“Passaporte sanitário é absolutamente imoral” diz Marx Gabriel

Em: 31 de janeiro de 2022

O empresário Marx Gabriel, CEO na MB Consultoria, é um crítico contumaz das medidas de enfrentamento à pandemia no Amazonas. Para ele, o Estado vai na contramão de decisões de países como a Inglaterra, que já aboliu o passaporte vacinal e a exigência do uso de máscaras.

Os governos de Rondônia e de Goiás também já baixaram um decreto abolindo essas exigências que ainda existem no Estado, segundo ele. Max avalia que as restrições para funcionamento de certos segmentos das atividades econômicas e o confinamento social já provaram ser ineficazes. Ao contrário, aponta ele, esse engessamento só contribuiu para agravar ainda mais o desemprego, causando um grande impacto social na região.

O governo do Amazonas e o município já admitem retomar as medidas restritivas, como aconteceu nas duas ondas pandêmicas. A prefeitura proibiu os eventos por 30 dias, alegando um aumento no número de casos de Covid-19 a partir de janeiro.

Max Gabriel contesta e avalia a decisão como “muito irresponsável”. Argumenta que os eventos absorvem um grande contingente de mão de obra em Manaus. E que milhares de trabalhadores, principalmente artistas e músicos, dependem deles para sobreviver economicamente.

“Viajei pelo mundo afora durante as duas ondas de pandemia. Não vi nada parado, só aqui mesmo”, conta “O problema da saúde não é a Covid-19, e sim a corrupção que vem desviando milhares de recursos do setor no Estado”, afirma.

Marx também contesta os dados sobre a Covid-19, principalmente agora com o surgimento da nova variante ômicron no Amazonas. Ao contrário do que divulgam muitos setores da mídia, o site da transparência civil aponta que, do dia 1º até 19 de janeiro de 2022, foram registrados 17 óbitos em cartórios de Manaus por coronavírus, contra os 1.343 que aconteceram durante o mesmo período no ano passado (2021), segundo ele.

“Estão causando um terrorismo contra a população divulgando uma avalanche de dados quem não refletem a realidade”, protesta Marx. Ele acrescenta. “Não sou eu apenas que digo. As estatísticas mostram esse contraditório. É só pesquisar”.

Para Max, o passaporte vacinal também é uma incoerência. Ele argumenta que Israel já aplicou a quarta dose de vacina contra o coronavírus. E, mesmo assim, não conseguiu evitar o aumento de contágios pela nova variante ômicron.

“O passaporte vacinal é, absolutamente, uma imoralidade”, afirma. Max revela que o próprio CEO da Pfizer divulgou um vídeo afirmando ser impossível evitar o contágio pela nova cepa com apenas duas doses da vacina. E uma terceira aplicação talvez tivesse uma certa eficácia, mas nada garante. “A empresa que mais lucra com a pandemia no mundo diz que só produzirá uma vacina para prevenir a ômicron a partir de março”, afirma. “Não procede essa exigência”, diz.

Marx Gabriel participou da live ‘JC às 15h’, comandada pelos jornalistas Caubi Cerquinho e Fred Novaes, diretor de redação do Jornal do Commercio.

Jornal do Commercio – Essa nova ‘safra’ de Covid tem incomodado bastante as autoridades. E se busca amenizar a questão de alguma forma possível. Como está vendo a retomada das restrições?

Marx Gabriel – Se formos pensar em restrições, deveríamos saber quais seriam o propósito. Fazer restrições no ir e vir, isolamento, isso é absolutamente ineficaz. Se Manaus restringir alguma coisa, vai na contramão do que estão fazendo países desenvolvidos como a Inglaterra, onde o primeiro-ministro Boris Jhonson mandou abolir o passaporte vacinal e a exigência do uso de máscaras.

Temos aqui os governos de Rondônia e de Goiás que sancionaram leis proibindo passaporte sanitário. E estamos indo contra exatamente isso.

Inglaterra, Espanha e Israel já estão fazendo. No comparativo com as duas cepas, é uma diferença muito grande. Se os órgãos de controle estão realmente preocupados, eles estão absolutamente mal informados ou tem outra coisa que não se sabe o que é.

Em 2022, do dia primeiro ao dia 19 de janeiro, tivemos 17 óbitos registrados nos cartórios de Manaus. São dados oficiais do site da transparência civil. No ano passado, durante o mesmo período, foram 1.343 mortes na cidade..

Quem compara 17 óbitos por 1.343, ou tem um problema gravíssimo de cognição, de informações ou de desonestidade intelectual.

Não estamos vivendo uma terceira onda. Quando um especialista diz que vão morrer 2 mil pessoas, uma pessoa dessa deve ser processada. Em apenas uma semana, do dia 17 a 18 de janeiro de 2021, nós tivemos 783 óbitos. Então, não sou eu apenas que estou dizendo, são os dados do registro civil.

O maior grupo privado de hospitais de Manaus, que tem a maior quantidade de leitos somados aos outros três grupos privados, que é o grupo Samel, tem hoje apenas uma pessoa internada com Covid-19. Agora, eu pergunto – quer dizer, só adoece e é  internado quem vai para a área pública?

Nós não podemos fazer isso nunca. O secretário de Saúde, dr. Anoar Samad, tem a responsabilidade de tranquilizar a população, assim como seria a responsabilidade desses órgãos de controle, e não nos causar terror.

Quando a gente vê o que está acontecendo no ginásio do Centro de Convenções Vasco Vasques, fazendo as pessoas irem desesperadas se aglomerando no sol quente, pra correr e fazerem testes, é um absurdo. Comparando a atual situação com a anterior, é um absurdo.

JC – Vemos a necessidade dos órgãos criarem um movimento contrário sobre essas informações. Os dados criam um certo terrorismo. Existem até algumas perseguições a alguns setores.  Vimos o prefeito culpando os eventos. O segmento se sente perseguido. Todo esse movimento parece jogar a culpa nas costas de alguém, mas não examina profundamente essa relação….

MG -É triste, mas é a mesma retórica. Se você pegar o final de 2020, o governador Wilson Lima decretou um lockdown. Mas dias antes, tivemos eleições. E ninguém estava fiscalizando nada, se estavam de máscaras, e uma semana depois fez o que fez.

O governo só conseguiu colocar um leito no Hospital Nilton Lins um mês depois. O problema era que as famílias tinham passado o fim de ano juntas. É assim, é triste, o governo quer colocar a responsabilidade em quem produz.

Manaus tem um PIB per capita de 38 mil reais por ano. A gente acha que Manaus é uma cidade rica. O PIB absoluto de Manaus é o sexto do Brasil, dinheiro do Distrito que não fica aqui. Mas o que vale é o PIB per capita.

Nós temos 5.500 municípios no Brasil. E Manaus figura na posição 808. Manaus é uma cidade pobre, 37% da população que trabalha em Manaus ganha até meio salário mínimo.

O salário médio de Manaus é de três salários mínimos. Há 807 municípios que têm o PIB per capita maior que Manaus. É uma cidade pobre, precisa de empregos, do setor de eventos, do setor de serviços. Precisa trabalhar.

O CEO da Pfizer diz que duas doses de vacina oferecem proteção muito limitada, e se houver alguma. Três doses com reforço talvez teriam. Mas a Pfizer vai lançar uma vacina para a ômicron só em março. Então, aqui já cai por terra em 100% o discurso do passaporte vacinal. Estamos falando da maior empresa que lucra hoje com a Covid no mundo.

Quando vejo uma série de entidades pedindo isso, acho um absurdo. Como o Ministério Público. O  que o órgão entende de passaporte sanitário?

É um absurdo, o passaporte sanitário é absolutamente imoral. Quem tem passaporte pega Covid e transmite Covid. E quem diz isso é o CEO da Pfizer. Como pode ainda alguém defender essa exigência.

JC – Esse aumento de casos da ômicron se baseia única e exclusivamente na própria característica do vírus ou  tem alguma coisa a ver com as aglomerações?

MG – Toda a base brasileira na Antártica isolada está com ômicron. Em Jerusalém, o governo concluiu que não há lógica médica no passaporte da vacinação. E isso teve impacto direto na economia e também no pânico na população.

Se tem alguém que pode provar para o mundo que não funciona o passaporte é Israel. É o único país que já está na quarta dose de vacinas. E posso acreditar que os senhores David Almeida e Wilson Lima, o secretário Anoar Samad, só podem estar desinformados ou com desajuste de cognição.

Em 2020, se viu algum órgão de controle do Amazonas que pediu lockdown e alguém abrir mão de seus salários ao mesmo tempo?

Teria que haver uma coerência. Durante 2020 e 2021, ajudamos muito os músicos, os que trabalham na área. Tivemos que comprar cesta básica para os músicos, é um absurdo.

Enquanto o prefeito e o governador nunca abriram mão de um dia de salário. O problema da saúde do Amazonas nunca foi Covid. Temos um ex-governador que foi preso junto com toda família por questão de corrupção na área.

O atual governador do Amazonas é réu no  STJ  por desvio de recursos na saúde. Três secretários envolvidos nas fraudes. Até quando vamos tratar as coisas dessa maneira?

Vimos o governador mandando as pessoas irem para o show do Gustavo Lima. Agora, as pessoas se aglomerando no Centro Vasco Vasques para fazer o teste, é uma das piores cenas de hipocrisia vistas nos últimos 50 anos.

JC -Havia boas perspectivas para a economia este ano. Teremos a Copa do Mundo que movimenta muitos recursos. Mas agora esbarramos com a nova variante. E praticamente vemos uma situação de engessamento. Como avalia esse impacto, um custo da má gestão da saúde pública?

MG – Manaus é a sexta capital com maior índice de desempregos (17,5% de desempregados) no Brasil. Os nossos governantes não se importam com isso.

Manaus está entre as dez cidades com maior número de homicídios do Brasil. Sobre isso, sim, o governador deveria vir a público e falar. São dados públicos, irrefutáveis.

Em momentos de recessão, a expectativa média de vida chega a cair 20%. É senso comum entre os economistas. No Brasil, a expectativa de vida para homens é de 74 anos. Significa dizer que uma recessão vai tirar 14 anos de vida das pessoas mais simples.

Manaus, hoje, é uma capital do tráfico. Outro item que nem o prefeito e o governador falam. No ano passado, a cidade foi sitiada num domingo. Em 55 anos, só tinha visto isso em filmes. Os jovens vão virar cada vez mais soldados do tráfico.

Em 1918, Manaus perdeu 10% de sua população para a gripe espanhola. E a cidade não parou de trabalhar. Tinha um português que ficou famoso e era chamado João Carroceiro, que usou suas carroças para enterrar as pessoas e não deixar que os urubus comessem.

Homens sérios, trabalhadores. O prefeito e o governador da época não fecharam Manaus, a cidade se uniu para combater o vírus.

Em dois anos, o total de pessoas que desencarnou (morreram) na pandemia em Manaus não chega a 9 mil para uma população de 2.200 mil habitantes, segundo projeções do IBGE para 2021 Isso é muito pouco (0,000000%). Isso são dados.

O governo já deu provas, pra mim pessoalmente, de não esperar nada dele. E onde estão os empresários desta terra, os manauaras, a sociedade? De todos os segmentos? Por que não pegam esses dados e vêm aqui debater? E por que precisa ter esse contrato nada republicano e subserviente ao governo?

No ano passado, fui convidado para todas as reuniões com o governo, não convidado pelo governo, mas pelas entidades, e não fui a nenhuma.

Vi todas as gravações, mas me perdoem, aquilo não era uma reunião. Não se garantiam os empregos. Mas nenhum empresário teve coragem de dizer isso nas reuniões. Os eventos geram muitos empregos. Não é por questão de saúde, estão aí os dados comprovando que a economia não deve parar.

JC – Nessa situação toda, o mais importante é discutir com aquele que está na ponta. A população está embriagada pelas mídias e fica no meio desse tiroteio. O que diria para essas pessoas, vai tomar vacina, evitar aglomerações, reforçar os cuidados, esse é o caminho?

MG – Acho que é o mesmo caminho que a humanidade fez em todas as vezes, usar máscara, lavar as mãos, se estiver gripado não abraçar as pessoas. No Japão e na China, é assim, é questão de educação.

Por que estão lotando os hospitais? Por que estão doentes? Não, estão lotando para fazer testes e saber se têm Covid.

Portanto, quem tem ômicron, seguirá os cuidados que os médicos prescrevem. Fiz viagens internacionais durante todos aqueles surtos, e não parou nada. É isso que a Inglaterra e a Espanha vão fazer, Israel também.

Sobre a vacina, primeiro isso é uma decisão de cada ser humano. Até o ano de 2021, convivemos aqui tomando vacina. Temos hoje um medicamento que não é vacina.

Porque se fosse a vacina, Israel não teria Covid e um número exponencial de ômicron. Hoje quem é demitido leva até 14 meses para conseguir um trabalho no Brasil. E quem mais leva tempo é quem tem nível superior completo.

Como a prefeitura e o governo pensam retomar as restrições, o impacto na economia será desastroso, um grande impacto social.

JC -As empresas são realmente impactadas. Como enxerga o trabalho nesse ambiente de tantas sombras?

MG – Temos um problema gravíssimo em Manaus. Estamos fazendo o mesmo protocolo de isolamento de quem está positivo. Um cliente nosso está com 170 funcionários afastados, não tem nenhum internado, nenhum em situação de insegurança de vida. Estão em casa porque hoje o protocolo é esse. E provavelmente a empresa será prejudicada, isso é um absurdo.

O empresário tem que se conscientizar de que deve não melhorar somente a sua empresa, mas também deve participar da política cidadã e se posicionar frente a situações como essa que afeta 100% da população do Estado. O empresário tem que aprender a se posicionar.

Não existe saúde ou economia – quem tem esse discurso é tão pobre, e tão raso, e a meu ver já desmerece quem o diz.

Marcelo Peres

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