Confiança do Empresário do Comércio de Manaus segue em queda

Em: 10 de maio de 2023

O otimismo dos comerciantes de Manaus desabou em abril, sob o peso de vendas oscilantes, reposição de carga tributária, crise no crédito e incertezas generalizadas. O recuo foi puxado pela percepção do momento atual, mas houve piora também nas expectativas e nas intenções de contratar e investir – principalmente nas empresas com até 50 trabalhadores e que vendem bens duráveis. A cidade seguiu na contramão da média nacional, que retomou alguma confiança, após a queda no ritmo da inflação. É o que revela o ICEI (Índice de Confiança do Empresário do Comércio), levantado pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). 

Embora ainda esteja no patamar de confiança, o indicador de Manaus chegou ao nível mais baixo desde julho de 2021 A cidade aparece com 111 pontos na pesquisa, sendo que valores acima de 100 pontos indicam satisfação. O resultado configura uma queda de 7,88% em relação a março de 2023 (120,5 pontos), a maior na recente série de cinco recuos consecutivos. A comparação com o mesmo mês do ano passado (125,6 pontos) confirmou um tombo de 11,62%. Em contraste, a média brasileira (111,3 pontos) subiu 2,5% na variação mensal, interrompendo uma série de quatro retrações. Mas, ficou 5,7% aquém do patamar de 12 meses atrás.

O ICEC contrasta com os dados do indicador de ICF (Intenção de Consumo das Famílias) em Manaus, também medido pela CNC. A sondagem confirmou seu décimo mês de aumento mensal, alavancado por uma nova melhora nas percepções sobre renda e emprego, e também nas perspectivas profissional e de compras, embora o mesmo não possa ser dito do acesso ao crédito e a disposição de adquirir bens duráveis. Já a Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor) confirma que os níveis de comprometimento de renda e inadimplência dos consumidores da capital amazonense voltou a escalar no mesmo período, puxado por dívidas em cartões de crédito e carnês. 

Empregos e investimentos

Desta vez, todos os nove subcomponentes do indicador de confiança do comerciante sofreram derretimento mensal em Manaus, sendo que cinco deles já estão no nível de insatisfação. As pioras mais acentuadas vieram das avaliações das condições atuais do setor (-16,6% e 91,3 pontos), da economia brasileira (-14,1% e 72,4 pontos) e da empresa (-11,6% e 111,7 pontos). As expectativas para os três afundou, em média, 5% (138,9 pontos). As intenções de investir (-8,2% e 94,1 pontos) e contratar (-4,1% e 121,1 pontos), assim como a satisfação com os estoques (-5,2% e 92,3 pontos) não mostraram números melhores.

Diminuiu ainda mais o percentual de varejistas locais que consideram que a situação atual da economia brasileira “melhorou um pouco” (28,9%) e, principalmente, que “melhorou muito” (7,4%). Em contraste, as proporções de empresários que consideram que “piorou um pouco” (28,8%) ou “piorou muito” (35%) subiram. As avaliações majoritárias sobre setor e empresa ainda são de melhora relativa (30,7% e 38,8%, respectivamente), mas também declinaram. Empresas com maiores contingentes de funcionários são as mais confiantes. 

Embora as expectativas tenham voltado a esfriar em abril, a avaliação predominante entre os comerciantes ainda é que a economia brasileira vai “melhorar muito” (34,7%) ou “melhorar um pouco” (31,8%), em detrimento da fatia ascendente dos que cravam que vai “piorar muito” (18,4%) ou “piorar um pouco” (15,1%). As avaliações que pesam mais para o setor e a empresa também são de progressos mais significativos (44,3% e 49,7%, na ordem). 

A parte majoritária dos lojistas ainda aponta que o quadro de funcionários deve “aumentar pouco” (46,4%). A parcela de comerciantes que diz que pode “reduzir um pouco” já chegou a 29,4%. Na sequência estão os que apontam que vai “aumentar muito” (18,5%) e “reduzir muito” (6%). Assim como no mês passado, a projeção predominante para investimentos é que será “um pouco maior” (42,4%), embora 26,6% considerem que será “um pouco menor”. Sobre os estoques, 62,7% já dizem que está “adequado”, em detrimento dos que informam que está acima (21,7%) ou abaixo (14%) do ideal.

“Momento difícil”

O presidente em exercício da Fecomercio-AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços de Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, avalia que os números refletem um cenário de difícil restabelecimento do consumo, já que as famílias seguem vitimadas por juros altos e aumentos nos níveis de inadimplência. O dirigente acrescenta também que, excluindo “algumas oscilações positivas para algum subsetor ou outro”, o comércio amazonense sofre dificuldades generalizadas e que só será possível dimensionar a situação do setor com o encerramento do “ciclo do Dia das Mães”. 

“Estamos atravessando um momento difícil. As vendas estão fracas a um ponto em que todos nós, do comércio, estamos cautelosos. Temos um grave problema de tratamento fiscal. Pagamos impostos antecipadamente, com valores agregados. Isso acaba sangrando e descapitalizando as empresas, que já não compram mais mercadorias de baixo giro. Ninguém mais vai armazenar produtos por um ou dois anos, se eles já vêm com 45 dias com a carga tributária completa. Isso está massacrando o comércio”, lamentou.

Menos inflação

Em texto da assessoria de imprensa da CNC, o presidente da entidade, José Roberto Tadros, aponta o IPCA como principal indutor da melhora da confiança no âmbito nacional. “A conjuntura mais propícia da inflação levou o comerciante a ter esperança na melhoria das transações comerciais e no começo da diminuição das taxas de juros no país”, apontou. “Além disso, a redução das taxas de juros estimula o investimento e o crescimento econômico, criando um ambiente mais favorável aos negócios”, emendou.

Já a economista responsável pela análise da pesquisa, Izis Ferreira, observa que a pesquisa aponta uma proporção maior de varejistas que apostam em vendas no curto prazo – às vésperas do Dia das Mães. E reforça que a edição mais recente do ICF também apresentou melhor percepção das famílias sobre o nível de consumo e a renda em todo o país. “Com o consumidor mais disposto a consumir, incluindo os de rendas média e baixa, o varejista se prepara para um segundo trimestre melhor em termos de vendas, momento do calendário que concentra Dia das Mães e Dia dos Namorados”, encerrou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
Pesquisar