Você, hoje, com belos ladrilhos em todos os pisos de sua casa, já parou para imaginar como eram os pisos das casas da Manaus de antigamente? Pois a arquiteta Clíssia Monteiro fez uma pesquisa e descobriu que antes da belle époque baré, o chão das casas dos manauaras era de terra batida, uma mistura de argila e pó de pedra. Isso na casa dos pobres. Os mais endinheirados mandavam fazer um porão, onde não colocavam os pés, e o piso do andar seguinte era todo de madeira trabalhada.
“Marcio Philaphiano Nery (1865/1911), médico epidemiologista, diagnosticou que a umidade natural do solo e suas emanações gasosas provocavam doenças nos moradores daí sendo criada uma lei que obrigava as pessoas a colocarem ladrilhos em suas casas, mas novamente os pobres não tinham dinheiro para tal”, lembrou Clíssia.
Apaixonada pelos ladrilhos dos casarões seculares de Manaus, há mais de dez anos a arquiteta fotografa e publica no seu Instagram @chão velho, fotos e informações sobre as publicações. Seu slogan, a cada postagem, é ‘mais um chão velho de Manaus’.
“As pessoas costumam chamar esses ladrilhos de azulejo português, mas os azulejos, diferente dos ladrilhos, não são porosos e são colocados principalmente nas paredes. Milenarmente o uso de mármore, mosaicos e cerâmicas queimadas eram comuns em mansões, palácios e templos religiosos até que, em 1851, os franceses Etienne Larmande e Auguste Lachave patentearam as primeiras prensas e moldes que permitiam fazer desenhos e cores em peças de cimento às quais deram o nome de ladrilhos hidráulicos. O cimento, como conhecemos hoje, é uma invenção de 1817, do também francês Louis Vicat”, contou.



Mais bem cuidado
Quando Manaus se tornou uma cidade rica, entre o final do século 19 e início do 20, devido ao comércio da borracha, os pisos dos casarões e palacetes dos endinheirados passaram a ter esses ladrilhos, bem como cimento, importados da França. É esse material que, agora, Clíssia pesquisa e tem descoberto muitas histórias curiosas.
“Me formei em arquitetura, em 2020, e sempre admirei o patrimônio arquitetônico da Manaus antiga, me chamando a atenção os pisos que, por sinal, não são valorizados pelas pessoas. Uma vez fui a uma loja de brinquedos, no Centro, e lá encontrei um belo piso de ladrilhos. Depois de algum tempo voltei àquela loja e qual não foi minha surpresa ao ver que eles haviam retirado todo o piso antigo e substituído por um com ladrilho atual. E muita gente faz isso”, lamentou.
Clíssia calcula que, nesses anos de garimpagem, já visitou mais de cem casarões, só em Manaus.
“Já fotografei pisos no Rio de Janeiro e em mais de 30 cidades de Minas Gerais. Ouro Preto, sem dúvida, é a mais rica em diversidade de desenhos. Não se encontra um único piso parecido com outro e, detalhe, quanto mais bem desenhado e detalhado o ladrilho, significa que aquela família tinha mais dinheiro”, revelou.
Uma característica dos ladrilhos seculares é a medida 15x15cm, bem diferente dos atuais, imensos.


“Toda vez que vejo um casarão antigo, se estiver abandonado, tento entrar; se tiver moradores, procuro conhecê-los para me autorizarem a fazer as fotos, mas tem gente que não deixa, enquanto outros são bem acessíveis. Tem um casarão, de 1902, na praça dos Remédios, cujo piso eu considero o mais bem tratado de Manaus. Ele começa na varanda e segue por todo o casarão. A proprietária tem o maior ciúme e zelo com o piso de 120 anos”, disse.
Ladrilhos exclusivos
Clíssia também descobriu que os desenhos dos ladrilhos do Palácio Rio Negro foram pintados com uma técnica indígena, e a tinta foi preparada a partir do estrato de jenipapo.
“Eu soube que, na década de 1940, uma pessoa chegou a montar uma fábrica de ladrilhos, em Manaus, mas era uma coisa bem rústica, apenas para atender à população de baixo poder aquisitivo, e são fáceis de conhecer esses pisos. São decorados apenas com riscos coloridos de vermelho, verde ou laranja”, informou.
Em março deste ano, Clíssia ministrou uma oficina na qual ensinava as pessoas a fazer ladrilhos em casa.
“Foi um ensinamento básico, mas a partir daí as pessoas podem se aprimorar e aperfeiçoar, e até produzir ladrilhos exclusivos para a sua casa. Quem desejar receber esses ensinamentos individualmente, eu atendo em particular”, avisou.
E quem quiser conhecer presencialmente uma parte do trabalho de pesquisa de Clíssia, pode visitar sua exposição de fotografias que, desde agosto e até janeiro do próximo ano, está no Centro Cultural dos Povos da Amazônia.
“Para ser mais realista, as pessoas podem até pisar nas fotos”, garantiu.
Quem, também, morar em um casarão secular ainda não visitado por Clíssia e quiser receber sua visita, pode ligar para ela: 9 9436-6194.
Esta matéria é uma homenagem ao Dia do Arquiteto, comemorado em 15 de dezembro.







