
Reportagem: Marco Dassori
Twitter: @marco.dassori
As vendas de veículos novos no Amazonas desaceleraram em setembro, depois de atingirem o pico anual em agosto. Os emplacamentos somaram 5.903 unidades, o que equivale a um decréscimo de 10,43% ante o dado anterior (6.591). Ainda assim, a comparação com o mesmo mês de 2021 (5.178) ainda apontou para uma escalada de 14%. O desempenho foi suficiente para segurar o acumulado do ano no azul, com 47.845 (2022) contra 38.365 (2021) unidades e incremento de 24,71% –em que pese o enfraquecimento da base de comparação pela segunda onda. A alta foi puxada pelos veículos pesados, enquanto automóveis e motocicletas derraparam.
Os números são da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores), que se amparou nos emplacamentos do Renavam (Registro Nacional de Veículos Automotores), que levam em conta todos os tipos e veículos, incluindo automóveis convencionais, comerciais leves, caminhões, ônibus e motocicletas. Vale notar que os dados locais devem ser levados também sob a perspectiva do transit time (tempo de trânsito) entre faturamento e emplacamento, um hiato que pode durar 30 dias, em virtude da logística de translado entre as fábricas do Centro-Sul e as concessionárias no Estado.
De acordo com o levantamento da entidade, desta vez, o desempenho do Amazonas foi pior que o da média nacional, embora o Estado acumule número melhor no ano. Setembro teve 335.300 unidades licenciadas, o que representou um retrocesso de 3,26% na comparação com agosto (346.610). Mas, foi 19,33% superior ao dado de 12 meses atrás (280.979), elevando o acumulado de janeiro a setembro (2.640.805) para uma alta de 2,07%. A Fenabrave comemorou o resultado e manteve suas projeções de não ir além de um crescimento de 4% neste ano.
Automóveis x motocicletas
Diferente do ocorrido em agosto, apenas três das sete categorias listadas pela Fenabrave tiveram melhoras nas vendas do Amazonas, na variação mensal de setembro. O crescimento se restringiu aos veículos pesados, sendo que o melhor desempenho proporcional veio dos ônibus, que tiveram elevação de 32%, com apenas 66 unidades comercializadas. Foram seguidos por caminhões (+21,43% e 119 unidades) e implementos rodoviários (+15,63% e 37). Na outra ponta, motocicletas (-11,94% e 3.254), automóveis (-10,35% e 1.975) e comerciais leves (-9,38% e 406) amargaram quedas. Mas, o maior tombo mesmo veio da categoria de “outros veículos” (-29,23% e 46) –que inclui tratores e máquinas agrícolas.
O quadro melhora quando se leva em consideração o confronto com setembro do ano passado, com o número de categorias em alta já mais encorpado. Ônibus (-+120%), “outros veículos” (+43,75%), automóveis (+35,09%), motos (+20,70%) e implementos rodoviários (+15,63%) aparecem no azul, ao passo que comerciais leves (-45,65%) e caminhões (-33,52%) despontaram no extremo oposto. Em nove meses, a expansão ainda é uma realidade apenas para veículos de duas rodas (+65,77%), enquanto os carros (+0,77%) chegaram ao empate.
A troca de sinal nas vendas garantiu que os veículos de quatro rodas voltassem a ceder lugar às motocicletas no ranking das categorias mais vendidas no Amazonas, e ainda por uma larga margem. As motos continuaram na primeira posição, avançando de 44,32% para 58,92%, entre setembro de 2021 e o mês passado. Em sentido contrário, automóveis e comerciais leves voltaram a reduzir sua participação no bolo de vendas na mesma comparação, com 37,45% (2022) contra 49,38% (2021).
Mercado parado
Sem revelar números, o sócio diretor da Kodó Veículos, Diogo Augusto Maia da Silva, disse à reportagem do Jornal do Commercio que, depois de terem subido “um pouco” em agosto, as vendas estacionaram em setembro. Ele ressalta que, mesmo com incentivo tributário sobre o preço do combustível e desconto de IPI no preço dos carros, o mercado deu “uma paradinha”, fazendo com que a empresa se mantivesse “na média”. O empresário atribuiu a estagnação principalmente às incertezas políticas inerentes às corridas eleitorais do segundo turno para presidente da República e governador do Amazonas.
“O pessoal fica esperando por essa definição, antes de decidir por se endividar com um bem durável. Tem muita gente que não sabe se vai manter o emprego, se houver mudança, inclusive funcionários comissionados. Além disso, o comércio está muito parado, e aquele ganho da gasolina mais barata já passou. A boa notícia é que a oferta normalizou, embora algumas fábricas ainda enfrentem problemas para conseguir insumos. Mas, os preços continuam subindo e hoje qualquer carro popular bem simples custa R$ 70 mil. Desse jeito, essa redução da alíquota do IPI também não ajuda nada”, explicou.
O sócio diretor da Kodó Veículos reforça que a escalada dos juros e as restrições bancárias seguem inibindo a demanda, especialmente no caso dos “carros populares” e voltados ao público que depende de financiamentos para a compra, em um período de alta de juros e inadimplência. Dados da Anefac mostram que, além de restritos, os empréstimos estão ainda mais caros. O CDC para aquisição de veículos foi justamente a modalidade de crédito com maior alta mensal em agosto (+2,87%) e sua taxa já está em 2,15% ao mês e 29,08% ao ano. “A situação continua incerta e fica difícil prever como vai ficar o mercado, enquanto não tivermos uma definição nessas eleições”, enfatizou.
“Curva consistente”
Em comunicado à imprensa, o presidente da Fenabrave, José Maurício Andreta Júnior, salienta que setembro foi o primeiro mês de 2022 a registrar resultado acima do mesmo período do ano anterior, de Norte a Sul do país, e que as vendas de veículos só não obtiveram melhor desempenho em razão do calendário. “A queda, em relação a agosto, foi explicada pela diferença de dias úteis (21 em setembro ante 23 em agosto). Nas vendas diárias, houve resultado superior a agosto e a curva de crescimento tem se mostrado consistente”, afirmou.
José Maurício Andreta Júnior salienta que, diferente do ocorrido no Amazonas, os segmentos de automóveis e comerciais leves mostraram recuperação de vendas no mês passado, ajudando a consolidar resultados melhores no acumulado do ano. E acrescenta que a categoria de eletrificados seguiu avançando. “Ambos conseguiram bons resultados, especialmente a partir do segundo trimestre. Acredito que podemos encerrar 2022 com o número de emplacamentos próximo à estabilidade, ou levemente positivo”, avaliou, sem mencionar números.
No caso das motos, o presidente da Fenabrave informa que, também em sentido contrário ao observado no Estado, as vendas diárias se sustentaram no ritmo de crescimento aguardado pelas empresas. “No ano, a elevação está muito próxima às nossas projeções oficiais”, finalizou, acrescentando que o aquecimento é movido pela demanda por “transporte individual e econômico” e pelo aumento dos serviços de delivery.






