Pesquisa revela a vida de mulheres venezuelanas em Manaus

Em: 14 de março de 2023

O Brasil recebeu pelo menos 700 mil venezuelanos que deixaram seu país em busca de melhores condições de vida. Eles vieram assolados pela fome, pela pobreza extrema, enfim praticamente abandonados pelo governo venezuelano, ainda sob o comando do presidente Nicolás Maduro, herdeiro do legado de Hugo Chaves, já falecido.

Milhares de migrantes da Venezuela chegaram principalmente via Pacaraima, em Roraima, na divisa com o país vizinho. Levantando dados de 2018 a 2021, ontem foi lançada em Manaus a pesquisa da Fiocruz, que é um diagnóstico completo sobre a situação das mulheres venezuelanas, com todas as dificuldades básicas, o acirrado desemprego e o choque cultural. E ainda toda sorte de agruras que elas enfrentaram ao chegar a uma nação diferente, muitas vezes sem as peculiaridades de sua terra natal.

O lançamento do estudo aconteceu na Fiocruz Manaus, na segunda-feira (13).  Como parte da programação, paralelamente será lançado, hoje (14), o documentário ‘Seguindo adiante’, às 18h30, no Teatro Borges Medeiros, enfocando o mesmo tema. A produção é um curta-metragem de 26 minutos, coordenado por Bruna Curcio, paulista e radicada na capital do Amazonas.

O estudo da Fiocruz tem como coordenadora Maria do Carmo Leal, também conhecida como Duca. O levantamento entrevistou 750 mulheres em Manaus e outras 1.250 em Boa Vista (RR), onde a maior parte delas ficou. Bem produzida, colorida, com arrojado acabamento, a obra é ilustrada com imagens e outros recursos, tornando mais confortável a consulta, segundo Duca.

Duca e Bruna participaram do streaming ‘JC às 15h’, sob a mediação dos jornalistas Caubi Cerquinho e Fred Novaes, diretor de redação do Jornal do Commercio, ocasião em que falaram sobre o que consideram um desafio levantar dados concisos, profundos, com depoimentos, imagens singulares, impactantes e vastas, envolvendo milhares de mulheres migrantes, com todas as peculiaridades de um momento histórico sobre imigrantes no Brasil.

O grande diferencial é que, pela primeira vez, foi registrada a migração de pessoas de um país da América do Sul para outro do mesmo continente. “São pessoas pobres, atingidas por todo tipo de dificuldades, que que buscaram esperanças de sobreviver com mais condições no Brasil, um país também muito pobre”, disse Duca. “Em geral, os migrantes vão sempre em direção ao norte, onde estão os países ricos”, acrescenta.

Segundo Duca, o governo brasileiro desenvolveu um mecanismo eficiente para receber os venezuelanos. A Operação Acolhida garantiu abrigos, refeições, com auxílios de aportes financeiros via Nações Unidas.

Na área de saúde, o Brasil se destacou. Porém, o País não deu a mesma contrapartida em termos de oportunidades de empregos a um contingente populacional tão imenso, agravando a situação do desemprego.

Hoje, milhares de brasileiros continuam desempregados. E os migrantes venezuelanos só vieram engrossar mais ainda essas fileiras de trabalhadores que passaram a sobreviver praticamente da informalidade.

Área de saúde

Se por um lado conseguir um emprego ainda continua difícil para os venezuelanos, a assistência médica foi positiva. “O SUS proporcionou a essas pessoas, principalmente às mulheres, o atendimento que elas não tinham em seu país de origem. E isso de forma gratuita, sem nenhum custo, como usufruem hoje os brasileiros”, diz Duca, destacando os levantamentos dos dados.

Segundo as duas pesquisadoras, as duas produções serão lançadas também em Brasília (a pesquisa na Fiocruz Brasília) e o documentário no Centro Cultural da capital federal, na próxima quinta-feira, seguido de debates e opiniões sobre os assuntos enfocados com a presença de autoridades e expertises do segmento. Portanto, seguirá a mesma programação de Manaus.

A pesquisa da Fiocruz Manaus e o documentário ‘Seguindo adiante’ são financiados pelo Reino Unido por meio da Universidade Wolverhampton e Southampton University, atuando ainda na América Central.

A parte brasileira do estudo da Fiocruz Manaus tem participação ainda da Universidade Federal do Maranhão. Os dados levantados são singulares. Em média, as mulheres venezuelanas têm de seis a oito filhos, ao contrário das brasileiras. Mas enfrentam as mesmas dificuldades dos contingentes populacionais mais pobres da região – não têm contraceptivos, há baixa escolaridade, principalmente as indígenas, e a pobreza menstrual (como chamam a carência de absorventes) também está presente.

O governo Lula aprovou um projeto decretando que todas as mulheres (inclusive as migrantes) terão acesso a absorventes na rede pública de forma gratuita.

“Essas mulheres exercem a função de cuidadoras dos filhos e dos idosos, de amealhar recursos para enviar a seus parentes em seu país. E ainda enfrentam o choque cultural em relação à alimentação. Nos abrigos onde estão, recebem a marmita à base de arroz e feijão, que não fazem parte de sua dieta básica”, diz Bruna Curcio.

Jamais em tempo algum o Brasil montou uma infraestrutura tão sólida para receber migrantes como recebeu os venezuelanos, ressalta Duca. “O fluxo de pessoas que chegavam diariamente era muito grande. Além do governo brasileiro, entidades da sociedade civil, ONGs, também se mobilizaram em dar essa assistência em relação a outros migrantes”, afirma.

Duca diz que a pesquisa retrata de forma abrangente a situação das mulheres venezuelanas.  “Nosso objetivo é chamar a atenção para as necessidades desses migrantes, também para as políticas públicas que devem ser desenvolvidas”, destaca ela.

Algo compartilhado por Bruna, que não esconde a emoção, a exemplo de Duda, ao falar de uma produção tão desafiadora.  “É bom para conhecer mais sobre a  equidade de gênero. Isso acontece no mundo todo, é importante para todas as mulheres”, diz.

De acordo com Bruna, o documentário já foi exibido para 100 pessoas na Southampton University, mas por enquanto não está disponível em outras plataformas que não exclusivamente durante lançamentos nos eventos programados. “Isso só acontecerá em breve. Ainda não temos uma data definida. Por enquanto, valorizamos o ineditismo da produção”, explicou Bruna.

Tanto Duda como Bruna disseram ter aumentado o sentimento de latinidade ao investigar a situação das venezuelanas que, em geral, mostram os mesmos problemas das mulheres brasileiras mais pobres.

“Vejo que somos países irmãos e que devemos lutar juntos, tentando resolver tantos problemas que são compartilhados”, avalia Duda.

Para Bruna, o documentário só reforçou a sua visão de mundo sobre os povos latinos. “Eles enfrentam os mesmos problemas. Como nós, também lutam por melhores condições de vida. Só muda o idioma”, diz.

Marcelo Peres

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