‘Descarto aliança com o PT’, diz Hissa Abrahão

Em: 2 de setembro de 2020
Entrevista com Hissa Abrahão, pré-candidato a prefeito de Manaus pelo PDT
‘Descarto aliança com o PT’, diz Hissa Abrahão

Ex-vereador, ex-vice-prefeito, ex-secretário municipal de Obras e ex-deputado federal. Pré-candidato pelo PDT à eleição para prefeito de Manaus, Hissa Abrahão já conta com mais de 20 anos de política e acumula diversas funções chave em seu currículo, apesar de ainda ser relativamente jovem – completou 40 anos, em agosto. Sem cargo oficial desde janeiro de 2019, quando deixou a Câmara dos Deputados, o político garante que a maturidade recém adquirida veio acompanhada por experiência e preparo que o gabaritam a ser escolhido como o sucessor do atual gestor municipal – com o qual rompeu, em 2014. Recusa o apoio de lideranças veteranas e partidos enredados em casos recentes de corrupção, mas admite passar o bastão para outra candidatura, caso a sua não ganhe a musculatura necessária para chegar lá. Na conversa com o Jornal do Commercio, defende projetos de mobilidade urbana e saúde, lamenta a crise das esquerdas e os equívocos em torno dela, se defende de denúncias que aponta como equivocadas, e relembra desafetos. Mas, acima de tudo, não deixa de ressaltar o peso das escolhas pretéritas na construção do futuro político de um candidato. Leia na entrevista, a seguir.

Jornal do Commercio – O senhor começou muito novo na política e, tem uma longa carreira, e já afirmou que, quando se é jovem, se erra bastante. Em que medida sua candidatura a prefeito de Manaus passa essa experiência de vida? 

Hissa Abrahão – Realmente, comecei muito novo. Com 19 anos, tive minha primeira disputa eleitoral e perdi. Consegui me eleger vereador, fui vice-prefeito, secretário de Obras, deputado federal… Sou órfão de pai e não fui tirado do bolso de nenhum cacique. Isso tem um lado bom, porque entrei por ideologia, por ter projetos e por querer mudar a realidade em que vivo. Claro que, quando a gente é muito novo, erra muito. Mas, não recomendo a ninguém ficar olhando para o passado, temos é que olhar para a frente. (…) Completei 40 anos neste mês e me livrei de um trauma: ninguém me diz que estou novo demais. O tempo fez com que eu me aprimorasse e me sinto muito mais sólido, pelo menos para discutir alguns temas. Tenho projetos e tudo que faço hoje é com prazo, plano e orçamentação. A classe política já caiu no descrédito e não dá para convencer ninguém com ideias vazias. Se você me perguntar se me sinto preparado para ser prefeito, digo que sim. Não sei se vou conseguir ser, mas estou. 

JC – Como o senhor pretende desatar o nó mobilidade urbana em Manaus?

Hissa – Neste mês, BID [Banco Interamericano de Desenvolvimento], Caf [Corporação Andina de Fomento] e Fonplata [Fundo de Desenvolvimento da Bacia do Prata] se uniram, por conta da pandemia, para oferecer crédito aos países da América Latina em projetos de infraestrutura, saúde, educação, etc. O dinheiro vem rápido e não é tão difícil captar. Pretendo ir a esses bancos e, junto a uma equipe de técnicos, traçar um plano multimodal. Não dá para falar de ônibus, sem falar de ciclismo, táxi, transporte alternativo, executivo, etc. Precisa de um estudo muito profundo, para não fazer o cidadão andar mais do que um quilômetro, quando muda de transporte. Também é possível integrar nossa geografia terrestre à fluvial, para transporte dentro da área urbana, e não apenas intermunicipal. É um absurdo não fazermos isso! Outro absurdo é que todo mundo diz que têm 1.200 ônibus rodando na cidade. Temos, no máximo, metade dessa frota em operação. Quem salvou o transporte de Manaus do caos foram os aplicativos. Então, com o dinheiro desses bancos e um projeto multimodal, unindo categorias, posso criar um modelo de integração entre os transportes. É a solução que encontrei: se você ajeita um e desfalca outro, não consegue harmonia entre os modais.         

JC – O TCE-AM divulgou uma lista com mais de 600 gestores com contas reprovadas e o senhor está na lista. Como o senhor recebeu essa informação e o que tem a dizer? 

Hissa – A gente sabe como funciona o Tribunal de Contas do Estado. O que posso dizer é que, no dia 24 de junho, tenho, na minha mão, uma certidão do TCE dizendo que não tenho nada irregular. De 24 de julho, dia de vencimento da certidão, até hoje, nada andou, nem foi julgado. Eu, com minha certidão, continuo regular. Acredito que algum funcionário, alguma pessoa desavisada, incluiu meu nome indevidamente. O Tribunal de Contas tem conselheiros altamente capacitados, corretos e que estão sobrecarregados de funções. Por isso, às vezes, delegam a construção de listas como essa – que provocou um terrorismo. Espero que retifiquem, até porque meu nome lá acaba constrangendo a própria lista. E o que é pior: fui secretário de obras e não tem nada de irregular enquanto estive nessa função, mas o que está lá diz respeito ao período em que eu era vice-prefeito, que nem orçamento tem. 

JC – Uma das citações é de 2014, do gabinete de vice-prefeito, e outra é de 2013, referente à Secretaria Municipal de Habitação e Assuntos Fundiários…

Hissa – Pois é… É essa secretaria que eu, depois, acabei passando. Porque, eu era secretário de obras. Até falei para o atual prefeito que tinha de desmembrar, porque tínhamos que preparar Manaus para a Copa, inaugurar a Ponta Negra, o Mercado Adopho Lisboa… Ele passou para outro e eu não assinei praticamente nada da parte de Habitação. Entendo isso como o equívoco de algum funcionário do TCE-AM.   

JC – Nesse momento de pré-campanha, surgiram vários nomes, mas muitos acabaram sendo retirados do tabuleiro. O senhor descarta a possibilidade de fazer uma composição e entrar como vice em outra candidatura?

Hissa – Descarto duas possibilidades. Uma delas é qualquer aliança com o PT, por questões óbvias: R$ 800 milhões desviados da Petrobras, três tesoureiros presos, etc. Descarto aliança também com o Amazonino. Ele fez uma belíssima biografia, mas não tem mais condições físicas e mentais de cuidar de uma tarefa tão difícil, como uma prefeitura. É uma pena, é da vida, e vai acontecer com todo mundo. Estou lutando muito para ser candidato a prefeito. Mas, da mesma forma que estou esperando que as outras candidaturas repensem em declinarem e serem meus apoiadores, não posso dizer que sou dono da verdade. (…) Se eu não conseguir alianças, não serei candidato. Já fui candidato sozinho e sei o quanto é ruim, não dá. Se eu perceber que não consigo reunir as condições para tornar minha candidatura competitiva, recuo e apoio outra pessoa, sim.

JC – E o apoio do PSDB e do prefeito, poderia vir?

Hissa – O PSDB aparentemente tem seu candidato. Soube que Alfredo [Nascimento] e Conceição [Sampaio], embora ainda não seja nada oficial. Para mim é tão óbvio que eu e o atual prefeito não estejamos juntos, que acabei não falando. Fica muito difícil essa aliança, por tudo que já passamos. Sou coerente até nos meus rompimentos. O Arthur, na sua primeira gestão, governou para dentro de casa, para eleger o [Arthur] bisneto [a deputado] federal. Na segunda, governa para a ‘Betinha’ [a primeira dama, Elizabeth Valeiko]. Eu não tenho relações políticas com ele, porque não fui um vice que me calei. Quando percebi que o Arthur queria me esganar e impedir meu crescimento na Secretaria de Obras, rompi com ele. Não há possibilidade de essa aliança acontecer. 

JC – Temos observado muito no Amazonas, uma série de choques entre prefeitos e governadores com seus vices. Qual o motivo para isso acontecer? Ser vice é complicado?

Hissa – Fui vice com 32 anos e não tinha percepção de como é a política. Hoje, sei como ela funciona por fora e por dentro. E o Arthur não teve, na época, a maturidade de ter paciência. Se eu fosse vice hoje, seria completamente diferente. Vice tem que ficar quietinho. É um jogo de vaidades e intrigas nesse meio. Você dá uma entrevista e outro fica perturbado, fora as fofocas. Intrigas e traições acabam dando o tom das alianças e políticas amazonenses. Comecei seriamente a ser contra a existência do cargo de vice. Há países que não tem mais.

JC – A pandemia expôs os problemas do sistema público de saúde. O que o senhor mudaria, se fosse prefeito?

Hissa – A prefeitura gasta hoje, na média, R$ 1 bilhão por ano com saúde pública. Existe uma lei orçamentária que obriga a usar 20% do orçamento para esse fim. É uma pena que, com todo esse recurso, a gente só tenha 29% de cobertura do sistema básico. Era para essa covid ter sido controlada pelo primeiro atendimento. Quando a pessoa sente um vômito, uma diarreia, uma febre, uma dor de cabeça, não tem que ir direto ao hospital. Tem de ir na casa do Médico da Família, para fazer o tratamento e escapar da morte. Como a cobertura é essa, significa que temos, no máximo, 600 mil a 700 mil pessoas com a chance de ir lá, de um total de 2,2 milhões de habitantes. Os outros 1,5 milhão não têm e, por isso, foi todo mundo para os hospitais. Lá, se contaminaram e não é a toa que Manaus tem um alto índice de morte de enfermeiros. Temos que ampliar essa cobertura. Fiz uma live com o Ciro [Gomes] e perguntei a ele como é na cidade dele. Ele me respondeu que, em Sobral [CE], é 100% de cobertura. Então, não é difícil Manaus conseguir isso, mas falta que os políticos trabalhem e queiram fazer. 

JC – Temos visto uma ascensão da direita e das candidaturas conservadoras. Ao mesmo tempo, há dificuldade da esquerda se levantar. Essa negativa de fazer aliança com o PT não mina esse esforço?

Hissa – Fomos muito prejudicados pela Dilma [Rousseff], que acabou colocando todos os que somos de esquerda como se pensássemos como aquela esquerda dela. O próprio Bolsonaro também está prejudicando os conservadores e muitos estão se afastando dele. Isso é perfeitamente normal. Ser de esquerda não é ser stalinista, comunista, etc. E não é porque você é contra o Bolsonaro, que não defende políticas liberais. O que não posso concordar é com essa esquerda que ficou muito tempo dominando o país com políticas sociais compensatórias, como Bolsa Família, etc. Não sei quem disse que isso é coisa de esquerda. O Lula fez mais política de direita do que de esquerda, e os bancos nunca faturaram tanto. Quero um governo progressista que realmente gere emprego e valorize a indústria nacional. Os últimos governos abriram para o capital internacional, em políticas que passaram pela esquerda e chegaram ao governo atual. 

JC – Qual a maior lição que o senhor aprendeu com suas alianças passadas? 

Hissa – Nas alianças que faço, as pessoas vão me amar ou odiar por associação. Lembro que, em 2014, fiz uma aliança estratégica. Para ser deputado federal, tinha duas opções: ou meu partido coligava com José Melo – e olha o que aconteceu com ele – ou coligava com Eduardo Braga. O escolhido foi o Braga e virei federal porque eu estava em uma coligação que me deu o quoeficiente para ganhar, mas não sei se foi um desastre para mim. Não virei vice do Braga e ele nem estava na Lava Jato. Mas, se fosse para o lado do Melo, teria sido pior. 

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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