

Evaldo Ferreira: @evaldo.am
Um dia Omama copulou com a filha do monstro aquático Tëpërësiki, dono das plantas cultivadas, e deram origem ao povo yanomami. As regras e a cultura seguidas pelos yanomami até hoje foram ditadas por Omama. Os espíritos (xapiripë), também foram criados por ele e seu filho foi o primeiro xamã. Omama seria um demiurgo que, segundo Platão, é um intermediário de Deus na criação do mundo. Mas, por que Omama fez de seu filho um xamã, alguém com poderes para invocar espíritos e possuir faculdade curativa ou divinatória? Talvez para fazer frente a Yoasi, irmão de Omama, ciumento e malvado, origem da morte e dos males do mundo.
“O ritual de xamanismo tem vários objetivos, vão desde a orientação dos espíritos para o desenvolvimento das xaponopë (aldeias), à prevenção de doenças até a cura de enfermidades”, explicou Luiz Davi Vieira Gonçalves, professor adjunto da UEA, performer, diretor de teatro e antropólogo-artista.
Para os yanomami, os xamãs são tão poderosos que suas orações impedem o céu de cair sobre a Terra. E isso já teria acontecido outras vezes. De acordo com o xamã Davi Kopenawa, “o céu já caiu por inúmeras vezes, redistribuindo esta humanidade comum a cada queda”. E o céu teria uma floresta nas costas, que reflorestaria o mundo, recomeçando todo o ciclo de vida.
“Na realidade, não são orações, mas diálogos tradicionais com os espíritos. Mantendo o diálogo, o céu não cai. Ou seja, enquanto tiver hekuramou (xamanismo) yanomami o céu não vai cair. Se não tiver yanomami fazendo xamanismo todos nós morreremos com o céu caindo sobre nós”, acrescentou Luiz Davi, que trabalha há mais de dez anos entre os yanomami.
Acabarão fugindo
É de se pensar nessa hipótese cada vez que os arqueólogos encontram cidades soterradas a vários metros de profundidade, porém, tão assustador quanto a queda do céu sobre nossas cabeças, é a destruição da natureza provocada pelo branco. Para Davi Kopenawa, essa destruição também pode acabar com o mundo, e nem os xamãs poderão detê-la.
“A terra-floresta só pode morrer se for destruída pelos brancos. Então, os riachos sumirão, a terra ficará friável, as árvores secarão e as pedras das montanhas racharão com o calor. Os xapiripë, que moram nas serras e ficam brincando na floresta, acabarão fugindo. Seus pais, os xamãs, não poderão chamá-los para nos proteger. A terra-floresta se tornará seca e vazia. Os xamãs não poderão deter as fumaças-epidemias e os seres maléficos que nos adoecem. Assim, todos morrerão”, previu Davi.
Aparentemente os xapiripë são bastante poderosos e, nas suas brincadeiras pela floresta, têm impedido as inúmeras investidas, principalmente de garimpeiros, nas ricas de minérios, e sagradas terras dos yanomami.
“A presença dos não indígenas em território yanomami já vai completar 80 anos e até hoje eles mantêm as práticas culturais. Os yanomami estão sempre buscando parcerias com os não indígenas para projetos e ações nas aldeias”, informou Luiz Davi.
Voltando a falar de Omama, os brancos (napëpë) só existem na face da Terra, também graças a ele, pois teriam sido criados a partir da espuma do sangue da menstruação de mulheres yanomami, levada adiante por uma enchente e devorado por jacarés e ariranhas.
Pequenos e brilhantes
Do primeiro xamã, filho de Omama, até hoje, os ensinamentos xamânicos não mais pararam de ser repassados de geração para geração.
“Ser hekurapë (pajé, ou xamã) é algo de bastante prestígio nas xaponopë yanomami e, também, requer bastante dedicação nesta prática. Uma vez iniciado, o hekurapë irá exercer a prática pelo resto de sua vida. Existem várias possibilidades de o indivíduo se tornar xamã: ele decide, a família pode mandar, ou os outros xamãs é que escolhem”, falou Luiz.
A iniciação acontece diante de um chamado que normalmente surge a partir de sonhos e também pela autorização dos kekurapë mais experientes com o ritual. Os iniciados aprendem a ver e dialogar com os espíritos. O ritual de iniciação pode levar de 10 a 30 dias, mais ou menos.
“Uma vez iniciado, o hekurapë passa a ter contatos com os espíritos. Cada hekurapë tem seus espíritos de diálogo e quanto mais experiente, com mais espíritos ele pode dialogar, e só ele próprio consegue mensurar com quantos consegue falar. Nesses diálogos recebe informações de como orientar a população, prevenir sobre doenças e até mesmo curá-las”, contou.
Os xamãs contactam os espíritos inalando o yakoana, um rapé alucinógeno.
“Só quem conhece os xapiripë pode vê-los porque são muito pequenos e brilhantes como a luz. Há muitos, muitos xapiripë, milhares de xapiripë, como estrelas. Eles são bonitos e decorados com penas de papagaio e pintados com urucum e outros têm oraikok, outros usam brincos e tintura preta e dançam muito bonito e cantam de forma diferente”, concluiu Davi.
Os xamãs, então, graças aos xapiripë seriam os conselheiros, orientadores, psicólogos e médicos dos yanomami, um povo de caçadores-agricultores que vive no Norte da Amazônia, entre o Brasil e a Venezuela, cerca de 38 mil pessoas, ocupando um território de aproximadamente 192.000 km2. Só o território deles no Brasil é o dobro do tamanho da Suíça.







