Quem viveu em Manaus há 40 anos, ou mais, deve lembrar que as casas tinham quintais imensos, repletos de árvores frutíferas e galinhas criadas livres, as chamadas galinhas caipiras, ciscando no terreiro. Dessas aves se consumiam os ovos e, em dias de festas e aniversários, algumas delas eram sacrificadas. O tempo passou, vieram os supermercados e hipermercados repletos de frangos congelados e o consumo alimentar da população mudou completamente. As pessoas reclamam da carne sem gosto e cheia de hormônios, mas mesmo assim a consomem. Mas as coisas podem estar mudando, agora para melhor, e exatamente com as galinhas caipiras melhoradas. É o que garante o médico veterinário Carlos Modestino Cavalcante da Silva, e ele fala com propriedade, pois acabou de ganhar, na quinta-feira, 28, a primeira edição do 1º Prêmio de Vídeos Educativos da FPR (Formação Profissional Rural) e PS (Promoção Social), promovido pelo Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural) nacional, onde ele trabalha como instrutor, em Manaus.
“Eu fui a primeira pessoa a trazer a galinha caipira melhorada para Manaus, há 20 anos, e me orgulho disso, porque desde então tenho visto muitos criadores, que começaram com alguns pintinhos, e hoje contam com galpões repletos de galinha caipira melhorada, graças aos meus ensinamentos. Fazendo um trocadilho, costumo dizer que essas aves são a salvação da lavoura”, falou Carlos.

Em programas rurais, sempre aparecem as galinhas brancas lotando os galpões, mas elas não servem para a nossa região.
“Elas são mais frágeis, por isso precisam ser criadas em confinamento, e como não ciscam o terreiro, são alimentadas com ração, caríssima, que precisa vir do Sul para cá, o que inviabiliza comercialmente a sua criação e venda. Com a galinha caipira melhorada acontece o oposto”, disse.
A nossa caipira vai sumir

Mas, por que a nossa tão querida galinha caipira, que tantas canjas, caldos, assados e cozidos nos proporcionou, pode estar com seus dias contados? É preciso voltar bastante no tempo, aos dias em que elas chegaram à nossa região, para entender.
“Elas são de origem francesa, e devem ter sido trazidas para cá ainda no final do século 19, quando muitos estrangeiros vieram para a Amazônia. Ocorre que também foram levadas para São Paulo. A diferença é que aqui a galinha caipira se manteve intocada, criada nos quintais, apenas para abastecer as famílias, sem pretensões de serem comercializadas, diferente de São Paulo, onde desenvolveram a melhorada, que só chegou a Manaus há duas décadas”, contou.
“Como suas qualidades são bem superiores que as da nossa galinha caipira, é bem provável que esta suma, até porque quem cria hoje a melhorada, já a cria com fins comerciais”, completou.
E realmente as diferenças são expressivas. A nossa caipira, com doze meses, atinge 800 gr de peso, enquanto os machos da melhorada, com 70 dias já pesam 3kg200, e as fêmeas, 2kg800; a nossa caipira bota de 60 a 70 ovos/ano, enquanto a melhorada põe, em média, 320 ovos/ano; a nossa caipira começa a botar com um ano, e não é constante, passando dias para botar os ovos, diferente da melhorada que começa a botar com cinco meses e pelos doze meses seguintes não irá parar.
“Sem falar que, de uma grande criação, o criador pode deixar as fêmeas apenas para a produção de ovos, e destinar os machos para corte, ou seja, é uma produção altamente rentável”, revelou.
Agora, o que torna a melhorada imbatível comercialmente quando comparada a qualquer outra variedade é o fato dela ciscar o terreiro e comer de tudo, não necessitando da caríssima ração.
“Elas comem frutas, verduras, grama, macaxeira batida, pedrinhas, insetos e tudo o que for comestível”, informou.
Sabem ‘se virar’
“Meu trabalho, como instrutor do Senar, é viajar pelo interior do Amazonas ensinando técnicas agropecuárias para melhorar as produções do homem do campo. O que falta para essas pessoas é conhecimento. Quando elas os adquirem, prosperam”, afirmou.
“Um exemplo que gosto de citar é o da dona Maria do Carmo, dona de um pequeno sítio na estrada do Puraquequara. Ela começou com 50 pintinhos e hoje tem vários galpões de criação da melhorada. Vende, em média, 300 frangos entre sábado e domingo, e 150 nos dias de semana, todos abatidos na hora, fresquinhos, ao preço de R$ 40 reais. Também conheci o dono de um sítio, em Presidente Figueiredo que, desiludido, queria vender o terreno. Hoje possui três galpões de criação da melhorada”, lembrou.
O ideal, segundo Carlos, para quem quiser consumir a melhorada é procurar nas feiras e buscar saber quem é o produtor. Eles costumam abater as aves no mesmo dia, o que as deixa ainda mais saborosas, diferente das congeladas.
E quem quiser assistir ao vídeo vencedor feito por Carlos, é só acessar o site do Senar. Ele foi um dos dez instrutores de todo o Brasil a ganhar o prêmio. No vídeo o veterinário ensina de forma bastante didática a criar a galinha caipira melhorada.
“Você só precisa ter cuidados nos primeiros dias, dando vitamina, antibiótico e vacina. Depois é só soltar no terreiro que elas sabem ‘se virar’ sozinhas”, finalizou.







