Amazônia como cenário ontem e hoje

Em: 16 de março de 2022
A selva deixou um importante legado para os amazonenses, o Museu do Seringal

Em agosto, o Museu do Seringal completará 20 anos, e ficou como legado do filme A selva. Toda a estrutura foi o cenário do filme

Vez por outra a Amazônia se transforma em cenário de produções cinematográficas estrangeiras. A primeira vez que a região apareceu num filme hollywoodiano, ainda que não tenha sido filmado aqui, foi em ‘O monstro da lagoa negra’, de 1954, quando o monstro é capturado no rio Negro e levado para os Estados Unidos. O mesmo monstro, ou um descendente dele, aparece em ‘A forma da água’, de 2017. A mais recente produção, ‘Jungle cruise’, com o ator Dwayne Johnson, de 2021, ainda que recheada de efeitos de computador, se passa inteiramente na floresta amazônica, mas foi toda filmada no Havaí.

Três produções de sucesso, porém, vieram até Manaus e daqui filmaram os enredos que se passam na floresta: Fitzcarraldo, de 1982; Anaconda, de 1997; e A selva, de 2002.

Em Fitzcarraldo, de Werner Herzog, apesar de as cenas na floresta terem sido realizadas nas selvas peruanas, as imagens da cidade foram rodadas em Manaus e um dos cenários foi o Teatro Amazonas. O filme conta a história de Brian Fitzgerald, o Fitzcarraldo (o ator alemão Klaus Kinski), que deseja construir um teatro no meio da selva e enfrenta uma série de dificuldades. Além de Kinski, também participaram de Fitzcarraldo a atriz tunisiana/italiana Claudia Cardinale, e os brasileiros José Lewgoy e Grande Otelo.

Os colunistas do Jornal do Commercio, Pedrinho e Carlos Aguiar foram figurantes na produção alemã.

“Nossa cena era na apresentação da atriz Sarah Bernhardt, no palco do Teatro Amazonas. Eu fazia parte da platéia enquanto o Carlos era um barão da borracha que chegava numa charrete, acompanhado de sua esposa. Sua fala, após descer da charrete, era: “champanhe para os cavalos”. Gravamos em duas noites. Ficávamos até de madrugada, repetindo a cena, isso depois da maquiagem e vestir as roupas de época. Klaus Kinski e Claudia Cardinale também estavam lá. Quando o filme foi exibido, fomos todos empolgados para nos ver em cena. E não é que nossas participações foram cortadas. Só quem apareceu foi a Eldah Bitton, que também estava na platéia”, recordou Pedrinho.   

Mais uma anaconda

Até hoje o filme Anaconda faz sucesso pelo pavor que as sucuris causam, apesar de a serpente do filme, computadorizada, fazer malabarismos que uma original jamais faria. Na história, um grupo de documentaristas entra na floresta tentando filmar a tribo indígena shirishama (não se sabe de onde tiraram esse nome) até encontrar o estranho Paul Sarone (Jon Voight), que deseja capturar uma anaconda viva, a mesma cobra grande, uma das maiores serpentes do mundo. Era para ser um filme de terror, mas devido à ‘inteligência’ da anaconda, chega a ser quase uma comédia.

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Uma anaconda muito inteligente come um personagem atrás do outro, inclusive Paul Sarone (Jon Voight)

Algumas cenas do filme de Luis Llosa foram rodadas em Manaus, inclusive os atores ficaram hospedados no Tropical Hotel, mas a base das filmagens na floresta e no rio, foi o Ariaú Tower, tanto que o hotel aparece numa das cenas. A atriz principal foi Jennifer Lopez e nenhum ator brasileiro teve participação na produção americana.

Anaconda fez tanto sucesso que se transformou numa franquia seguindo-se ‘Anaconda 2 – a caçada pela orquídea sangrenta’, de 2004; Anaconda 3 – offspring, de 2008; e Anaconda 4 – rastro de sangue, de 2009. O próximo filme, Anaconda 5, já está pronto com previsão de lançamento para este ano e é uma reimaginação do original. O certo é que nenhuma das sequências foi filmada na Amazônia, mas a buiuçu amazônica nunca deixou de fazer sucesso.

Dez barcos

De todos os filmes ambientados ou filmados na Amazônia, apenas uma produção, A selva, deixou um legado, no caso, para o Amazonas e Manaus. Em agosto de 2002, os cenários utilizados no filme foram transformados no Museu do Seringal, localizado no igarapé São João, nas proximidades de Manaus. Os cenários reproduzem o casarão de um seringal no final do século 19 e início do 20, exatamente o período de maior efervescência no comércio da borracha.

Com direção do português Leonel Vieira, A selva é uma produção luso-hispano-portuguesa que conta a história de Alberto, um jovem português estudante de direito que, por ser monarquista, emigra para o Brasil, em 1912, indo morar em Belém. Depois de algum tempo morando com o tio, Alberto resolve se embrenhar na floresta e virar seringueiro, trabalhando no seringal ‘Paraíso’, em Humaitá, no Amazonas. É esse seringal ‘Paraíso’ que virou o Museu do Seringal.

Alberto foi vivido pelo ator português Diogo Morgado e a atriz principal foi Maitê Proença. Outros atores brasileiros foram Cláudio Marzo, Chico Diaz, Gracindo Júnior, José Dumont e Roberto Bonfim.

O amazonense Antonio Franco de Araújo, o Bacurau, é presidente da Cooperativa de Turismo do roadway, e promove passeios de barco pelos rios próximos a Manaus. Seus barcos estiveram à disposição da produção e atores dos filmes Anaconda, Tainá 1 e 2, e A selva.

“Em A selva, entre preparação e filmagens, foram três meses de viagens diárias entre o Tropical Hotel até o local das gravações, que virou o Museu do Seringal. Cheguei a dispor de dez barcos, transportando mais de cem pessoas, todos os dias. A Maitê Proença ficava na casinha, que era o cenário de gravações dela. Até hoje sou contratado para gravações de filmes, realitys e séries de TV”, concluiu.

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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