A despeito do crescimento da produção e faturamento da indústria incentivada de Manaus, lideranças dos sindicatos laborais do setor ouvidas pela reportagem do Jornal do Commercio garantem que o trabalhador do Distrito tem pouco ou nada a comemorar. O diagnóstico não é diferente dos anos recentes, especialmente depois dos impactos da reforma Trabalhista, em 2017. No entendimento dos sindicalistas, no entanto, a conjunção de pandemia, crise econômica e uma nova rodada de ataques à ZFM piorou uma situação que já era apontada como “precária”.
Os dados mais recentes dos Indicadores de Desempenho do Polo Industrial de Manaus, compilados e divulgados pela Suframa, confirmam que a média de postos de trabalho efetivos, temporários e terceirizados, se manteve acima dos 100 mil, dezembro. Trata-se de uma marca que não era atingida há sete anos, e que só pode ser retomada a partir de outubro de 2020, já período de acelerada retomada da produção do PIM, no rastro da demanda reprimida pela primeira onda da covid-19, e a despeito dos gargalos de abastecimento impostos pela pandemia.
Conforme a mesma Suframa, os segmentos que mais cresceram em empregos, no espaço de um ano, foram os minoritários, como os de brinquedos (+64,62% e 2.494vagas), de produtos alimentícios (+43,51% e 2.309) e editorial e gráfico (+35,96% e 881). Na outra ponta, os maiores cortes vieram do beneficiamento de borracha (-92,71% e 40), “diversos” (-40% e 36) e ótico (-13,72% e 541). As fábricas de eletroeletrônicos e bens de informática (+14,59% e 40.200), assim como as de duas rodas (+5,85% e 17.339) fecharam no azul.
As lideranças laborais ouvidas pela reportagem do Jornal do Commercio argumentam que a análise não pode ser apenas quantitativa e aponta que os efetivos vêm perdendo espaço para temporários e terceirizados com mais velocidade, nos anos assolados pela crise sanitária. As condições de trabalho também pioraram, segundo os sindicalistas, em que pesem os cuidados tomados pelas empresas do parque industrial de Manaus para evitar a proliferação de contaminações no ambiente corporativo, e o consequente aumento no número de afastamentos de funcionários do trabalho.
“Acima do normal”
Números divulgados recentemente pelo Sindmetal-AM (Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas do Amazonas), no entanto, mostram um quadro mais recente e menos promissor para o trabalhador do PIM, com elevação da taxa de turn over. Segundo a entidade, de janeiro de 2021 até o mesmo mês de 2022, quase 9.000 trabalhadores, entre efetivos e temporários foram mandados para casa. O contingente representa um salto de 32%, no confronto com os 12 meses imediatamente anteriores (6.800).
Matéria do jornal Estado de São Paulo aponta uma contabilidade mais intensa em um período mais curto, apontando um corte de 7.500 vagas apenas entre dezembro de 2021 e a primeira quinzena de janeiro. O sindicato aponta que a maior parte dos trabalhadores desligados nessa contabilidade era de efetivos (6.000), superando com folga o contingente dos temporários (1.500), e que em torno de 70% dos cortes ocorreram em indústrias do subsetor eletroeletrônico. O Sindmetal-AM considerou que a rodada de desligamentos veio “acima do normal”, informando que 40% dos trabalhadores costumam ser efetivados, quando termina o contrato temporário.
O presidente do Sindmetal-AM e da CUT-AM (Central Única dos Trabalhadores do Amazonas), Valdemir Santana, ressaltou ao Jornal do Commercio que as demissões se devem principalmente à falta de insumos para produção no PIM, enquanto há empresas que também buscam a entidade para fazer acordos de suspensão temporária de contrato de trabalho. O presidente do Sindmetal-AM lembrou que a legislação permite que a empresa contrate mão de obra temporária por nove meses, mas disse que algumas empresas estariam ultrapassando esse prazo sem efetivar o trabalhador.
Entidades classistas do PIM estranharam os números do sindicato laboral. Na matéria do jornal Estado de São Paulo, o presidente da Eletros (Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos), José Jorge do Nascimento Junior, assinala não ter conhecimento de demissões “acima do normal no setor”. O dirigente argumenta que as empresas estão segurando ao máximo a mão de obra na expectativa de que o mercado e o ambiente de negócios melhorem no segundo trimestre.
A expectativa, conforme o dirigente é que o Dia das Mães e a Copa do Mundo impulsionem as vendas do segmento, permitindo a manutenção de empregos e até a abertura de novas contratações. O presidente da Eletros concorda, entretanto, que se a conjuntura econômica não melhorar, “inevitavelmente” as empresas terão de recorrer às demissões, retrações de investimentos e reavaliação nas programações de produção. Mas, ressalva que esse não é o cenário “vislumbrado” pelas indústrias.
“Empregos precários”
Assim como Valdemir Santana, o presidente do Sindplast (Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Material Plástico de Manaus e do Estado do Amazonas), Francisco Brito, destacou à reportagem do Jornal do Commercio que as condições de trabalho não acompanharam o faturamento recorde de 2021. No entendimento do sindicalista, a expansão dos postos de trabalho se deu em prejuízo da qualidade dos mesmos.
“O PIM gerou empregos, mas as vagas são terceirizadas e sem direitos. Quando a contração se dá pela própria empresa, o trabalhador tem proteção da convenção coletiva de trabalho, em 62 cláusulas, que incluem cesta básica, plano de saúde e reajuste de salário. Já o terceirizado não tem representação. A gente verifica que o aumento de faturamento aconteceu em detrimento da precarização do trabalho, pelo salário baixo e o emprego sem direito”, desabafou.
O presidente do Sindiplast lembrou também que a chegada da pandemia “assustou todo mundo”, mas apontou que a indústria incentivada não parou nos últimos anos e até aumentou sua produção no período. “Morreram muitos trabalhadores por covid-19, mas todos continuaram trabalhando. Muitas empresas de nosso segmento chegaram ao Polo, principalmente fabricantes de filmes para embalagens plásticas. Foram quase 40, desde 2020”, informou.
O sindicalista acrescenta que a redução linear do IPI fez a situação do trabalhador do PIM ficar ainda mais “preocupante”. “Os empresários nunca acham que estão ganhando. Mas, a situação deve ficar pior, porque muitas empresas não vão mais permanecer em Manaus. A maioria dos empresários e trabalhadores votaram nesse governo, e agora vamos pagar a conta. Isso é péssimo para a capital e para o interior, de onde muitos saíram para trabalhar no Distrito Industrial. Se essas empresas fecharem, muitos companheiros vão voltar a seus municípios de origem e, sem ter o que fazer, vão devastar a floresta para sobreviver”, encerrou.







