por um povo que tem sua forma única de se comunicar. "O falar oral amazonense tem sido resgatado e valorizado. Antes era uma coisa ruim, fala de gente do bodozal, de pobre. Hoje, o amazonês virou grife, vende camisas e canecas, é uma marca. E, de fato, é uma marca de identidade da qual todos nós temos de nos orgulhar", afirmou.

Segundo o Sérgio, a riqueza de uma língua está nas diferentes culturas que contribuíram ao longo da história, para formatar o os vocábulos e a maneira de se comunicar de um povo, e com Manaus não é diferente.

"Manaus é uma cidade que tem falantes de várias línguas. Primeiro tem a questão histórica. A cidade acolheu uma colônia japonesa há muito tempo atrás. Mais recentemente, chegou o grupo de falantes coreanos, por causa do Distrito Industrial, e de haitianos e venezuelanos, por questão de geopolítica, fugindo de seus países. Fora isso, há ainda a presença muito forte de várias etnias indígenas, que mantém suas línguas, na área urbana. A vocação da cidade é cosmopolita", disse.

Ele explica que a riqueza da forma de se comunicar do manauara, é fruto da soma d e outras línguas e culturas, que com suas infinidade de riqueza ajudaram a formar a maneira de falar. "Língua é isso, é história. O contato linguístico quase sempre se dá por questões econômicas e quase sempre esse encontro é enriquecedor.

"Com a globalização, há uma redução de tempo e espaço e, com isso, uma maior influência de outros falares por conta da televisão e da Internet. Mas mesmo com todas essas influências, há um caráter de identidade que vai sempre se manter", disse.

Mesmo com o avanço das tecnologias o fácil acesso a outras culturas e contextos históricos, ele afirmou que a sobrevivência da forma de falar do manauara, depende unicamente do próprio caboclo que vive em Manaus

"A forma de falar do manauara, vai para onde o povo quiser levar. Língua é isso. Há um dinamismo que faz com que ela caminhe sem muita previsão. Mas uma coisa é certa: sempre vai ser marca da identidade amazonense e nós sempre vamos nos identificar com ela", dise.

O doutor em linguística, Sérgio Freire, fala ainda sobre uma das características mais evidentes do amazonense, a linguagem específica da nossa terra. " A língua oral amazonense é um produto de nossa história. Temos uma matriz tripa na composição do português amazonense: o português europeu (de onde vêm a estrutura da língua e o nosso chiado), o português nordestino (que veio junto com os nordestinos, conhecidos como os soldados da borracha, que para cá vieram na década de 1940, no segundo ciclo da borracha) e a ampla influência da linguagem indígena da região, analisou.

Ele destaca ainda que aquele famoso 'S' chiado, herdamos dos portugueses, dos nordestinos, termos égua, engelhado, escangalhado, esculhambado, leso entre outros; dos índios, expressões como ficar de bubuia, só o cuí de magro, carapanã e cunhã. "Língua é história e a nossa história vem desses lugares", destacou Sérgio.

Nos últimos anos, tem havido um revalorização do falar amazonense. Essa revalorização acaba virando produtos de consumo: hoje há sites sobre a linguagem amazonense, bem como produtos como canecas e camisetas trazendo como motivo o falar local.

"Ao linguista cabe esse trabalho. Mas a língua está em movimento e expressões novas surgirão e algumas antigas deixarão de ser faladas. O importante é compreender a língua como fator de identidade e não de vergonha. Na nossa linguagem oral encontramos nossa história e, por isso, encontramos a nós mesmos", destacou o doutor em linguística.

Dicionário de Amazonês

Sérgio Augusto Freire de Souza é amazonense de Manaus, e professor da UFAM (Universidade Federal do Amazonas ), mestre em Letras pela própria UFAM e Doutor em Lingüística pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Ele é autor do livro Dicionário de Amazonês. Abaixo algumas expressões do jeito único de falar do manauara.

ABACABEIRO; BACABEIRO: Mentiroso.
ABARROTADO : Cheio demais.
ACHO É BOM! : Bem-feito!.
AJUNTAR: Apanhar o que está no chão
ALOPRADO: Exagerado.
APRESENTADO: Metido a besta.
APROCHEGAR-SE: Aproximar-se.
BABUGEM : Resto de comida.
BACIO: Penico.
BAGACEIRA: Noitada.
BANHO-DE-CUIA: Gíria futebolística: lençol, situação em que o jogador, com um leve toque, passa a bola sobre o corpo do adversário e pega do outro lado. Banho com o auxílio de uma cuia feita de cabaça-do-mato (árvore que produz cabaças).
BANZEIRO: Pequena onda que se forma nos rios amazônicos por causa do movimento dos barcos semelhante à onda do mar.
BARCA : O povo, todo mundo.
BATER PERNA: Andar muito.
BATORÉ: Baixinho.
BEIJU: Biscoito chato, leve e fino feito com a massa da mandioca.
BORA VER: Seja o que Deus quiser.
CABAÇO: Hímen.
CABAÇUDA: Virgem.
CABEÇA-DURA: Teimoso, que ninguém consegue fazer mudar de opinião.
CABIDELA: Cozido de galinha feito com o sangue da ave, dissolvido em vinagre.
CABIMENTO: Sentido..
CABOCA: Mulher.
CABOCÃO: Alguém que não se comporta direito.
CABOCO: Homem.
CACHULETA;PLETS: Peteleco dado com o dedo na orelha de alguém.
CACIMBA: Poço de pouca profundidade, em que a água mina de uma fonte próxima.
CACOETE: Mania.

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