Liderar você mesmo é o caminho para ‘driblar’ a crise, diz especialista

Em: 13 de abril de 2009
Nos últimos seis meses, ao menos, nenhuma expressão foi tão massificada, principalmente nas editorias de economia dos meios de comunicação, quanto “crise econômica”
Nos últimos seis meses, ao menos, nenhuma expressão foi tão massificada, principalmente nas editorias de economia dos meios de comunicação, quanto “crise econômica”

Jornal do Commercio – A crise também gera oportunidades? Em que sentido?

Acácia Branca Ferreira – Eu não diria que a crise gera oportunidades, mas que uma vez nela, o indivíduo vivencia situações de dor, de desconforto, sendo levado a agir para sair delas, até mesmo instintivamente. Nesse processo, ele começa a perceber opções que anteriormente não lhe despertaram a atenção, as chamadas “oportunidades”. Na milenar sabedoria chinesa, o ideograma crise é formado por duas palavras: perigo e oportunidade para lembrar que mesmo em momentos desfavoráveis, sempre é possível descobrir caminhos promissores.

JC – A senhora lembra de algum exemplo em que a crise foi transformada numa experiência de sucesso?

Acácia – De inúmeros. É comum ela funcionar como mola propulsora da experiência de sucesso. Vou mencionar dois casos: um ocidental (que é empresarial, mas não deixa de ser individual) e um oriental (que é de um país). O caso ocidental refere-se a uma das marcas mais poderosas do mundo: McDonald’s. Em que pese a expansão ter acontecido com Ray Kroc, em 1955, a sua origem é mérito dos irmãos McDonald, Maurice e Richard, que foram para a Califórnia em 1926 e arranjaram emprego em um dos estúdios de cinema, onde trabalhavam nos processos de apoio. Quando, em 1932, resolveram estabelecer-se por conta própria, compraram um cinema arruinado em Glendora. Como viviam mal, às vezes faziam uma única refeição por dia e que, frequentemente, era um cachorro-quente comprado numa barraca perto do cinema. Segundo eles, foi observando o dono daquela barraca – que parecia ser um dos poucos negócios que aparentemente estava vendendo alguma coisa naquela época – que lhes ocorreu a idéia de ingressarem no mercado de restaurantes. No Oriente, eu destaco o renascer do Japão, após 1945. Um país com limitações geográficas expressivas, que teve o seu centro econômico destruído pela bomba atômica e cujos produtos, à época, eram reconhecidos como de baixa qualidade. Uma verdadeira fênix, que viria a tornar-se uma das maiores potências do mundo e levaria Lee Iacocca, em sua autobiografia, décadas mais tarde, a falar que o conflito econômico com o Japão seria fundamental para o futuro dos EUA, reconhecendo que estavam lutando contra uma competição terrível e que, se as condições fossem iguais, seria uma sorte se conseguissem empatar com os japoneses. O resultado desse cenário, o mundo está vivenciando agora.

JC – Como o trabalhador pode superar esse mau momento da economia e, dessa forma, manter posto de emprego?

Acácia – É preciso antes de tudo reconhecer que uma das principais tendências mundiais é de redução do emprego. Estudos sinalizam que, provavelmente, apenas um quarto de todas as pessoas terão empregos em período integral nos moldes que conhecemos e que todos terão de fazer planos para várias carreiras diferentes ao longo da vida. Segundo Robert Reich, que foi secretário do Trabalho nos EUA, caminhamos rapidamente rumo a uma era dominada por uma economia única, em que não mais haverá economias, produtos, tecnologias, sociedades anônimas ou indústrias nacionais, mas ainda teremos sociedades nacionais. Nessa perspectiva, cabe a cada um reformular seu próprio futuro, desenvolver talentos e habilidades necessárias para prosperar numa economia única.

JC – Como se distanciar do “efeito psicológico” da crise?

Acácia – No seu livro Megatrends 2000 (Megatendências 2000), John Naisbitt e Patrícia Aburdene reconhecem que estamos no início de uma nova era. Segundo eles, diante de nós, encontra-se a mais importante década da civilização, um período de extraordinária inovação tecnológica, oportunidade econômica sem precedentes, reforma política surpreendente e grande renascimento cultural. Apocalipse ou Idade do Ouro? A escolha é nossa. Ao mencionar o caso do McDonald’s, fiz referência a Ray Kroc, que transformou uma rede de lanchonetes existente na maior cadeia de restaurantes do mundo. A sua autobiografia, em português, está no livro “Deu Certo!”. O título original, se traduzido para português, seria “Moído de Trabalhar”. A escolha desse título para sua autobiografia não se constitui numa referência brincalhona à preparação do produto mais famoso da McDonald’s, mas, antes, quer fazer alusão aos grandes investimentos em tempo, energia e capital que foram necessários à realização do seu empreendimento. O distanciamento do “efeito psicológico” da crise passa por aí: trabalhar como se ela não existisse.

JC – Quais são as dimensões que devem ser observadas na administração pessoal. Há alguma (ou algumas) que a senhora gostaria de destacar, até mesmo como atitude preventiva? E como gerenciar essas dimensões?

Acácia – Há doze dimensões para a construção de uma vida melhor pessoal e profissionalmente. Todas são indispensáveis à formação do Ser Excelente. O destaque que ora faço diz respeito àquelas que devem merecer atenção imediata: atitude positiva (isto é, pensamento positivo), definição de prioridades (ou seja, estabelecimento de objetivos) e compromisso (em outras palavras, determinação e ação). O gerenciamento das dimensões deve ser sustentado na decisão, que ajuda a começar a prática, e na disciplina, que ajuda a incorporá-la na conduta pessoal. O foco é buscar fazer de cada dia da vida uma obra-prima.

JC – Quando alguma coisa dá errado no nosso ambiente de trabalho, costumeiramente apontamos o “outro” como responsá-vel. Qual a explicação para essa tendência?

Acácia – Em 1931, a cidade de Nova York presenciou a mais sensacional caçada humana até aquela época. Cerca de 150 guardas e detetives de polícia sitiaram o apartamento em que estava o pistoleiro Crowley “Dois Revólveres”, o assassino de tiras. Preso e sentenciado à cadeira elétrica, ao encaminhar-se na ala dos condenados à morte em Sing Sing, ele disse: “É isso que eu ganho por me defender.”. Igualmente, Al Capone, o mais sinistro chefe de quadrilha, que, por muito tempo, aterrorizou Chicago, referia-se a si mesmo como benfeitor público. Ambos não se culpavam, não se condenavam, porque, na percepção deles, agiam corretamente. Creio que, saindo do mundo do crime, nós, igualmente, ainda quando agimos indevidamente, estamos convencidos de que fazemos o correto e, portanto, tendemos a atribuir ao outro a responsabilidade pelo que não deu certo. Em resumo, ninguém, em sã consciência, age erradamente, “cabendo”, portanto, ao outro a responsabilidade pelo que não está certo.

JC – Por que assumir a lide-rança sobre nós mesmos é o nosso maior desafio?

Acácia – Porque nos acostumamos a cobrar a mudança do mundo, dos outros, esquecendo que antes de cobrar aos outros devemos cobrar a nós mesmos. Que a mudança que queremos ver no mundo, deve começar em nós. Recorro agora a um fato ligado à vida de Mahatma Gandhi. Certa vez, ele foi procurado pela mãe de um garoto que lhe pediu que dissesse ao seu filho para não ingerir mais açúcar. Ele concordou e pediu a ela que retornasse na semana seguinte. Passado o tempo, a mãe retornou e, para sua surpresa, viu ele dizer ao filho que não mais ingerisse açúcar. Inconformada pela simplicidade do ato, resolveu indagar porque ele não o havia dito há uma semana atrás. Gandhi, calmamente, respondeu: “Naquele tempo, eu também ingeria açúcar”. Liderar a si mesmo implica em disciplina, em luta árdua contra zonas de conforto em que, provavelmente, se está. Nesse processo, convém saber que a única preparação adequada para o amanhã é usar corretamente o dia de hoje. Pensar que aquilo que se fará no futuro depende do que já se é agora. Lembrar que aquilo que se é hoje é resultado de anos de disciplina.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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