‘Governador pega carona no prefeito’, diz Dermilson

Em: 10 de novembro de 2021
Dermilson Chagas

O deputado estadual Dermilson Chagas (Podemos) diz que é praticamente impossível a migração de votos do prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), para o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), nas eleições de 2022.

Ele se refere à recente parceria selada entre o Estado e a prefeitura com investimentos de pelo menos R$ 580 milhões em obras de infraestrutura urbana na capital e fomento à agricultura, uma estratégia voltada exclusivamente para fortalecer a disputa no próximo pleito, avalia o deputado.

Segundo o parlamentar, o governador Wilson Lima tenta desesperadamente articular forças para a corrida pela reeleição pegando carona na imagem de David Almeida, hoje bem avaliado politicamente pela população.

“Essa estratégia chega tarde e dificilmente alcançará o governador. Só quem tem a ganhar é o prefeito de Manaus”, diz Dermilson. Ele argumenta que a imagem de Wilson Lima está muito desgastada. O escândalo na compra dos respiradores, a crise de oxigênio durante a fase mais aguda da pandemia e a condição de réu decretada pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça) são fatores que pesam contra a trajetória do político no Amazonas. É uma rejeição que acontece nacionalmente, tendo ainda repercussão negativa no exterior, aponta o parlamentar.

Oposicionista ferrenho, o deputado estadual não mede as palavras ao se referir a Wilson Lima. “Hoje, ele é dito pela população como corrupto, ladrão e assassino”, acrescenta. “O governador entra num momento de oportunismo eleitoral. E atrapalha ao antecipar o processo da disputa”.

De acordo com Dermilson Chagas, os 22 deputados que “supostamente” apoiam Wilson Lima na Assembleia Legislativa sequer levantam a voz diante das inúmeras denúncias feitas pela oposição contra o governador.

“Temos 22 deputados que supostamente apoiam o governador, mas que supostamente não estão com o governo. No parlamento, quando a oposição fala, ninguém defende o governador, ninguém se dispõe a ficar com a pecha. E até os servidores se esquivam, o criticam. Ninguém quer ser o líder dele, tem vergonha. É a primeira vez que vejo uma situação dessas”, afirma.

O deputado falou com exclusividade ao Jornal do Commercio.

Jornal do Commercio – Deputado, apesar das mudanças, qual é o seu partido hoje?

Dermilson Chagas –  Ainda é o Podemos, apesar do governador já ter levado a legenda…

JC – Não é mais da oposição, agora é da base de apoio….

DC – Mas ficou o deputado. O governador primeiro me expulsou do PP. O Belão e o Átila me expulsaram. E agora o governador conseguiu tomar o Podemos. Leva o partido, mas não leva o deputado (rss)….Para felicidade do povo ainda continuo com minha batida, com minha coerência, com a minha visão de oposição.

JC – Nesta época, está fácil ou mais difícil ser oposição na Assembleia? São tantos fatos e acontecimentos suscitando grandes discussões…. Isso motiva novos argumentos para combater o governo?

DC – A oposição tem muita argumentação. O governo por si só erra. Não precisa nem a gente ir atrás. O servidor público não simpatiza, não acredita mais no governo.

Então, o próprio servidor é uma ferramenta muito forte que denuncia os escândalos.  Passa as informações. Graças a Deus, chegam muitas denúncias pela internet e pelas redes sociais.

Hoje, a oposição recebe muita demanda, fica fácil de falar. Temos uma base do governo com 22 deputados, mas a oposição tem feito um trabalho muito grande em relação aos fatos reais que acontecem

Tanto é que estão aí as denúncias no STJ, do oxigênio, Grafisa, várias licitações denunciadas, uma série de coisas. São fatos concretos, palpáveis, que têm feito a diferença. A oposição tem sido firme em relação ao governo do Estado.

'Governador pega carona no prefeito', diz Dermilson - Dermilson Chagas no JC
Dermilson Chagas em entrevista no JC /
Crédito: Aguilar Abecassis

JC – Já vemos um alinhamento do governador Wilson Lima com o prefeito David Almeida. Como avalia esse ‘namoro’ que, aparentemente, tem como objetivo as eleições de 2022?

DC – Hoje, o governador tem como noiva predileta o prefeito, que é resultado disso. Estamos num processo que as pessoas não votam mais pela simpatia, votam pela emoção, por uma afinidade.

O prefeito é que vai ganhar com isso, não tenha dúvida. As obras entram num processo eleitoral em que o governador não vai passar nem perto. E quem vai usufruir mesmo e navegar nessa onda é o prefeito. Qual é a migração de votos do prefeito para o governador se a rejeição dele é enorme? O fato não é só fazer obras que o governo já poderia ter ajudado em 2018, 2019, 2020. E por que só agora tem interesse nas eleições de 2022? Está mais do que caracterizado o interesse do governo no prefeito pra trazer dividendos que são votos a ele. 

Então, de que forma o prefeito vai transferir votos pra ele? Eu acredito que muito pouco, o efeito não é o esperado. O governador entra num momento de oportunismo eleitoral. E a população já tem esse sentimento. Não acredito que vai ter essa migração de votos, Wilson é Wilson, David é David, Amazonino é Amazonino, Eduardo é Eduardo. 

É óbvio que ele está fazendo isso com as obras. Já resolveu problema na segurança, na saúde, na educação, nas políticas públicas? Não resolveu. É um governo que parou, estagnou, é um governo que procura fazer as coisas preso no passado. Que vive pensando nos caciques, como eles eram, faziam, e tudo mais. Isso se repete. Só muda o nome, só muda mesmo o CPF. Não conseguiram inovar, fazer um Estado empreendedor, gerador de empregos, preocupado com os jovens, com a violência.

JC – Acredita que o caos vivido, hoje, pelo Estado deve-se a uma inexperiência do governador….?

DC – Sim.  Imagine dar pra uma pessoa dirigir um carro de Fórmula-1 quando ela está acostumada a dirigir um Fusquinha, nada contra o Fusca.

Então, o Estado é um carro de Fórmula-1 que está sendo dirigido por uma pessoa inexperiente. E se vê que a falta de programas do governo é latente. O governo ganhou as eleições sem propostas, sem um programa, sem um projeto.

O governo deixou o tempo passar pra tentar reagir agora num momento muito triste pra ele. A inexperiência, a falta de projetos de pessoas capacitadas levaram o governo a erros sucessivos. O que mais prejudicou foi a ambição dos que estão em torno dele.

O governador erra mais pela relação do que por ele próprio. Ele paga o pato por isso. O governo não tem domínio do Estado. O Estado é fatiado, cada um manda num setor. Tem deputado que manda mais que o governador. Hoje se troca uma identidade por um voto. Ele governa, mas não tem governabilidade.

JC – O sr. está no seu segundo mandato. E 2022 já se avizinha. Como enxerga esse cenário para o próximo ano, especialmente na sua caminhada política?

DC – Vivemos uma conjuntura nesse processo, com novas regras eleitorais. Tem que pensar nisso em nível de Brasil. Tem que ficar atento aos acordos. Estou num partido que amanhã não sei se vai estar com o governador ou com o prefeito. E pode não estar com ninguém. Vamos ter uma eleição muito difícil. Muito complicada. Em nível de Estado, as pessoas estão pensando sobre os erros que foram cometidos no passado, como reparar esses danos, de que forma corrigir.

Em nível federal, é a mesma coisa, temos a pandemia que foi pauta durante dois anos. Pra disputa federal, tem pessoas novas querendo entrar, e vão entrar porque existe uma renovação natural do processo

Na Assembleia vamos viver uma nova situação. Muitos querendo ficar no partido do governador e outros não. Os que querem ficar do lado do governador, querem a estrutura, não querem ficar do lado dele. A oposição vai se dividir, vai procurar o seu canto. Cada um está com suas bases. São conjuntos de fatores que conspiram a favor ou contra nas eleições.

JC – Mas o sr. concorre à reeleição….?

DC – Sim, concorro para deputado estadual…

JC – Não aceita ir para Brasília…?

DC – Não sou um candidato de mim mesmo. Eu trabalho com um grupo de pessoas. Preciso de um apoio grande, de uma estrutura grande pra poder garantir essa vaga. Como deputado de oposição, tudo isso tem que ser refletido.

JC – O sr. já tem um grupo formado para esses cargos…?

DC – As coisas estão se arrumando.

JC – Tem andado muito com Eduardo Braga….

DC – Sim, tenho conversado com Eduardo Braga, com Amazonino Mendes, o prefeito. Converso bastante com o Amazonino.

JC – Mas não tem nada fechado…isso deve ser definido quando?

DC – No próximo ano, à meia-noite (rsss).

JC – Alguns analistas dizem que o quociente eleitoral para deputado federal seria de 160 mil a 180 mil. E para deputado estadual?

DC – Acredito que a abstenção vai ser muito alta em Manaus e em todo o Estado. As pessoas não se sentem motivadas para votar. É aquela regra de 80 a 20. O partido que não atingir os 100% cai na regra de 80. Tem que ter 80% de 80 mil votos.

Pra começar a disputar o processo eleitoral tem que ter 20% dos 80 mil que são 64 mil votos. Independente de legenda, a disputa para deputado estadual tem que começar com 12 mil votos.

JC – Por estar num partido que fecha com o governador, o sr. talvez tenha que sair.  Com esse cenário, já tem na cabeça os votos que vai precisar?

DC – Sim, com certeza, tenho essa leitura. Estamos analisando cada situação. Todo dia muda. As coisas vão se ajustando. As pessoas não votam no partido, votam no nome do candidato. E tem que ter uma relação de afinidade, de convencimento. O ideal seria o distritão em que entra o mais votado.

JC – Vemos uma polarização muito grande no cenário federal, mas que ainda não chegou às pontas. Acha que vai ter um outro foco, a questão econômica vai pesar muito mais nas eleições?

DC – Não vou dizer que não vai acontecer. Pode aparecer um cara bom de voto que vai convencer a população. Isso é possível, sim. Mas a relação já está polarizada. A questão econômica, política e social está centrada nos dois candidatos, onde um está fora e outro dentro. E cada um vai expor as deficiências do outro.

JC – Antes, falava-se de um trabalho mais independente da Assembleia em relação ao governo. E agora, como ela se caracteriza, até pela quantidade de deputados da base governista?

DC – Uma parte da Assembleia está envolvida com o governo, mas não está com o governo, tem os seus próprios interesses. Então, existe aquela máxima ‘estão puxando brasa pra sua sardinha’. Temos 22 deputados que supostamente apoiam o governador, mas que supostamente não estão com o governador. No parlamento, quando a oposição fala, ninguém defende o governador, ninguém se dispõe a ficar com a pecha. É a primeira vez que eu vejo. Até servidores com os quais converso comentam que é a primeira vez que veem uma pessoa ter vergonha de ser líder do governo.

Não quer ficar com a marca do Wilson, de um cara que é dito pelo povo como corrupto, ladrão e assassino. A Assembleia é isso, nunca votou nos candidatos do governador porque sempre perceberam que a pessoa indicada pelo governo não era a pessoa ideal pra aglutinar. Se procurou meio termo para administrar seus interesses.

JC – Sabemos que o Amazonas é um Estado especial pela questão geográfica. Como avalia a importância das prefeituras para uma eleição, qual será o peso do interior durante essa disputa??

DC – Não vou dizer que os prefeitos não são líderes. Mas ninguém é dono de voto de ninguém. Pelo avanço tecnológico, o ribeirinho está vendo tudo, apesar da internet não funcionar muito bem. As pessoas estão mais conscientes sobre o que está acontecendo no Brasil e no mundo.

Essa questão de aglutinar forças com os prefeitos é importante sim, mas hoje eles estão muito mais independentes, não tem mais aquela de voto de cabresto.

JC – O sr. tem andado muito pelo interior do Estado. Vê uma perspectiva melhor para os municípios como um todo?

DC – Só vai ter alguma perspectiva se os prefeitos defenderem o mesmo governador. Hoje, por exemplo, tem o FTI que foi criado lá atrás pelo ex-governador Amazonino Mendes que é exclusivo para promover o desenvolvimento e diminuir a desigualdade regional. Poderia fomentar a agricultura, pavimentação das cidades, melhorar a saúde, o transporte. São recursos de 1 bilhão de reais.

Mas enquanto continuarem tendo receio em relação ao governo, vai existir esse distanciamento em relação ao desenvolvimento.

JC – Para as pessoas que acompanham esse bate-papo, o que destacaria sobre a sua atuação legislativa, a prestação de contas….?

DC –  O combate à corrupção, os crimes que o atual governo responde por denúncias da oposição, feitas ao Ministério Público. Freamos a corrupção em vários setores.

Na prática, o resultado é não deixar o governador roubar e prejudicar o povo mais do que ele já está. Mesmo com 22 deputados na base de apoio, conseguimos transformar o governador em réu. O governador sabia de tudo e brincou com o destino dele.

São apenas dois deputados da oposição combatendo a corrupção no governo e defendendo melhorias para a população.

JC – Deputado, existem muitos debates sobre a busca de novas alternativas econômicas. A Zona Franca não vai estar aí para sempre suprindo as necessidades do Estado. A Assembleia está contribuindo nesse sentido?

DC – A Assembleia não tem pauta para isso. Quem aborda mais a Zona Franca de Manaus é o deputado Serafim Corrêa. O parlamento não tem forças pra isso. Porque o assunto está aos caprichos do governador.

Mas a ZFM está com os dias contados. Lá fora as pessoas não querem saber da Zona Franca, São Paulo não quer saber, querem ter empregos. Estamos perdendo tempo em não desenvolver nada. Não temos estradas.

'Governador pega carona no prefeito', diz Dermilson - Dermilson Chagas no JC as 15h
Dermilson participou do programa JC às 15h / Crédito: Aguilar Abecassis

JC – O  sr. aponta outros caminhos como usar os recursos naturais do Estado para viabilizar uma nova matriz econômica?

DC – Com certeza, temos muitos caminhos. Temos piscicultura, mas não exploramos muito bem. Somos o maior celeiro de peixes do Brasil. Se não tiver uma parceria do governo com a universidade, com o campo científico, será difícil. É essa ciência que transforma em renda e empregos

O que está matando a ZFM é o avanço tecnológico. Pega o que a Samsung produz no Vietnã, na Coreia. Muita coisa. Os caras produzem lá e jogam aqui. Então, esse avanço tecnológico, que não produzimos e montamos aqui, é que vai nos matar. Agora é nanotecnologia, são coisas minúsculas A Sony fechou porque não tinha mais como concorrer com a Samsung e a LG. E as TVs estão cada vez mais avançadas.

JC – Temos a necessidade de desburocratizar para facilitar a vida do empreendedor. Vemos um projeto, de sua autoria, que institui o Estatuto de Direitos da Liberdade Econômica do Estado do Amazonas. Como foi essa ideia?

DC – A gente observa o sofrimento do empresário. Mas a proposta ainda precisa passar pela análise da Sefaz. Acho ruim abrir uma empresa com a exigência da certidão negativa. Isso cria muitas dificuldades. Claro que devemos ter cuidado com questões ambientais. O nosso objetivo é desburocratizar, facilitar, mas o projeto ainda está na Assembleia. Queremos que  o empreendedor tenha uma vida menos cansativa pra abrir uma empresa.

Hoje, o imposto é uma extorsão. Quem gera emprego neste País não é o governo do Estado, é o empresário.

Marcelo Peres

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