PIB do Amazonas tombou em outubro, apesar das altas em comércio e serviços

Em: 29 de dezembro de 2022

O PIB do Amazonas começou o quarto trimestre com um novo declínio, após o ensaio de recuperação anterior. A retração foi de 1,31%, na variação mensal de outubro, em um período positivo para comércio e serviços, mas fraco para a indústria. O desempenho veio no sentido contrário do dado de setembro (+0,71%), e ainda mais fraco do que a média nacional. A comparação com outubro de 2021, ainda rendeu alta de 5,19%. Com isso a economia amazonense, conseguiu expandir 4,82%, no comparativo dos dez meses iniciais deste ano. É o que apontam os números mais recentes do IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central). 

Os dados são dessazonalizados e desconsideram diferenças de feriados e de oscilações da atividade econômica, típicas de determinadas épocas do ano. Conforme o estudo, o Amazonas voltou a ter performance melhor do que a brasileira apenas nos comparativos de longo prazo. O IBC-Br nacional caiu 0,05% ante setembro, em resultado simétrico ao do levantamento precedente (-0,05%), e novamente abaixo da média das expectativas do mercado financeiro. O confronto com outubro de 2021 mostrou acréscimo de 3,68%, contribuindo para uma elevação de 3,41% no acumulado. 

A economia amazonense aparece com 154,78 pontos, conforme os dados do BC, no menor número desde julho deste ano. A média móvel trimestral encerrada em outubro indicou alta de 0,99%. Em 12 meses, o PIB do Amazonas cresceu 3,71%. Ambas as comparações são mais usadas pelos especialistas para indicar eventuais tendências. Em contrapartida, a média brasileira (144,50 pontos) apresentou performance mais fraca na variação trimestral (+0,44%) e pouco abaixo do dado regional na base anualizada (+3,13%).

Setores e arrecadação

O IBC-Br tem metodologia de cálculo distinta das contas nacionais do IBGE –cuja próxima divulgação nacional está prevista para 2 de março de 2023. O indicador do BC leva em conta estimativas para os setores econômicos, acrescidos de arrecadações de impostos. Mas, sua divulgação não inclui o desempenho de cada rubrica. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam, no entanto, que a produção industrial tombou, embora o comércio tenha aquecido e os serviços tenham consolidado novo crescimento. 

Segundo o IBGE, a indústria amazonense encolheu pelo segundo mês consecutivo, na contramão da média nacional. O tombo mensal de outubro (-8,2%) foi ainda maior do que o de setembro (-3,1%). O confronto com o mesmo mês de 2021 pontuou acréscimo de 1,8%, que foi alavancado apenas pelos segmentos de bens de informática e de duas rodas, enquanto o polo eletroeletrônico voltou a recuar. Com isso, o setor sustentou altas respectivas de 4,5% e de 2,6%, nos acumulados de janeiro a outubro, e dos 12 meses, com ganhos também nos subsetores de plásticos e combustíveis. 

No mês do Dia das Crianças, e também de repique inflacionário, o comércio comemorou aquecimento mensal de 1,2%, além de colecionar altas na comparação com outubro de 2021 (+3,6%) e nos acumulados (+2,9% e +1,7%). Segmentos dependentes de crédito conseguiram agregar resultado, em período favorável também para móveis, eletrodomésticos, informática, combustíveis e supermercados. Já os serviços emendaram seu quarto mês de alta, com acréscimos em todas as comparações (+0,9%, +12,3%, +9,4% e +8,4%, respectivamente), e destaque para as atividades de informação, comunicação e “outros serviços”. 

Receita e Sefaz tiveram pior sorte. A arrecadação federal (R$ 1,80 bilhão) teve queda real de 1,72% em relação a outubro de 2021, no quarto mês seguido de resultados negativos. As baixas se situaram nos recolhimentos de ITR, PIS/Pasep, Cofins, CSLL. Já a receita tributária estadual do Amazonas recuou 3,28%, já descontada a inflação, ao somar apenas R$ 1,34 bilhão. O recolhimento foi desfavorecido pelos desempenhos negativos do majoritário ICMS, em um mês positivo apenas para a indústria, a despeito da receita mais tímida com insumos importados. Outras reduções substantivas vieram do IRRF e da contribuição para o financiamento da UEA. 

Movimento de cautela

O ex-presidente do Corecon-AM, consultor empresarial e professor universitário, Francisco de Assis Mourão Júnior, avalia que comércio e serviços ainda estão aquecidos em virtude do reforço no Auxílio Brasil e suas perspectivas de continuidade. “A reação positiva dos setores demonstra solidez na economia do Amazonas. A indústria, por outro lado, pode até ter desacelerado por uma antecipação de vendas. Mas, acredito que o setor, que trabalha com planejamento estratégico para o próximo ano, está com cautela, porque os juros ainda estão altos, apesar da inflação mais baixa”, analisou.

O economista ressalva, entretanto, que as incertezas sobre o futuro contribuíram para a desaceleração do PIB estadual em outubro, e tendem também a influir no andamento da economia nos próximos meses. “Não se tem ideia de como será a economia no ano que vem, que terá um novo presidente e um novo ministro da Economia. Essa retração vem principalmente em decorrência dessas perspectivas, de como vai ficar o modelo ZFM, e quem será o novo superintendente da Suframa. E ele terá, entre seus muitos desafios, a reforma Tributária”, frisou. 

“Inúmeros desafios”

A ex-vice-presidente do Corecon-AM, e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, considera que os dados mais recentes do IBC-Br demonstram que o Estado ainda não conseguiu trilhar caminho da recuperação econômica, mesmo com os piores dias da pandemia tendo sido deixados para trás. A economista pondera que os dados do IBC-Br e do IBGE confirmam que comércio e serviços –que são majoritários no PIB amazonense – são relevantes para a economia regional. Ela ressalta, contudo, que a importância do PIM é inegável e que ainda há “inúmeros desafios” na busca da retomada.

“Apesar de pontualmente tímidos, os números retratam a resiliência da economia amazonense. Comércio e serviços, que geram emprego e renda e contribuem para a circulação de moeda, ficaram no azul e possibilitaram a abertura de novas vagas. O PIM, que ajuda a colocar o Amazonas na vanguarda tecnológica da Indústria 4.0, oscilou em 2022. No geral, a performance foi positiva, embora o ano tenha sido marcado por desafios e instabilidades, assim como embates entre o governo federal e a ZFM. Por isso, 2023 será mais um ano de desafios, mas também de oportunidades, com a indústria ajudando na nossa recuperação econômica”, concluiu.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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