Manta e São Paulo

Em: 5 de maio de 2008
O canal do Panamá consumiu bilhões de dólares em valores de hoje. Consumiu milhares de vidas, caras em qualquer tempo, para que fosse construído.
O canal do Panamá consumiu bilhões de dólares em valores de hoje. Consumiu milhares de vidas, caras em qualquer tempo, para que fosse construído.

No último dia do mês de abril, foi feita a inauguração do vôo ligando Guaiaquil a Manaus. A responsável pela rota é a empresa equatoriana Tame, uma estatal daquele país. O evento, realizado no Hotel Tropical, contou com a presença de dois Ministros de Estado do Equador, além do presidente da empresa e autoridades locais.
A intenção do estabelecimento desta rota, inicialmente com dois vôos semanais, é promover uma maior integração com o país próximo, embora não faça divisa direta com o Brasil. Mas, há uma outra razão maior: estabelecer uma rota de mercadorias com o pacífico. Um sistema multi-modal que usaria o rio até onde a navegação permitisse e depois por terra até o porto de Manta. O resultado disso seria aproximar mais, ou diminuir a distância e o tempo de mercadorias vindas principalmente de Ásia. A formação deste corredor visa diminuir custos e agilizar a vinda de mercadorias.
Claro que entre Equador e Brasil existe um terceiro país interessado, o Peru, por cujo território estas mercadorias teriam de transitar. É um projeto audacioso que, se levado a cabo, irá promover uma integração entre os países da América do Sul. A rota aérea, que não se preocupa com rios e cordilheiras, serviria a turistas e a empresários sem tempo para fazerem o longo trajeto multi-modal.
Sem querer diminuir os méritos deste audacioso projeto; sem querer minimizar o Equador com suas quatro regiões definidas entre andina, amazônica, litorânea e das ilhas de Galápagos, por isso mesmo com atrativos turísticos que falam por si; sem querer desviar a atenção do universo de consumidores e fornecedores que com isso se aproximam do pólo industrial de Manaus; conudo, não devemos esquecer um velho projeto que poderia aproximar o Brasil do Brasil: O prolongamento da Transamazônica. Uma coisa não impede outra. Muito pelo contrário: a complementa.
A Transamazônica, herança de governos militares como a própria lei que criou a Zona Franca de Manaus, visava integrar os povos brasileiros. Iniciada em 1972 nunca foi terminada. Aliás, a parte “terminada” oferece más condições de trafegabilidade como quase todas as estradas brasileiras.
Mas, esqueçamos os problemas técnicos de varejo. A ligação com Santarém e depois Cuiabá, encurtaria a distância em 800 km o trajeto atual desde São Paulo, que passa por Porto Velho. Bastaria para isso que se completasse o trecho que vai de Santarém a Itaituba e de Itaituba a Maués. O trajeto por água seria feito de Maués até Itacoatiara. Novamente viria por estrada até Manaus.
O veículo que hoje passa quatro dias e quatro noites em cima de uma balsa de Porto Velho a Manaus, ou sete se o trajeto é feito por Belém, ficaria apenas 15 horas entre Maués e Itacoatiara, poupando a paciência dos motoristas e agilizando o vai-e-vem das mercadorias.
Dizia um diretor de uma fábrica no Pólo Industrial de Manaus: “Nossa preocupação com os 170 milhões de consumidores brasileiros é menor do que os 6 bilhões de consumidores no mundo.” Sem dúvida que não devemos dificultar a integração com todos os povos. Mas a história nos ensina que para conquistar o mundo devemos ter nossa casa arrumada.
A ligação inter oceanos é um sonho antigo. O canal do Panamá consumiu bilhões de dólares em valores de hoje. Consumiu milhares de vidas, caras em qualquer tempo, para que fosse construído.
Sonhar sempre foi permitido. Muitos e muitos grandes projetos, como a Ponte sobre o Rio Negro, surgiram assim. Se o sonho da Transamazônica foi concebido para dar suporte à Zona Franca de Manaus, por que não retomá-lo?

LUIZ LAUSCHNER é escritor e empresário, é membro do conselho nacional da Abrasel.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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