Endividamento das famílias de Manaus bate 70% 

Em: 13 de setembro de 2022
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Marco Dassori

Twitter: @marco.dassori   Face: @jcommercio

O nível de endividamento das famílias de Manaus com o comércio e os serviços locais voltou a se aprofundar, em agosto. Ao menos 70,4%, o equivalente a 456.212 delas, já se dizem nessa condição. É um percentual significativamente maior do que o registrado em julho de 2022 (67% e 433.593), ficando pouco acima da marca de agosto de 2021 (69,7% e 445.289). A inadimplência avançou com mais força e pulou de 28,7% (185.651) para 31,3% (203.035). Há um ano, essa taxa não passava de 25,1% (160.054). Ao menos 16,6% (107.587) admitem que não poderão pagar dívidas, fatia que também cresceu em ambas as comparações.

As famílias com renda acima de dez salários mínimos seguem proporcionalmente predominantes entre as endividadas, respondendo por 78% do total. Também estão entre as mais inadimplentes (35,4%), por uma pequena margem. Assim como ocorrido em todo o país, cartões de crédito e carnês ainda são os principais vilões para os mais ricos. O grupo dos que já se encontram sem capacidade de pagamento, por outro lado, é liderado pelas famílias que ganham até dez salários mínimos. É o que apontam os dados locais da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor) da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo).

O Estado acompanhou a média nacional. A proporção de brasileiros endividados cresceu pelo segundo mês seguido e chegou aos 79%, apresentando novo recorde. Houve aumento tanto em relação ao mês anterior (78%), quanto na comparação com agosto do ano passado (72,9%). O percentual de famílias com contas em atraso também avançou e foi a 29,6%, o maior percentual da série histórica da Peic, iniciada em 2010. A fatia dos consumidores brasileiros que admitiram não ter mais condições de pagar contas atrasadas praticamente não se moveu e ficou em 10,8% do total.

Embora tenha caído, o cartão de crédito continua puxando o endividamento em Manaus, em razão de sua praticidade, e a despeito de ainda ser a modalidade de pagamento mais cara. Respondeu por 74,2% das dívidas de agosto. Houve, contudo, nova preponderância das famílias com mais renda (81,3%). Os carnês (45,3%) seguem na segunda posição da lista da CNC e continuam sendo impulsionados também pelos que recebem mais (50%).

Já o cheque especial (17,2%) é usado mais pelas famílias mais pobres (18,4%), assim como crédito pessoal (17,1%), financiamentos de carro (13,4%) e de casa (6,3%), crédito consignado (5,8%). O cheque pré-datado (0,6%), uma invenção brasileira, também é usado exclusivamente pelos que têm rendimentos mais modestos. “Outras dívidas” responderam por 7% do bolo.

Renda comprometida

A sondagem mostra, no entanto, que houve alguma melhora no nível de endividamento dos manauenses. Uma fatia muito inferior à do levantamento anterior se diz “muito endividada” (19,4%), com predomínio das famílias com renda até dez salários mínimos mensais (20,1%). Em seguida está o grupo dos “mais ou menos endividados” (18,9%), situação onde prevalecem as famílias mais ricas (28%). Mas, a lista é liderada pelos autoproclamados “pouco endividados” (29,5%) –que praticamente empatou com julho (29,3%). 

Em média, as famílias de Manaus devem levar 35 semanas para quitar as dívidas –menos que em julho (37). A situação segue a mesma nas estimativas de tempo de comprometimento com as dívidas, já que o percentual dos que esperam levar mais de um ano para tanto (41,4%) ainda é o mais elevado. Em paralelo, a proporção dos devedores comprometidos entre seis meses e um ano (21%) também foi reduzida na comparação com a edição anterior da pesquisa. O mesmo não pode ser dito dos grupos de endividados em até três meses (15,1%) e de três a seis meses (20,7%).

O comprometimento de renda é quase o mesmo. As famílias manauenses consomem 40,1% de seus ganhos com dívidas. Mas, a maioria absoluta das famílias de Manaus (52,8%) ainda gasta mais da metade de seus rendimentos mensais com dívidas, embora o número já seja melhor do que o de julho (55,9%). Na sequência estão os que gastam de 11% a 50% (40,1%) e os que limitam os dispêndios a 10% de seus ganhos (4,6%).

Em torno de 44,5% dos endividados já estão inadimplentes. Apenas 20,2% garantem que conseguirão quitar o compromisso integralmente no próximo mês. Outros 25,9% estimam que conseguirão pagar apenas parcialmente, e os 53% restantes dizem que vão seguir devendo. Ao menos 23,5% estão nessa situação há mais de 90 dias. A fatia de manauenses com dívidas atrasadas entre 30 e 90 dias (61,3%) caiu, mas ainda é majoritária. Já o grupo pendente há menos de um mês encolheu e responde por somente 14,2% do bolo. Em média, as dívidas das famílias inadimplentes de Manaus estão atrasadas há 61 dias.

“Ciclo vicioso”

O presidente em exercício da Fecomércio-AM, Aderson Frota, considera que os dados da Peic refletem os impactos de “duas crises” no varejo e na capacidade de pagamento do consumidor –a guerra na Ucrânia e o “cenário nacional” – que ajudaram a deflagrar o atua processo inflacionário o “remédio amargo das correções progressivas na taxa Selic. 

“É algo que puxou os juros bancários e criou as condições para que o endividamento se agravasse, travando um pouco a atividade. Mas, vivemos uma situação impar números melhores no Amazonas e nossa taxa de endividamento é uma das mais baixas do Brasil. Quase 30% da população não tem nenhuma dívida. Isso tudo é muito alvissareiro, porque faz com que o movimento comercial ganhe robustez e o mercado de trabalho aumente, sendo muito positivo para a nossa economia”, amenizou. 

“Alternativas de crédito”

Em texto distribuído pela assessoria de imprensa da CNC, a economista responsável pela pesquisa, Izis Ferreira, observa que a taxa de endividamento cresceu para ambos os gêneros. “O volume de mulheres endividadas aumentou 0,5 pontos percentuais, entre julho e agosto. No intervalo de um ano, no entanto, as mulheres contrataram mais dívidas do que os homens, uma vez que a alta do endividamento foi maior para elas”, analisou.

A economista destaca ainda que a melhora no mercado de trabalho e as políticas de transferência de renda têm favorecido os rendimentos das famílias mais pobres, mas ressalvou que a inflação ainda desafia o poder de compra do grupo, onde o crédito tem sustentado o consumo –pelo menos até um certo ponto. “A alta nas contas atrasadas foi maior entre as famílias de menor renda. Isso mostra os desafios que esses consumidores seguem enfrentando na gestão mensal de seus orçamentos”, frisou.

No mesmo texto, o presidente da CNC, José Roberto Tadros, ressalta que a maior proporção de famílias brasileiras endividadas em carnês do varejo, no último quadrimestre acontece na esteira da redução do endividamento no cartão de crédito. “As famílias estão buscando alternativas de crédito mais baratas por conta da elevação dos juros, e o cartão de crédito foi o tipo de dívida com a segunda maior alta dos juros médios em um ano até junho, 17 pontos percentuais, segundo dados do BC (Banco Central)”, arrematou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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