Mestre em engenharia, o empresário Jessé Guimarães construiu uma trajetória bem-sucedida na China. Conhece de perto a tecnologia que os chineses exportam, hoje, para o mundo todo. E ressalta que muitas ferramentas tecnológicas poderiam muito bem ser aplicadas em Manaus, como o metrô de superfície, que se aliaria a outro mix de sistemas modais, melhorando a mobilidade urbana na capital.
Para Jessé, as pessoas têm que dar espaço para a tecnologia, agregando mais valor a atividades essenciais para alavancar o desenvolvimento econômico. Segundo ele, os chineses sempre correm atrás das essências da biodiversidade amazônica, mas não existe uma contrapartida nessa direção, fundamental para atração de novos investimentos nos mais diversos segmentos da economia.
Jessé Guimarães é vice-presidente da Associação de Empresas Brasileiras na China, que reúne mais de 150 consorciados. A entidade promove feiras para atrair brasileiros, patrocinando, praticamente sem nenhum custo, a logística para instalação de estandes e até apoiando financeiramente.
“Mesmo assim, não aparecem brasileiros para participar das feiras”, diz Jessé. O empresário alerta que as patentes são fundamentais para o mercado de exportação. No entanto, essa iniciativa ainda é muito incipiente no Brasil, dificultando a venda de produtos brasileiros no mercado internacional.
Em 2021, o Brasil produziu apenas seis patentes de produtos, uma vergonha para o país, segundo avalia o empresário. Ele alerta. “Sem patente, é muito difícil crescer no mercado”, diz. “É algo muito simples de fazer, barato, mas as pessoas não sabem nem o que é marca”, acrescenta.
O empresário participou da live ‘JC às 15h’, comandada pelos jornalistas Caubi Cerquinho e Fred Novaes, diretor de redação do Jornal do Commercio.
Jornal do Commercio – Hoje, a China é um país próspero. Quais atividades poderiam ser replicadas no Amazonas?
Jessé Guimarães – Poderíamos melhorar a mobilidade urbana em Manaus, investindo num metrô de superfície, que se aliaria a outro mix de modais, desafogando o trânsito. Na China, não há mais o motorista tradicional. E ainda o cobrador. Tudo já é automatizado. O passageiro passa o cartão, desconta a tarifa, e o valor é cobrado por quilometragem.
O metrô de superfície caberia muito bem como atividade turística na Ponta Negra, aproveitando a parte fluvial com o transporte tradicional, que é muito usado aqui.
JC – Há muitas empresas brasileiras na China. O Amazonas também se faz presente nessas iniciativas?
JG – Desde janeiro de 2020, a China se fechou devido à pandemia. Há mais dificuldades. Muitas feiras se tornaram online. Hoje, são enviados produtos para exposições.
Temos aproximadamente 150 grandes empresas brasileiras registradas na China. É um dos maiores consorciados do Brasil. Mas as empresas pequenas não estão conseguindo entrar no mercado chinês.
Acho que a maior barreira é a falta de formação. Geralmente, a empresa grande já tem uma infraestrutura definida na China. É muito mais fácil fazer logística, trabalhar canais de marketing.
Uma empresa pequena não consegue nem certificar o produto, que não é uma coisa complicada. Aqui tem um mercado enorme para produtos da Amazônia. Os chineses vêm até a gente. Temos só cinco empresas pequenas na China. O restante é de grandes.
JC – Existe alguma possibilidade de empresas pequenas brasileiras entrarem no mercado chinês?
JG – Sim, existe essa possibilidade, mas as barreiras são grandes. Lá, eles só falam chinês, vai ter que contratar um consultor, que não é barato. Temos vários órgãos no Brasil que ajudam os microempresários, os pequenos. Nós também ajudamos.
Mas precisa enviar amostras de produtos para serem testados nas feiras. Tem que comprar estande, botar funcionário, é caro. Nós temos condições de oferecer de graça.
Muitas vezes, a gente recebe verbas para atrair brasileiros, mas não temos brasileiros para assumir os estandes.
JC – Fale um pouco da sua experiência na China….que parece estar distante, mas cada vez mais se faz presente no mundo todo.
JG – Em 2011, a diretoria do Sebrae fez uma das primeiras excursões de microempresários. Eu era um microempresário, com pouco mais de 50 funcionários, atendia ao Distrito Industrial, Moto Honda, Yamaha, Brastemp.
Queria comprar um inversor de frequência na China. A viagem durou 30 dias. Fomos até a Alemanha e depois voltamos à China. Fomos em várias cidades. Tinha muito preconceito e concepção errada sobre o país.
Pensava que a mão de obra era barata, que a China só era bonita na parte central.
Fui a várias cidades, foi tudo maravilhoso. Uma cidade com 5 milhões de habitantes é considerada pequena. Voltei para Manaus. Fiz um plano de metas para estar morando na China em 12 meses. Tinha que me desfazer da minha empresa, ver a questão da família, tudo isso.
Tinha que melhorar a minha qualificação técnica, conhecimento de software, matemática avançada. Passei dois anos estudando. Basicamente, a história é mais de determinação mesmo.
Eu já viajei para mais de 70 cidades, conheço praticamente tudo de China, sei qual é a realidade. A China sempre foi próspera. Mas ficou decadente por 200 anos com a guerra do ópio.
Os chineses são muito dedicados aos estudos. Eles estudam muito. E não entendem como as crianças brasileiras podem ter uma educação de apenas quatro horas diárias.
O chinês estuda praticamente o dia todo. Eles investem muito em tecnologia. Fiquei assustado vendo crianças já terem aula de circuitos. Isso desde o ensino fundamental, com robótica, laboratório de laser.
Numa universidade chinesa, em cada aula você tem que criar um projeto real. A aula gera um projeto, é um por dia. A inteligência artificial está bem avançada. Tudo que se fala agora no Brasil já aconteceu décadas atrás na China.
Em 2013, participei da transição do dinheiro para automação. E usei a nova ferramenta. Ninguém mais usa dinheiro lá. A população processa mais rápido as novas tecnologias, diferente do Brasil.
As pessoas falam que a Amazônia tem um potencial muito grande. Mas acho que isso não depende do governo. As pessoas é que fazem as empresas crescerem. Poderíamos muito bem estar usando as essências. Você vai ao Inpi e vê poucas patentes.
Fiz pesquisa na base do Inpi. Em 2021, só tivemos seis patentes em todo o Brasil. Isso é uma vergonha. Você não consegue vender um produto sem a patente.
As pessoas não sabem nem que têm que registrar marca. É fácil fazer uma patente, não precisa ser PhD. O Brasil é um dos países com menores índices de aplicação de patentes. Sem patente, não cresce. A patente está linkada no crescimento econômico. E isso não depende do governo, é o próprio indivíduo que deve tomar as iniciativas.
JC – Em certa época, foi muito ventilado que os chineses estavam interessados no camu-camu. E, agora, como está a questão das essências e de outros produtos? É possível viabilizar algum negócio?
JG – Sim, é possível. Fala-se muito em biotecnologia. E a potencialidade da Amazônia é a biotecnologia, mas há muitos entraves. Se a nossa expertise é a biodiversidade, temos que trabalhar os nossos estudantes desde cedo.
Há muitos cursos técnicos, mas o setor ainda é muito pequeno. Para fazer biotecnologia é difícil. Precisa ter uma base muito forte de estatística e programação. A gente tem excelentes programas para toda situação. O problema é que as pessoas estão criando empresas separadas.
A China pesquisa tudo sobre o perfil do consumidor com modelos matemáticos para cada fator –promoção, clientes etc. No Brasil, ainda não se usa muito a modelagem matemática. Definir mercados através da modelagem matemática. O mercado externo quer consumir. Se quisermos crescer, temos que nos juntar.
JC – Como avalia o grupo Brics com essa situação na Ucrânia?
JG – Obviamente, temos um período de incertezas. Não é a minha área de pesquisa, a minha é de operações. É uma situação um pouco delicada. A pergunta é mais em relação à instabilidade da Rússia.
Acho que em menos de um mês deve se estabilizar. O Brics não se dissolve. Uma dissolução do Brics seria ruim para o Brasil. A situação deve se normalizar em três semanas. Esse conflito vai passar.







