Quem sobe a rua Tapajós, a partir da av. Leonardo Malcher, não pode deixar de ver, no lado direito, uma longa escadaria tendo pedras como base. A escadaria é secular, está bastante deteriorada, mas se depender de um grupo de moradores da Tapajós, tendo à frente o pesquisador e blogueiro José Rocha, a construção deverá se tornar um ponto turístico de Manaus.
“Toda essa área aqui pertenceu a Leonardo Ferreira Marques, o barão de São Leonardo. Cearense, Leonardo Ferreira foi o primeiro vice-presidente da província do Amazonas entre 24 de agosto e 26 de novembro de 1868. Ele mandou construir o Palacete de São Leonardo, adquirido depois pelo então presidente da província Theodureto de Faria Souto (1884) para ser o Museu Botânico do Amazonas. No Palacete funcionou posteriormente o Instituto Benjamin Constant”, contou Rocha.
Quem passa pelas ruas próximas ao prédio não consegue ver, mas suas laterais e a parte de trás são protegidas por imenso muro de pedras.
“Acredito que o barão, quando mandou construir esse muro, aproveitou para fazer a escadaria de pedras, que levava até o igarapé, hoje coberto pela continuação da Tapajós com a Leonardo Malcher. No ano em que cheguei aqui, em 1968, ou seja, cem anos depois de o barão ter sido vice-presidente, o primeiro lance da escadaria ainda existia, mas o segundo havia sido substituído por uma escadaria de madeira, sempre restaurada pelos moradores que iam se abastecer de água no igarapé”, lembrou.
Quando Paulo Pinto Nery foi prefeito de Manaus, entre 1965 e 1972, ele mandou fazer a ligação da Tapajós com a Leonardo Malcher e o igarapé passou a correr por canos, sob a pista. Também completou a escadaria quase no estilo da original.


Casarão de 1906
Rocha recorda que a famosa ladeira da rua Tapajós, no passado, servia de testes de direção para candidatos à carteira de habilitação do Detran.
“E foi palco de muitos acidentes, pois, acredite, tinha mão e contramão”, revelou.
A escadaria acompanha praticamente toda a ladeira. Ela começa bem em frente à residência da família Madeira, um casarão de 1906, e segue até o portão de entrada dos alunos e professores do Colégio Frei Silvio Vagheggi/Benjamin Constant.
A construção possui duas partes distintas. A primeira, feita de cimento armado, é constituída por 17 degraus e dois patamares de formato irregular, sem a preocupação com a metragem de cada degrau. São quatro degraus iniciais e o primeiro patamar bem em frente ao portão principal do casarão dos Madeira. Depois seguem mais 13 degraus e o segundo patamar, no formato de um L, na entrada lateral do casarão.
“A segunda parte possui 23 degraus. É original, da época do barão, bem como o paredão que integra o muro do entorno do colégio. Os degraus são largos, bem elaborados e nivelados, com pedras em sua base. Uma obra-prima feita pelos nossos antepassados, pois naquela época as construções eram para durar, construídas com esmero e dedicação”, explicou Rocha.
Atualmente a escadaria encontra-se em péssimo estado de conservação, cheia de mato e lixo em toda a sua extensão, além de ter buracos e algumas pedras haverem se deslocado de seus lugares, bem como o muro está bastante sujo dando um visual deprimente ao local.
“Isso força as pessoas que passam por aqui, principalmente os idosos, a preferirem andar pela rua enfrentando a movimentação constante dos carros”, lamentou.
Grafites nos muros


Agora um grupo formado por Rocha, o Grupo Escada, com Socorro Papoula (atriz), Maíra Dessana (professora e musicista), Bruno Pantoja (arquiteto), Júlio Lira (músico do Raízes Caboclas), Bepi Sarto (ex-presidente do Iphan), Carbajal Gomes (empreendedor), além das famílias Madeira e Garantizado, quer revitalizar a escadaria. Uma das sugestões, dada por Socorro, é colocar azulejos em cada lance da escada contendo grafismos indígenas, tipo a escadaria Seláron, no Rio de Janeiro, que virou um espaço instagramável da cidade maravilhosa.
“Também queremos mandar fazer grafites nos paredões, e colocar canteiros floridos e corrimão de cima abaixo”, avisou Rocha.
O projeto deve começar a partir da calçada da casa número 365, onde morou a família do escritor Márcio Souza e o grupo Raízes Caboclas realizava ensaios. Seriam assentados pisos hidráulicos até a entrada onde há um estacionamento, seguindo adiante depois dessa entrada até o início da escadaria, no qual seria colocado o primeiro canteiro. No muro do casarão dos Madeira seria pintado o primeiro grafite. Os 13 primeiros degraus receberiam os azulejos. O começo da escadaria original receberia outro canteiro.
“A parte original da escadaria, histórica, bem como o paredão ao seu lado, seriam restaurados. Ainda não sei se os degraus podem receber os azulejos ou o paredão ser grafitado. Pretendemos levar esse projeto às instituições para que nos ajudem, mas caso não nos atendam, nós mesmos realizaremos bingos e Livro de Ouro, para arrecadar doações, além de pedirmos apoio de empresas e instituições daquela área”, adiantou.
Enquanto o projeto de Rocha e demais moradores da Tapajós não sai do papel, vale uma visita ao local para conhecer um pouco da história de Manaus e, se possível, vir a ajudar na sua restauração.
Por Evaldo Ferreira: @evaldo.am







