Momento é especial para a produção rural no Amazonas

Em: 11 de fevereiro de 2009
A Sepror (Secretaria de Estado da Produção Rural) está com uma série de projetos para serem implantados no decorrer de 2009
A Sepror (Secretaria de Estado da Produção Rural) está com uma série de projetos para serem implantados no decorrer de 2009

Jornal do Commercio – Como está a construção dos abatedouros? Como eles irão funcionar?

Eron Bezerra – Os abatedouros, a grosso modo, serão repassados às prefeituras. Esse seria o chamado modelo tradicional, mas ainda vamos analisar se esse processo continuará. Não temos a priori nenhuma observação. Quem tem que administrar isso é o poder público municipal. Para o Estado seria muito complicado ficar assumindo toda essa estrutura que nós estamos montando. Há muitos inconvenientes, como por ­exemplo, o desleixo. Por outro lado, a população tem que ter claro que o Estado, no caso a Sepror (Secretaria de Estado da Produção Rural), está cons­truindo o abatedouro que é uma forma primária de assegurar boas condições de comida para ela. E nós vamos trabalhar isso com cursos de gestão, com divulgação, entre outras coisas. E a responsabi­lidade para manter esse padrão é das prefeituras, porque nós não temos como assumir isso sozinhos. Caso a prefeitura eventualmente não assuma essa responsabilidade ou não desejar, nós repassaremos ou para uma entidade de classe, ou associações de pecuaristas, ou então nós mesmos vamos assumir porque não vamos deixar um bem em desuso. Temos que ser rigorosos com isso. Qualquer bem nosso que for repassado a uma prefeitura, a uma entidade, a uma associação ou qualquer classe e se alguma delas não der conta de gerir isso, de acordo com os padrões que nós entendemos que são ­corretos, o próprio contrato de ­comodato já prevê a remissão de posse para nós. Isso já é um modelo que o próprio Estado já tem. Quando entregamos alguma coisa em comodato para alguém, há uma série de coisas a serem cumpridas. E se não forem, a Sepror toma a propriedade plena daquele bem.

JC – Qual será a capacidade de abate?

Bezerra – Temos modelos básicos de dez e 20 cabeças. Evidentemente que nós estamos considerando o tamanho da nossa população. Não é o caso de Manaus e nem Boca do Acre, por exemplo, que têm um frigorífico do Estado com capacidade para abater até 300 cabeças por dia.

JC – E esse projeto estará presente em todos os municípios?

Bezerra – Sim. É claro que há algumas limitações orçamentárias, mas vamos trabalhando de acordo com nossos recursos. Vamos cons­truir sete abatedouros este ano, com recursos próprios da Sepror.

JC – A Sepror está com vários projetos para serem implantados durante todo o ano. Quanto está sendo investido para cada um des­ses projetos?

Bezerra – Em média, entre R$ 300 mil e R$ 400 mil. Alguns podem chegar a até R$ 500 mil. Varia porque são muitos projetos, com ­diferentes orçamentos. Então os investimentos podem ­oscilar nesse patamar. É um bom troco.

JC – De onde vem esse dinheiro? Do governo do Estado?

Bezerra – Também do go­verno estadual e de verbas provenientes de emendas parlamentares feitas pela bancada do Amazonas em Brasília, e obviamente também há recursos do próprio orçamento da Sepror. A secretaria não fica parada esperando chover. Vamos atrás de fazer a chuva porque essa é única forma de se otimizar resultados. Então, nós fizemos, pedimos apoio de vários parlamentares, alguns nos atenderam e estão nos ajudando com emendas parlamentares de autoria deles mesmos, para a construção dos abatedouros.

JC – Para onde vai o material abatido?

Bezerra – A grosso modo, será tudo consumido no próprio local de abate. Até porque o grande problema que existe hoje nos municípios do Amazonas é que a maioria deles não possui abatedouros. A população consome carne de origem completamente duvidosa, eu estou sendo bem franco. O que nós estamos fazendo é um esforço para que a população possa desfrutar de uma carne decente, com origem comprovada e aprovada, pois, os abatedouros passarão por inspeções sanitárias regularmente. A Sepror faz isso através da Codesav (Comissão Executiva de Defesa Sanitária Animal e Vegetal), outro braço nosso para cuidar só dessa parte. Esse órgão vai classificar e dar o selo de inspeção estadual que vai permitir que a carne possa ser comercia­lizada em qualquer lugar.

JC – Qual a importância desse projeto para o Estado, de uma maneira geral?

Bezerra – Esse projeto é de fundamental importância para os municípios, porque a maioria dessa carne se destina ao consumo local, já que a população não faz aquisição de um produto que possa ser considerado de procedência segura. As pessoas comem do chamado frigomato.

JC – O material abatido vai ser comercializado na capital e no interior?

Bezerra – Sim, com distribuição para o mercado que tiver interesse em co­mercializar, com garantia, já que o produto vai com selo de inspeção estadual, que dá ao comerciante autorização legal para ele comercializar em qualquer lugar. Uma carne que não tiver o nosso selo não pode ser comercia­lizada nem em feira, nem em supermercado, nem em lugar nenhum. Se não tiver selo, a carne é de origem duvidosa. O selo pode ser dado pelo Ministério da Agricultura ou pelo sistema Sepror.

JC – Como esse material vai ser transportado para o comércio?

Bezerra – Estamos montando um sistema de transporte. Temos programas de aprimoramento e melhora de infraestrutura, agroindústria e beneficiamento, expansão da produção e apoio sócio cultural. Todas essas ações estão dentro de uma filosofia. Nossa estrutura de transporte está reforçada com duas barcaças de 100 toneladas que nós estamos comprando, mais dois ônibus e um caminhão frigorificado. Toda essa estrutura, já montada, será capaz de atender a toda lógica de escoamento para a produção, seja de carne, seja de peixe, seja de qualquer outro produto.

JC – Vão ser construídos fri­goríficos?

Bezerra – Sim. Dois com fábricas de gelo. Cada um deles terá capacidade para 100 toneladas de peixes. No fim do mês de fevereiro será inaugurado um em Tabatinga. O outro terá capacidade para 30 toneladas em Santo Antônio do Içá. Com esse projeto vamos ainda tentar evitar o contrabando de pescado no Alto Solimões, que hoje é muito forte para a Colômbia.

JC – Quantas fábricas de gelo serão instaladas em 2009?

Bezerra – Já existem bastante fábricas de gelo no Amazonas. Esse é o setor que o Estado mais dispõe de infraestrutura. Temos mais de 60, porque não tem nenhum município que não possua uma fábrica de gelo. Entretanto, o grande problema é que a boa parte dessas fábricas está paralisada. O gelo não pode ser feito com água do rio. E essas fábricas estão em balsas dentro do rio, nos flutuantes. Para este ano já estamos construindo mais três fábricas em Envira, Guajará e Itamarati. Elas devem ficar prontas até o meio do ano. Como há carências nas fábricas, estamos adaptando ou­tras. Mas também vamos recuperar as outras fábricas que estão paralisadas para suprir toda a demanda reprimida de gelo que nós temos.

JC – Quais são os outros projetos?

Bezerra – Estamos com mais projetos como a fábrica de farinha de peixe em Tabatinga. O produto será armazenado para exportação e consumo interno. Tudo isso será feito com padrão internacional, capaz de ser co­mercializado em qualquer lugar do mundo.

JC – Quantos empregos serão gerados com esses projetos?

Bezerra – Só a indústria do Alto Solimões gera mais de 120 empregos. Sem falar nos mais de 8.000 indiretos, por baixa. Nenhuma fábrica do Distrito Industrial tem essa quantidade de empregos, com exceção da Moto Honda da Amazônia. Nosso objetivo é agregar valor aos produtos, verticalizar o conjunto da produção e elevar o nível de renda da população local e criar milhares de postos de trabalho.

JC – Esses projetos terão algum acompanhamento? De quais entidades?

Bezerra – Sim. Serão acompanhados pela Ufam (Universidade Federal do ­Amazonas), pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e pelo Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) em um projeto de mais ou menos R$ 3,5 mi­lhões financiados pela Finep (Fi­nanciadora de Estudos e ­Projetos). Conseguimos recursos para desenvolver e aprimorar vários projetos a serem implantados.

JC – Onde será implantado o projeto de preservação do bacalhau da Amazônia?

Bezerra – Em todo o mercado local e nacional. Queremos atingir o mercado internacional. Amazônia é uma palavra milagrosa, uma verdadeira grife. Esse é um dos projetos centrais da se­cretaria. Não só porque o pescado é a nossa matéria-prima principal, mas porque essa é a maneira de agregar mais di­nheiro para as regiões de Fonte Boa e Maraã.

JC – E a fabricação do dendê em Tefé? Qual será a capacidade produtiva?

Bezerra – A fabricação de dendê envolve o campo energético com um mo­delo piloto. É um projeto de substituição de diesel por dendê, energia renovável. O dendê de Tefé tem projeto inicial de 20 mil hectares, gerando mais de 1.000 empregos, o que praticamente torna o desemprego em Tefé nulo. Serão em torno de 5.000 famílias de agricultores envolvidas nesse projeto. E o faturamento será de aproximadamente R$ 400 milhões. É um projeto gigantesco, com indústrias de processamento para margarina e óleos.

JC – E quanto aos seringueiros? Eles já receberam kits da Sepror?

Bezerra – Ainda não, porque alguns deles estavam irregulares e o conselho tinha uma pendência burocrática. Vamos entregar os kits e garantir a abertura de estradas para expandir a produção. Há muitas estradas de seringais abandonadas. Ainda temos que fazer treinamentos com alguns seringueiros.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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