As famílias de Manaus aumentaram sua propensão a gastos pelo nono mês seguido, em março. A pesquisa da CNC (Confederação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) para o ICF (Intenção de Consumo das Famílias) confirmou expansão em todas as comparações. Houve nova melhora na percepção sobre renda, emprego e acesso ao crédito, embora o manauense tenha reduzido ainda mais sua disposição de adquirir bens duráveis. Assim como ocorrido na média nacional, a capital amazonense diminuiu seu ritmo de progressão, além de apresentar maior distância do patamar pré-pandemia.
O ICF de Manaus marcou 71,2 pontos, superando em 4,8% o dado de fevereiro de 2023 (68 pontos), além de ficar 91,91% acima da marca de março do ano passado (37,1 pontos). O indicador ainda não conseguiu sair da zona de insatisfação (que vai de 0 a 100 pontos), onde permanece há 35 meses consecutivos, em nível muito aquém ao de março de 2020 (105,2 pontos) – mês inicial da crise da covid-19. A confiança continua restrita aos consumidores de renda acima dos dez salários mínimos (125,6 pontos) em detrimento dos demais (66 pontos).
Manaus voltou a ter desempenho proporcionalmente mais forte do que o da média brasileira, que já se aproxima da margem de confiança. Mas, em ambos os casos, a taxa de evolução vem caindo mês a mês. Em todo o Brasil, a expansão foi de 0,8%, atingindo 96,7 pontos e o maior nível desde o começo da crise sanitária no país. Também foi o 14º mês consecutivo de crescimento. Em relação a março do ano passado, o incremento foi de 23,7%, renovando o recorde histórico de taxas positivas, neste tipo de comparação.
O otimismo dos consumidores ainda contrasta com os números locais do Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), medida pela mesma CNC. As compras seguem embarreiradas pelo comprometimento da renda das famílias com dívidas antigas e crescentes. Ao menos 88,4% (576.674) das famílias da capital estão endividadas e 49,5% (323.215) estão inadimplentes. Em sintonia, o ceticismo verificado pelo ICEC (Índice de Confiança do Empresário Comercial) emendou seu quarto mês seguido, embora o indicador – que também tem linha de corte nos 100 pontos – ainda sem mantenha bem acima da margem de confiança.
Renda e emprego
Assim como em fevereiro, o ICF de Manaus avançou em seis de seus sete componentes, na variação mensal, embora todos sigam no nível de insatisfação. As melhores taxas vieram das perspectivas de consumo (+11,2%) e profissional (+10,9%), assim como das avaliações sobre renda (+9,5%) e consumo atual (+8,8%). Já a percepção sobre emprego atual (+3,4%) avançou em bem ritmo menor, o que pode ser um sinal de alerta. O único dado negativo veio do novamente do “momento para duráveis” (-8,9%), embora a visão sobre as condições de acesso ao crédito (+5,2%) tenha evoluído novamente.
O entendimento sobre o nível de consumo atual ainda é o principal fator que puxa a média de Manaus para baixo. Mesmo com o décimo aumento consecutivo, o subindicador ainda aparece com o pior escore da lista (41,1 pontos). Nada menos do que 73,4% dizem que estão indo menos às compras do que no ano passado, sendo que a restrição cai pela metade entre os que recebem acima de dez mínimos (35,4%). Uma faixa minoritária (14,5%) – e crescente – assinala que está comprando mais e 10,8% apontaram empate.
A pontuação da perspectiva de consumo (60,8 pontos) não é muito melhor, assim como a avaliação sobre a renda familiar atual (60,2 pontos), embora ambas tenham melhorado. Para 60,6% das famílias de Manaus, as compras dos próximos meses devem vir menores que no ano passado. Outros 21,4% arriscam dizer que será maior, ao passo que 15,9% confirmam estagnação. Em paralelo, 56% dizem que a renda familiar já piorou em relação ao cenário de econômico de 12 meses atrás. Só 16,2% viram melhora e os demais 27,1% consideram que está igual.
A visão sobre a situação atual do emprego (80,4 pontos) também voltou a crescer, embora 36,7% ainda se digam “menos seguros” em relação à ocupação. Outros 26% não veem mudanças e uma faixa crescente de 19,8% se diz “mais segura”, enquanto a cota de desempregados saiu da estabilidade e chegou a 17,3%. A melhor pontuação vem da perspectiva profissional (91,3 pontos). A despeito de 50,4% ainda não verem melhora nos próximos seis meses, a fatia dos otimistas (41,7%) também voltou a subir e os indecisos seguem em 7,9%. Em ambos os casos, as famílias que ganham mais estão cerca de duas vezes mais confiantes do que as que recebem menos.
Em termos de situação atual do crédito (81,9 pontos), 49,7% consideram que o acesso ainda está mais difícil do que no ano passado. Mas, praticamente um terço (31,9%) já apontam que ficou mais fácil e 16,2% não veem diferença. Em sintonia, o “momento de aquisição de bens duráveis” (79,9 pontos) mostra que a parcela que de consumidores que consideram que esta não é a melhor hora para isso aumentou para 56,9%. A fatia dos que têm opinião contrária foi reduzida a 36,8%. As dificuldades e cautelas ainda predominam entre as famílias de menor renda, mas a diferença diminuiu.
Crise e reorganização
O presidente em exercício da Fecomércio-AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, avalia que o setor já vem de um 2022 “trágico” do ponto de vista econômico, e que a progressão na confiança foi expressiva apenas para as famílias mais abastadas. “No cômputo geral, o crescimento foi muito pequeno. Em termos de empregos, o mercado está contido, e temos desabastecimento de mercadorias, além de juros muito altos. Temos, naturalmente, expectativas de que isso vai passar, na medida em que o governo sinalizar com novas medidas econômicas. Mas, estamos em um impasse e muitas coisas ainda dependem de definição”, ponderou.
O texto distribuído pela assessoria de imprensa da CNC salienta que a perspectiva de consumo (103,6 pontos) alcançou o maior crescimento mensal (+3,2%) pelo terceiro mês consecutivo. E acrescenta que, desde outubro de 2022, o subíndice tem avançado mais que o nível de consumo atual. Para o presidente da entidade, José Roberto Tadros, os números revelam que as famílias brasileiras anseiam por condições de consumo melhores. “Essa expectativa é muito positiva e reflexo de uma inflação mais controlada. Mas mostra também um desafio para a renda imediata”, ressaltou.
A economista responsável pela ICF, Izis Ferreira, observou que 37% das famílias consideram que o acesso ao crédito está mais difícil e que três em cada quatro consumidores brasileiros consideram que o momento não é favorável para aquisição de bens duráveis. “O crédito está mais caro e seleto, principalmente para os consumidores de menor renda, e tem levado cada vez mais famílias a repensar compras de longo prazo”, finalizou.






