A Conab começou o ano revisando para cima suas projeções para a safra de grãos 2022/2023 do Amazonas. Mas, a projeção ainda é de queda. A expectativa agora é que a produção desabe 18% em relação à safra de 2021/2022, passando de 47.800 para 39.200 toneladas. Em dezembro, a estimativa da Companhia de Abastecimento Nacional era que tombo na produção chegasse a 23,4%. Entre as quatro culturas cultivadas no Amazonas, apenas a soja aparece com perspectivas de crescimento, em detrimento do arroz, milho e feijão. O novo prognóstico também corrigiu para baixo o índice de decréscimo na área de plantio e elevou o índice de produtividade no Estado.
Divulgado na semana passada, o quarto levantamento para a atual safra confirma que o Amazonas ainda é um ponto fora da curva, quando comparado às projeções para todo o Brasil (+14,4% e 310,95 milhões) e para região Norte (+7% e 15,31 milhões) – sendo que esta ganhou reforço entre um levantamento e outro. Juntamente com Rio de Janeiro (-3,2%) e Paraíba (-2,5%), aparece como uma das três unidades federativas produtoras com números negativos, entre as 26 sondadas pela estatal. Em contraste, a maior taxa de expansão ainda vem do Rio Grande do Sul (+49,1%).
Segundo a Conab, os produtores privados estão reforçando a aposta na soja no Sul do Estado. A cultura foi confirmada com alta de 46,7%, somando 19.800 toneladas na atual safra. O milho, que já havia trocado de sinal no segundo levantamento, já aparece com recuo menor do que os 59,7% anteriormente projetados, embora este ainda seja significativo. A expectativa é que o tombo seja de 48,7% (12.200 toneladas), na comparação com 2021/2022 (23.800), sendo este o pior dado da lista.
O arroz sequeiro, que já havia enfrentado dois anos consecutivos de encolhimento na produção, seguiu com a mesma projeção. A cultura, que se concentra especialmente em municípios do rio Juruá, como Eirunepé e Envira, tem estimativa de queda de 37% no Amazonas, com 5.100 toneladas (2022/2023) contra 8.100 toneladas (2021/2022). O mesmo se deu com o feijão caupi, que se destaca por vir exclusivamente de agricultura familiar, sendo cultivado principalmente em Lábrea e Boca do Acre. A Conab ainda avalia que a estabilidade das últimas quatro safras deve dar lugar a uma queda de 12,5%, ao passar de 2.400 para 2.100 toneladas.
Área e produtividade
O levantamento informa que o Estado deve usar uma área menor para o cultivo de grãos, até setembro de 2023. A projeção foi corrigida para cima, ao passar dos 14.600 hectares anteriormente estimados para 15.300. A comparação com a safra anterior (19.600), entretanto, aponta retração de 21,9%. Milho (-52,6% e 4.500 hectares), arroz (-34,5% e 1.900 ha) e feijão (-14,8% e 2.300 ha) puxam os números para baixo. O único dado positivo vem da soja (6.600 ha), que comparece com mesma taxa de crescimento assinalada pela produção (+46,7%).
Em todo o país, apenas Santa Catarina (-2,4%) acompanhou o Amazonas com estimativa de projeção de queda para a área de plantio. O melhor desempenho da lista ainda vem de Roraima (+20%). A Conab aguarda incremento de 3,4% para a média nacional, com a área semeada no país devendo chegar a 77,05 milhões de hectares, contra os 74,51 milhões de hectares cultivados em 2021/2022. Para o conjunto da região Norte, a elevação já foi corrigida para 8,4%, elevando a área disponível para atividade para 4,51 milhões de hectares.
Já a produtividade sinaliza sair do incremento de 2,8% calculado em dezembro, para uma expansão de 5,1%, entre as safras 2021/2022 (2.439 quilogramas por hectare) e 2022/2023 (2.562 kg/ha). Milho (+8,1% e 2.703 kg/ha) e feijão (+0,6% e 905 kg/ha) aparecem com dados positivos, em detrimento do empate da soja (3.000 kg/ha) e do tombo no arroz (-4% e 2.689 kg/ha). As médias do Brasil (+10,7%) e da região Norte (-1,3%) ainda aparecem com sinais divergentes, em uma lista que incluiu cinco quedas e sete resultados superiores aos do Amazonas.
Clima e mercado
O estudo informa que a soja também é destaque nacional, com estimativa de aumento de 21,6% (27,2 milhões de toneladas), assim como o milho (+10,5% e 11,9 milhões de toneladas). “Com praticamente a conclusão da semeadura das culturas de primeira safra em dezembro, as atenções se voltam para a evolução das lavouras e os efeitos do comportamento climático, fator preponderante para a definição da produtividade”, completou.
A estatal assinala que, em dezembro, os maiores acumulados de chuva foram registrados em grande parte do país, causados pela atuação da Zona de Convergência do Atlântico Sul. “Na Região Norte, foram observados acumulados superiores a 200 mm, chegando a mais de 300 mm no Sudeste do Amazonas, mantendo os níveis de água no solo elevados. Já em áreas de Roraima, os volumes foram inferiores a 150 mm, entretanto, mantiveram-se bons níveis de armazenamento do solo”, ponderou o texto, acrescentando que o Inmet indica “previsões de chuva dentro ou acima da média climatológica” na região.
A Companhia de Abastecimento Nacional avalia que o prognóstico negativo do arroz para o Amazonas reflete a estimativa de “significativa redução” de área “em meio à menor atratividade financeira do setor orizícola em relação às culturas concorrentes por área, como a soja e o milho”. A estimativa é que o consumo nacional deve declinar para 10,6 milhões, em relação à safra anterior. No caso da soja, “a boa distribuição de chuvas, até o momento, tem sido favorável ao desenvolvimento das lavouras, sendo relatado apenas ataques pontuais de lagarta nas folhas, prontamente controlados”. A Conab não entrou em detalhes sobre o desempenho das culturas do milho e do feijão no Amazonas.
Cheias e custos
Em entrevistas recentes à reportagem do Jornal do Commercio, o presidente da Faea (Federação da Agricultura e Pecuária do Amazonas), Muni Lourenço, assinalou que a produção de grãos ainda enfrenta gargalos na regularização fundiária e acesso ao licenciamento ambiental, mas ressaltou que o maior entrave vem das cheias e vazantes cada vez mais rigorosas. E acrescentou que 2023 ainda sinaliza incertezas. “A atividade enfrenta aumento nos custos de produção. Principalmente em decorrência do desarranjo nas cadeias de produção pela pandemia e a guerra da Rússia com a Ucrânia”, frisou.
O titular da Sepror (Secretaria de Produção Rural do Amazonas), Petrúcio Magalhães Júnior, concorda que as enchentes atípicas prejudicaram a safra, assim como os aumentos dos custos dos insumos agrícolas, fertilizantes e combustível, que pesam mais em sistemas de produção de base familiar. Mas, ressalvou que o foco do novo governo federal no retorno dos estoques reguladores deve incentivar a safra de grãos no Estado, com a distribuição de sementes. “O plano safra 2023/2024 será lançado no primeiro trimestre 2023 e deve indicar novas políticas públicas para a produção”, encerrou.






