Barcas ou casquetas, nomes para uma mesma embarcação que chama a atenção nos rios do Amazonas, pela velocidade
Essa dica é para quem gosta de velocidade: as casquetas, que hoje se espalham pelos rios de vários municípios do Amazonas. No Manaquiri as pequenas barcas são uma febre, passando em alta velocidade ao lado das grandes embarcações.
Elizeu Santa Rita nasceu na aldeia Kainã, de indígenas munduruku, na comunidade Bom Intento, às margens do rio Manaquiri, um afluente do Solimões e é um apaixonado pela velocidade das casquetas desde que viu a primeira delas, ainda adolescente.
“O gosto pela mecânica nasceu comigo. Lembro que, ainda bem criança, comecei a esmerilhar palhetas já com a ideia de fazer as embarcações ficarem mais velozes”, recordou.
Elizeu contou que a primeira vez que viu uma casqueta passar na sua frente tinha uns 14 anos e foi paixão à primeira vista.
“Lembro que, ainda bem criança, comecei a esmerilhar palhetas já com a ideia de fazer as embarcações ficarem mais velozes”
Elizeu Santa Rita
“Era 2004, ou 2005. Foi quando elas começaram a aparecer aqui por Manaquiri e eram cópias de outras que existiam no Careiro da Várzea e Autazes. Dessa forma elas se espalharam pelos interiores: um foi copiando do outro. Eu, por exemplo, levei a casqueta para Manacapuru, em 2010, quando não existiam por lá. Hoje são comuns na região”, afirmou.
Sobre o nome casqueta, Elizeu não sabe explicar a razão, mas disse que somente na comunidade Araçatuba as pessoas chamam a embarcação por esse nome. Nas outras comunidades é barca.
“Os moradores de Araçatuba são oriundos de Tefé e, segundo eu soube, já trouxeram esse nome de lá”, revelou.
Mas não é só a velocidade que faz com que cada vez mais os ribeirinhos passem a quase voar sobre as águas a bordo de uma casqueta. A economia de combustível também conta bastante.



Adeptos das competições
Em qualquer interior amazônico são comuns as voadeiras e as rabetas transportando pessoas de um lado para o outro. As casquetas seriam as primas jovens e rebeldes dessas duas, que só quer saber de velocidade e diversão.
“Elas correm mais do que as voadeiras e, lógico, das lentas rabetas, e gastando a metade do combustível desta última com o triplo de velocidade. Para se ter uma ideia dessa velocidade, de rabeta, da sede do Manaquiri até aqui a comunidade, gasta-se de 45 minutos a uma hora de viagem. Numa casqueta ‘tiramos’ em 20 minutos, e tem umas mais aperfeiçoadas que levam apenas dez minutos. Elas servem para trabalho, diversão e esporte”, falou.
Elizeu, junto com amigos que também aperfeiçoam as casquetas e seus motores, de vez em quando promovem competições com a pequena embarcação, que já possui vários adeptos só esperando para ver quem corre mais.
“A casqueta tamanho padrão, mede no máximo três metros de comprimento por 0,75 cm de largura e consegue transportar uma única pessoa. Para quem precisa resolver alguma situação de trabalho, é ideal para se locomover de uma comunidade a outra. Já na diversão, atingir grande velocidade nesses rios, sentindo o vento amazônico, é fantástico. Quando ao esporte, é só para profissionais, pois é preparada e pode atingir até três vezes a velocidade de uma casqueta normal, que já é bem veloz”, avisou.
Com conhecimento empírico, Elizeu e outros amantes das casquetas são os responsáveis por fazê-las bater cada vez mais recordes de velocidade. Ao longo desses quase 18 anos da embarcação nos rios do Manaquiri, o avanço da tecnologia nesse processo tem sido impressionante.
Até três metros
Foram vários experimentos e testes, erros e acertos, para chegar ao que são, hoje, as casquetas de corrida. O talho do casco, por exemplo, é modificado, minimizando a aderência da embarcação às águas; o porão, a parte de baixo do casco, recebe um alisamento feito com uma resina especial que permanece inalterada durante anos; a palheta, que pode ter duas pontas (para uso do dia a dia), ou três (somente para correr), também sofre ajustes; o eixo central da rabeta é reduzido e o motor é ‘envenenado’. Tudo em nome da emoção da velocidade.
“Com nossos testes, descobrimos que uma casqueta para corridas não deve mais do que três metros, ou ela pode atingir uma velocidade muitíssimo perigosa, por isso não passamos dessa medida”, alertou.
O tamanho máximo delas são cinco metros, nesse caso podem levar até quatro pessoas e transportar cargas, mas não servem para disputar corridas. São construídas de diversos tipos de madeira: cedrorana, louro aritu, louro alcanfora, louro mamuri e itaúba, entre outras. Para as corridas existem duas categorias: motor padrão de fábrica e motor força livre (mexido).
E as pequenas embarcações ainda possuem mais uma qualidade. São capazes de navegar sobre uma lâmina d’água de até dez centímetros de altura e mesmo na lama.
“Na vazante, quando áreas imensas do Manaquiri ficam só lama, elas circulam facilmente”, informou.
Elizeu se orgulha em dizer que se tornou um especialista em modificar palhetas e motores, não só para tornar as casquetas mais velozes, mas qualquer outra embarcação.
“Basta me dizer o tamanho da embarcação, do talho e qual o motor, que eu transformo uma palheta e o motor, para que ela fique mais veloz”, finalizou.
IMAGENS: Evaldo Ferreira
Vídeo – Reprodução Youtube







