Impulsionado pelo declínio das estatísticas da Covid-19 –a despeito de repiques pontuais nas taxas de contágio –e pelo fim das restrições a atividades presenciais, o setor de serviços foi o que mais cresceu em 2022. Dessa forma, consolidou sua participação majoritária na economia, respondendo pela maior parte da oferta de postos de trabalho e arrecadação tributária. O crescimento, no entanto, não veio uniforme em todas as suas atividades, que não deixaram de sofrer com as altas da inflação e dos juros, que começam a pesar mais sobre os resultados do que o bônus do arrefecimento da pandemia.
O presidente da Abrasel-AM (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes – Seção Amazonas), Rodrigo Zamperlini, diz que os serviços de alimentação fora do lar passaram por um processo de recuperação econômica no ano passado, apesar do achatamento das margens de lucro das empresas pela inflação. E mesmo diante da dificuldade de repassar essa diferença de preços aos cardápios e ao bolso do consumidor.
“Ainda assim, observamos essa virada de página, com a ocupação plena dos salões dos estabelecimentos. E, apesar da estabilização do delivery, essa modalidade se consolidou com força para complementaridade, ou mesmo atividade principal, de muitas empresas. A retomada dos empregos e também, por incrível que possa parecer, a dificuldade de encontrar mão de obra para preencher parte dessa nova demanda que veio com o reaquecimento, também foram características marcantes deste ano, para a atividade”, ponderou.
O presidente da Abrasel-AM destaca como uma das principais vitórias do ano para as empresas a implementação do Perse (Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos), pela lei 14.148. “Isso significou redução de multas e juros, assim como ampliação de prazo de pagamento para empresas que tinham débitos tributários. E também isenção de quatro tributos, por um período de cinco anos, para empresas que se enquadram dentro desse programa, o que significará um ótimo fôlego para o nosso subsetor, que foi um dos mais afetados [pelos impactos da pandemia]”, enfatizou.
“Novo ciclo”
Outro ponto forte do ano citado pelo dirigente, desta vez do ponto de vista institucional, foi o início de um “novo ciclo” dentro da Abrasel, tanto no Amazonas, quanto no restante do país. “Tivemos a elaboração do Abrametas, que consiste em um plano de ações voltadas para crescimento e desenvolvimento. O desdobramento consiste em cinco metas principais, como o crescimento do número de associados, maior presença nos municípios do interior, estabilidade financeira, e voz ativa no aumento de nossa representatividade institucional”, enfatizou.
A maior derrota para o segmento, conforme Zamperlini, veio com a aprovação do projeto de lei de aumento do ICMS (Imposto sobre Mercadorias e Serviços), aprovado pela Aleam (Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas), em meados de dezembro. “Essa é uma medida que vai impactar diretamente as atividades produtivas e comerciais, mas principalmente os bolsos dos consumidores menos favorecidos”, desabafou.
A entidade, no entanto, mantém boas expectativas para o Ano Novo. Um dos projetos da Abrasel-AM para 2023 listados por Zamperlini é a realização de um evento gastronômico local, além dos que já integram o calendário regional. “Também teremos a quinta edição da Figa (Feira Internacional de Gastronomia Amazônica), no final de setembro. Temos também um projeto de recolhimento de resíduos e reciclagem, em parceria com uma empresa dessa modalidade. E vamos iniciar um projeto para reconhecer Manaus como uma das cidades criativas da gastronomia da Unesco no Brasil, ao lado das quatro que já têm esse título, que são Belém, Belo Horizonte, Florianópolis e Paraty”, listou.
Pandemia e aprendizado
O presidente da ABIH-AM (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis – seção Amazonas), Roberto Bulbol, considera que 2022 foi mais um ano atípico para a atividade. “Foi um ano muito difícil, embora tenhamos registrado uma retomada nos últimos meses. Estimamos que 2022 fechou com uma média de 35% a 39% na taxa de ocupação dos hotéis do Amazonas. É claro que tivemos meses com maior ocupação, mas a retomada mesmo só aconteceu depois de maio e veio crescendo. Infelizmente, os dois primeiros trimestres não foram bons. Esse prejuízo, não vamos mais poder recuperar e o jeito é pensar daqui para frente”, lamentou.
No entendimento do dirigente, para as empresas, 2022 foi mais um ano de aprendizado de convivência com as mudanças que vieram no rastro da pandemia, trazendo também “muito prejuízo”. Ele destaca que o subsetor hoteleiro e o turismo enfrentaram e enfrentam mais dificuldades quando comparados a outros setores econômicos uma vez que trabalham com uma “mercadoria muito perecível”, pois um dia de baixa ocupação não pode ser recuperado.


“É diferente do comércio que, se não vender hoje, vende amanhã. Tivemos de fazer um recomeço, pois perdemos todos os voos que tínhamos, assim com a frequência de clientes e espaços. Já a retomada dos eventos está vindo em um nível muito baixo, porque hoje você faz tudo por lives na internet, que é muito mais fácil e barato. Não é mais como antes, quando tínhamos aqueles grandes encontros e reuniões presencias, promovidos por empresas que traziam seus funcionários para participar”, comparou.
Gargalo nas distâncias
O principal anseio dos segmentos de turismo e hotelaria, segundo o presidente da ABIH-AM, é que este ano e os próximos sejam marcados por um aumento na oferta de passagens ligando o Amazonas ao restante do país, por meio da entrada de novas companhias aéreas, para encurtar espaços e trazer mais turistas ao Estado. Independentemente disso, o dirigente garante que, assim como ocorrido nos anos iniciais da pandemia, os segmentos vão ter de continuar se reinventando para sobreviver.
“Temos de pensar em ser mais versáteis para fazer todo esse segmento funcionar. Perdemos o mercado e estamos até hoje tentando recuperar, de outras maneiras, criando outras atividades, e oferecendo outros tipos de chamadas e promoções. A nossa principal dificuldade continua sendo o acesso, pois nosso isolamento geográfico ainda é muito grande. Só se chega aqui por via aérea, pois não temos estradas e nossas distâncias são muito longas para a navegação fluvial. Isso nos preocupa muito”, apontou.
Indagado sobre 2023, Bulbol assinala que os riscos e oportunidades são “grandes”, diante da mudança de governos em Brasília. “Estamos em uma insegurança política total. Os grandes investidores não vão aportar o seu dinheiro agora. Está havendo uma desaceleração lenta, embora não total, até termos um equilíbrio político neste país. Há perspectivas, mas os clientes e o mercado estão muito cautelosos, pelo menos para estes primeiros 90 dias. Esperamos que tudo retome, pois o Brasil não pode parar e tem de continuar crescendo. E o Amazonas precisa continuar gerando riquezas”, encerrou.







