Manaus, 10 de Dezembro de 2018
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Jacaré, importante fonte de renda

Por: Evaldo Ferreira - evaldo.am@hotmail.com
30 Nov 2018, 19h20

Crédito:Evaldo Ferreira
Desde junho o abate de jacarés está autorizado pelo Ipaam (Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas), na comunidade Jarauá, município de Uarini, no rio Amazonas, na RDS (Reserva de Desenvolvimento Sustentável) Mamirauá. No entanto, culturalmente, o amazonense não tem interesse em consumir carne de jacaré. A saída seria exportar essa carne para outros estados. Mas aí o exportador precisaria ter o SIF (Selo de Inspeção Federal), que poucos frigoríficos no Amazonas possuem. Teria o couro, valiosíssimo no mercado internacional, mas também o Amazonas não possui nenhum curtume para processar esse couro. Quais seriam as soluções?

De acordo com a lei número 5.197, de 1967, que foi renomeada, modificada e novamente promulgada em 1988 com o nome de Lei de Proteção à Fauna, "Os animais de qualquer espécie, em qualquer fase do seu desenvolvimento e que vivem naturalmente fora do cativeiro constituindo a fauna silvestre, bem como seus ninhos, abrigos e criadouros naturais, são propriedade do Estado, sendo proibida a sua utilização, perseguição, destruição, caça ou apanha".

Décadas de estagnação em se poder fazer sequer o manejo do jacaré, resultaram hoje na incapacidade de transformá-lo numa importante fonte de renda principalmente para os moradores do interior em toda a Amazônia.

"Hoje sabemos que existe uma super população de jacarés em toda a Amazônia, em regiões distintas, e isso causa até um desequilíbrio na natureza, pois jacarés comem peixes e como o peixe é liberado para a pesca, homens e jacarés disputam um mesmo alimento, que acaba escasseando", falou Malvino Salvador, diretor de Assistência Técnica e Extensão Florestal do Idam (Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas).

Exportar carne e couro
Entre 2004 e 2010, a título de experiência, foram testados procedimentos de captura, avaliação da qualidade de carne e pele, estudos de logística, questões sanitárias e de mercado na RDS Mamirauá. Na ocasião, o pesquisador do Inpa, Ronis da Silveira, calculou em um milhão de jacarés na reserva, que possui um milhão de hectares. Anos antes o pesquisador já dissera que o estado do Amazonas possuía o maior potencial para ser o embrião do manejo desta espécie.

"No primeiro abate experimental, abatemos 40 indivíduos e trouxemos dez vivos até Manaus, para experiências. Os couros foram mandados para fora do Amazonas, para serem curtidos e a carne, colocamos em alguns supermercados para ser vendida. Ainda realizamos um jantar à base de carne de jacaré no restaurante do Tropical Hotel. Resultado, os convidados podem até ter gostado da degustação, mas a carne nos supermercados, estragou e ninguém comprou. Dos animais trazidos vivos, eles ficaram tão estressados que após serem mortos e eviscerados, vimos que a carne havia estragado", lembrou Malvino.

"O caminho mais viável seria exportar a carne, mas esbarramos na falta do SIF ainda no abatedouro, no caso, na RDS Mamirauá, porém, já temos a solução. Idealizamos, projetamos e agora falta construir um matadouro flutuante. Esse matadouro seria construído sobre um catamarã, medindo 7,5m x 12m. Quando acontecesse o abate por manejo, dentro de uma Unidade de Conservação, esse jacaré seria levado para o matadouro ainda vivo", falou.

"Lá ele seria abatido, eviscerado, esfolado, higienizado e depois enviado inteiro, dentro de sacos plásticos, para um frigorífico em terra. Esse processo todo viabilizaria o matadouro flutuante conseguir o SIF. A partir daí sobraria o couro, e curtumes poderiam voltar a surgir em Manaus, como acontecia até a década de 1960", afirmou.

Mais renda para a Amazônia
"O entrave para se conseguir o SIF é exatamente a falta de todo esse processo de higienização que o matadouro flutuante proporcionaria. O problema do jacaré é seu couro, coberto por bactérias que podem contaminar com salmonela a carne. Mas, realizada a higienização, isso deixa de ser um problema e o couro pode ser exportado, bem como as vísceras, para serem transformadas em ração", informou.

Atualmente o preço do couro varia de R$ 28 a R$ 30 o centímetro para o mercado de bolsas e sapatos.
"Orçamos em pouco mais de R$ 800 mil o valor do matadouro flutuante e já estamos viabilizando verba para a construção de um protótipo. A vantagem dele ser um catamarã flutuante, é que pode ser levado para as diversas partes de um grande lago, por exemplo, onde haja boa incidência de jacarés, facilitando todo o processo desde a pesca do animal até o seu envio para um frigorífico. Inclusive o mesmo matadouro pode ser usado nas pescas de pirarucu. Acreditamos que, com esse matadouro flutuante, finalmente conseguiremos transformar o jacaré numa importante fonte de renda para toda a Amazônia", concluiu.

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