Marco Dassori
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A indústria de bicicletas do PIM revisou suas metas de produção para baixo, pela segunda vez neste ano, e já espera retração. Nesta sexta (14), a Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares) oficializou que a perspectiva agora é fechar 2022 com 630 mil unidades fabricadas, 15,9% a menos do que em 2021 (749.320). Até então, a expectativa era produzir 750 mil unidades, o que indicaria um virtual empate (+0,10%). Vale notar que, em janeiro, o segmento apostava em uma alta de 17,44% (880 mil) para o período.
Na análise da Abraciclo, resiliência na crise de abastecimento dos insumos e mudanças de mercado foram os principais fatores para a nova correção de rota. As projeções do subsetor seguem na contramão das estimativas das montadoras da ala motorizada do polo de duas rodas de Manaus, onde o otimismo é crescente. Nesta quinta (13), durante a coletiva de imprensa, a entidade revisou suas projeções para cima, diante de um novo recorde de produção e vendas e motocicletas. Também foi a segunda vez em que as apostas nas linhas de produção de motos do PIM foram redobradas.
O quarto mês seguido de retrocesso na produção dos fabricantes de bicicletas do Polo Industrial de Manaus acendeu o sinal vermelho e rebaixou as expectativas. As fábricas entregaram 48.442 unidades em setembro, quantidade 11,3% inferior à de agosto de 2022 (56.644). No confronto com setembro de 2021 (83.766), o recuo foi ampliado para 42,2%, apesar da base de comparação estar abaixo da média, em ambos os casos. Com isso, o acumulado do ano já está negativo em 18,7% (476.619).
Os números da Abraciclo vão ao encontro do movimento de declínio detectado nos Indicadores de Desempenho do Polo Industrial de Manaus, a despeito da defasagem comparativa na base de dados da Suframa. Ao contrário do ocorrido no subsetor de motocicletas, o de bicicletas vem registrando sucessivos recuos de faturamento e produção, mês a mês, desde junho. No acumulado dos sete meses iniciais de 2022, suas linhas de produção amargaram um tombo de 12,33% e não passaram de 385.495 unidades. Com isso, as vendas não passaram de US$ 126,75 milhões.
A Abraciclo confirma que o mercado continuou apostando nas Moutain Bikes, em meio à crise. Com 29.802 unidades e 61,5% do volume total produzido, a MTB seguiu como a categoria mais produzida, embora tenha recuado nas variações mensal (-9,7%) e anual (-37,9%). Em seguida estão os modelos Urbana/Lazer (22,4% e 10.829), Infantojuvenil (12,8% e 6.214), Elétrica (2,2% e 1.082) e Estrada (1,1% e 515). Todas amargaram retrações na comparação com agosto de 2022 e apenas a Elétrica (+69,6%) e a Infantojuvenil (+59%) cresceram em relação a setembro de 2021.
O Sudeste foi a região que recebeu o maior volume de bicicletas fabricadas no PIM. Foram enviadas 32.500 unidades para lá, em setembro, o que corresponde a 67,1% do total fabricado. Na sequência estão o Sul (5.569 e 11,5%), o Nordeste (5.146 e 10,6%), o Centro-Oeste (3.440 e 7,1%) e o Norte (1.787 e 3,7%) – o único a experimentar recuo mensal. As mesmas posições foram mantidas no ranking do acumulado do ano.
Dupla crise
Durante a coletiva desta quinta (13), e também em texto distribuído pela assessoria de imprensa da entidade, o vice-presidente do segmento de bicicletas da Abraciclo, Cyro Gazola, destacou que o subsetor está sendo “fortemente impactado” pela conjuntura econômica que reduziu o poder de compra do brasileiro. “A procura pelos modelos de entrada registrou forte queda [que são mais baratos]. Muitas pessoas postergaram ou simplesmente desistiram de adquirir uma bicicleta”, enfatizou.
Segundo o executivo, diante da nova realidade de mercado, e também dos impactos da pandemia nas cadeias globais de produção, os fabricantes do PIM tiveram de rever seu mix de produtos para atender à demanda, ja qu e o mercado pede por modelos de médio e alto valor agregado. “Precisamos rever todo o planejamento, reprogramar as linhas de produção e a cadeia logística. Mas, isso leva tempo e não acontece de uma hora para outra”, frisou.
Gazola destaca que a crise no abastecimento está longe de ser solucionada, e lembra que em torno de 50% dos itens de uma bicicleta – como quadros, sistemas de freios, transmissões, suspensões e selins – são importados de fornecedores globais. “A falta de peças e componentes continuará a comprometer a produção nos próximos meses. É uma crise global, que afeta todas as fabricantes do mundo”, lamentou.
A entidade empresarial informa que, para reduzir a dependência do mercado externo, está desenvolvendo um trabalho junto com os fornecedores de peças e componentes, no sentido de incentivar a nacionalização de produtos e estimular a indústria local. O primeiro passo foi dado em agosto, durante a realização do 1º Encontro Empresarial Abraciclo da Indústria de Bicicletas, em Manaus.
Segundo Gazola, mesmo diante das dificuldades, as associadas da Abraciclo mantêm seus investimentos nas linhas de produção e em novas tecnologias. “A mobilidade sobre duas rodas é um movimento que veio para ficar, principalmente nos grandes centros urbanos, onde o ir e vir das pessoas está cada vez mais difícil. Por isso, é fundamental investir no aprimoramento dos processos fabris que vão resultar em maiores ganhos de qualidade para oferecermos ao consumidor modelos com alto valor agregado”, asseverou.
Diferencial no delivery
O presidente do SIMMMEM (Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Manaus), e vice-presidente da Fieam, Nelson Azevedo, concorda que os dados divulgados pela Abraciclo referentes à produção e vendas de motocicletas e de bicicletas manufaturados no PIM são dissonantes entre si. “Alguns fatores são responsáveis pelo baixo desempenho das bicicletas, como a conjuntura econômica, que reduziu o poder de compra do brasileiro e fez o subsetor concentrar vendas nos modelos mais especificados e de maior valor. Mas, o futuro da bicicleta é promissor. Assim que a inflação for controlada, e a taxa de juros voltar a cair, o consumidor irá retomar seus projetos de mobilidade urbana e de lazer”, amenizou.
Nelson Azevedo ressalva, por outro lado, que as motocicletas tiveram sua importância potencializada durante a pandemia, com o avanço dos serviços de delivery, sendo esse um fator que ajudou a conferir desempenho melhor para o segmento. O presidente do SIMMMEM acrescenta que o aquecimento na demanda por entregas ajudou a tornar a motocicleta um instrumento de trabalho para boa parte dos brasileiros que tiram seu sustento nesse segmento de mercado – um paralelo que a bicicleta tem dificuldade para alcançar.
“As fabricantes de motocicletas instaladas no PIM estão realizando seus investimentos para atender a essa demanda de mercado. Temos novas fábricas que fizeram seus estudos de viabilidade econômica e decidiram por aportar seus investimentos na região, usufruindo dos incentivos fiscais oferecidos pela Zona Franca de Manaus”, finalizou.







