No filme ‘Em algum lugar do passado’ o personagem Richard fica obcecado pela foto de Elise, uma atriz que havia vivido 60 anos antes e, através da hipnose, consegue retornar no tempo para encontrá-la. Vivem um amor intenso até o transe hipnótico acabar e ele voltar ao tempo presente sem a amada.
Na vida real o adolescente Mário Cézar Cruz viu o filme ‘A vingança dos piratas’, de 1951, e se apaixonou pela atriz principal, Jean Peters. Mário Cézar tinha, então, 14 anos e Jean Peters não tinha vivido 60 anos antes. A barreira que os separava é que ele morava no Brasil, no Rio de Janeiro, e ela em Hollywood.
Mário Cézar era autista e vivia isolado em seu mundo, agora preenchido pela bela atriz, então com 25 anos. O interessante aconteceu em seguida. Seu lado artista plástico aflorou e ele pintou um quadro com a imagem de Jean Peters como a pirata Anne, do filme. E não parou por aí. Fez mais de 100 pequenos desenhos, com lápis de cor, retratando cenas do filme numa época em que não existia outra forma de fazer tais desenhos a não ser olhando diretamente para a tela do cinema. São estes desenhos que estarão expostos pela primeira vez na exposição ‘Arte, amor e cinema, por Mário Cézar Cruz’, que estará aberta à visitação pública a partir das 9h, do dia 11, sábado, no Espaço Cultural do Millennium.
“Conheci o Mário Cézar, em 1995, na Central de Artesanato Branco Silva, onde ele ocupava um estande junto com a irmã, Eli, que cuidou dele durante toda a vida”, recordou José Carlos, curador da exposição.
De volta às luzes
Naquela época José Carlos era proprietário de uma loja de molduras e conhecia quase todos os artistas plásticos de Manaus, por isso lhe chamaram a atenção os quadros pintados por Mário Cézar e à venda na Central de Artesanato.
“Desse primeiro encontro surgiu uma grande amizade entre eu e ele. Eli dizia que nesses mais de 50 anos de vida o irmão nunca havia tido um amigo como eu. Vivera desde sempre cuidado por ela. Com o tempo, pela confiança que ele passou a ter em mim, consegui entrar no mundo em que vivia praticamente só”, contou.
Em 1999 José Carlos organizou uma exposição, no Amazonas Shopping, com os quadros pintados por Mário Cézar.

“Ele pintava paisagismo. Com certeza foi um dos grandes artistas amazonenses, mas pela sua condição de autista, permaneceria praticamente no anonimato não fosse essa exposição no Amazonas Shopping. Agora, com a mostra ‘Arte, amor e cinema’, quero trazer seu nome de volta às luzes”, falou o curador.
Pela convivência com Mário Cézar, José Carlos ficou conhecendo a história da paixão do artista pela atriz norte-americana que acontecera mais de 40 anos antes.
O garoto estava de férias, no Rio de Janeiro, quando assistiu ao filme ‘A vingança dos piratas’, no original, ‘Anne of the Indies’, de 1951, no qual Jean Peters interpretou a pirata Providence. A paixão deve ter sido imediata, pois o adolescente assistiu 14 vezes ao filme e quando as sessões encerraram, no Rio, e este passou a ser exibido em São Paulo, para lá ele seguiu, assistindo ao filme por mais 14 vezes, segundo relatou.
Resolveu não mais pintar
Em casa, além de pintar o quadro com a pirata Providence, Mário Cézar desenhou várias cenas de ‘A vingança dos piratas’, revelando a memória fotográfica que possuía.
“São 100 desenhos, no tamanho 9cm x 12cm. Na exposição terão 95 porque alguns são bem parecidos. Eu ampliei alguns deles, para poder estudá-los melhor e é impressionante a delicadeza dos detalhes. No quadro, Mário Cézar colocou o ano de 1952. Sua irmã me contou que ele nunca deixou ninguém ver aqueles trabalhos, que ficavam guardados dentro de um armário, no quarto dele”, disse.
Em 2010, Eli resolveu se mudar para São Paulo, onde tinha parentes, levando Mário Cézar junto.
“Cheguei a vender vários quadros dele até que um dia o artista resolveu não mais pintar. Quando estava indo para São Paulo, me deu alguns quadros que ainda tinha com ele, além de seu material de pintura, tintas, pincéis e paletas, mais o quadro com Jean Peters e os desenhos das cenas do filme. Nunca mais soube dos dois irmãos. Ainda tentei localizá-los, mas foi em vão. A última informação que tive é que, devido à avançada idade e ao autismo, Mário Cézar estava totalmente alheio ao mundo”, revelou José Carlos.

Atualmente, três quadros do artista estão expostos, e à venda, no Espaço Cultural do Millennium. A exposição ‘Arte, amor e cinema’ foi contemplada no edital Prêmio Feliciano Lana, da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, através da Lei Aldir Blanc, e ficará aberta à visitação pública por um mês.
No filme ‘Em algum lugar do passado’, Richard morre e, no Paraíso, finalmente reencontra Elise. Quem sabe Mário Cézar não foi ao encontro de Jean Peters e viveu feliz contemplando a sua amada, ou se juntando aos três maridos que a atriz tivera.







