Os deficientes auditivos ainda esperam maior inclusão, porém ainda está longe de a sociedade organizada dar a contrapartida à altura do almejado por eles. Enfrentam toda sorte de dificuldades. E nem sempre têm um intérprete para tradução simultânea em eventos, apesar de a legislação exigir um profissional nesses casos.
Hoje, eles são pelo menos 12 mil pessoas no Amazonas, segundo os últimos números oficiais (ano 2014). Mas podem já exceder os 20 mil. O assunto é o tema do podcast do streaming ‘JC às 15h’, comandado pelo jornalista Fred Novaes, diretor de redação do Jornal do Commercio.
Desta vez, a entrevistada é a fisioterapeuta bilíngue (português e Libras) Ana Francisca da Silva, professora da língua de sinais. Na Ufam (Universidade Federal do Amazonas), ela teve uma atuação incomum. Enquanto atuava como professora substituta em outro curso na instituição, era aluna de Libras.
Ana conta que decidiu aprender Libras quando fazia atendimento em uma unidade de saúde em Manaus. Uma senhora esperava ser atendida. Estava na fila. Chamaram-na para a consulta. Mas ela sequer esboçou qualquer reação. E permaneceu ali, parada, à espera de ir ao médico.
Então, a fisioterapeuta decidiu abordá-la. “Fiz um cumprimento. Ela olhou. Gesticulou que não ouvia. Sinalizou que esperava atendimento. Aí me dei conta o quanto essas pessoas precisam de uma atenção especial por parte do poder público e da sociedade em geral”, afirmou. “A partir daí, decidi aprender a língua brasileira de sinais, uma forma de contribuir para melhorar as condições de vida dos surdos”, acrescentou. “Foi um choque de realidade para mim”, acrescenta.
Segundo a fisioterapeuta e também professora de Libras, a rede pública de ensino (tanto municipal quanto estadual) já possui algumas unidades especializadas no ensino da língua de sinais em Manaus. Deficientes auditivos ou não podem participar das aulas, explicou ela.
O curso de Libras da Ufam é de quatro anos, formando somente professores. O acesso é pelo Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). E a prova é feita totalmente pela língua sinalizada.
“É uma forma de permitir uma maior inclusão do deficiente auditivo, que ainda enfrenta muitas barreiras. Em geral, eles querem se comunicar e esperam que as pessoas também aprendam a língua”, diz Ana. “A reitoria da Ufam abraçou completamente essa bandeira”, ressalta ela.
Em 2014, a Ufam formou a primeira turma de licenciatura em Libras. Mas não existe ainda um quadro de profissionais suficientes para atender à demanda, que cresce a cada ano, segundo a professora.
Por enquanto, conta Ana Silva, a Ufam só forma professores que atuam nas redes públicas de ensino, ministrando aulas para quadro de alunos mistos (surdos e não surdos). A única instituição que forma bacharelado em Libras é o Ifam (Instituto Federal do Amazonas).
Tradutores
Para ser um tradutor simultâneo na língua de sinais, precisa aprimorar mais ainda as técnicas da linguagem. Nem todos possuem a fluência exigida para fazer a tradução em eventos, segundo Ana.
Hoje, o mercado local ainda é muito restrito. Apenas oito tradutores estão disponíveis que, em geral, são muito requisitados por empresas para atuar nas mais diversas produções, arrebatando grandes espectadores ou não, como determina a atual lei brasileira que disciplina a atuação do profissional e a obrigatoriedade de quem requisita os serviços.
Portanto, são várias etapas a percorrer até, realmente, chegar ao ápice de ser um tradutor com uma fluência veloz e eficiente, traduzindo fielmente as palavras faladas para esse tipo de público.
“As pessoas devem entender que Libras também é uma língua oficial do Brasil, tal qual o idioma português. Nas escolas, os deficientes auditivos aprendem a falar o português e todas as disciplinas (até matemática) referentes aos atuais currículos escolares”, explica a fisioterapeuta.
Ana Silva disse que descobriu um novo mundo ao aprender a língua de sinais. “Descobri um outro universo com a Libras. Fui buscar curso, mas não havia praticamente nada no mercado. Encontrei em uma escola particular. E daí, portanto, investi mais na especialização”, conta.
De acordo com Ana, o seu sonho de poder ajudar deficientes auditivos a ter uma maior compreensão do mundo das pessoas tidas “como normais”, em uma sociedade ainda não tão inclusiva, abriu caminhos para amplas realizações. Foi uma imersão jamais esperada, destaca ela.
“Então, achava que eu precisava encontrar alguma forma de ajudá-los. Via que essas pessoas não tinham condições de se desenvolver profissionalmente com tantas barreiras, enfim, em qualquer área do mercado”, disse. “Quando cheguei à Ufam, vi que eles têm uma cultura visual muito acurada. Conseguem descrever minuciosamente qualquer ambiente com detalhes”, afirma.
Base de qualquer cultura
Ana destaca, ainda, que a base de qualquer cultura é a linguagem. “É um mundo em que mergulhei na tentativa de melhorar as condições de vida dos deficientes auditivos. E, hoje, avançamos muito, mas precisamos evoluir ainda mais”, diz.
A formação em Libras ainda está engatinhando no Amazonas, ao contrário de outras regiões do Brasil, onde as atividades já alcançaram um maior patamar. Agora, a luta é aprimorar mais os trabalhos. E uma estratégia é permitir o intercâmbio com profissionais de outros Estados. “A demanda ainda é maior que a oferta”, afirma Ana. “Eu me identifico como professora de Libras, não sou intérprete, o que exige ainda mais aprimoramento”, afirma ela.
Os tradutores de Libras começaram a ter uma maior visibilidade no governo central anterior, quando o então presidente Jair Bolsonaro (PL) utilizava em larga escala esses profissionais durante as suas lives transmitidas para a população, algo que pode ser considerado como um trampolim para priorizar o ensino da língua, considerada hoje a segunda oficial do Brasil.
“Precisamos dar mais valor e respeito à língua de sinais. É um universo que me encanta e pode ajudar muita gente. Essas pessoas precisam ser mais notadas, ter maior inclusão”, afirma ela. “Eles ainda se sentem muito excluídos no viés da saúde, onde não existe ninguém que saiba falar a língua nas unidades médicas”, diz. “Só há mediadores, não fluentes em Libras, o que gera muitas dificuldades”, afirma.







