Sem surpresas, o Copom resolveu, nesta quarta (21), continuar mantendo a Selic em 13,75% por ano. Como já é de costume, a decisão havia sido prevista pelo mercado financeiro. A despeito da pressão do governo, de políticos da base aliada, do setor produtivo, e também de muitos especialistas ouvidos, o colegiado do Comitê de Política Monetária decidiu segurar os juros básicos da economia pela sexta vez consecutiva, e novamente por unanimidade. Além disso, deixou de sinalizar que pode fazer alterações na taxa, no curto prazo.
Em seu comunicado, o Copom indicou que ainda existem riscos sobre a inflação, cujas expectativas permanecem “desancoradas”. Apontou que o cenário externo continua adverso, com eventuais pressões globais sobre os preços, além de obstáculos no ambiente político interno, com incertezas “residuais” sobre a votação do arcabouço fiscal. A autoridade monetária avalia ainda que há uma tendência de desaceleração do PIB no segundo semestre. E, diferentemente das últimas reuniões, foi retirada a frase que afirmava que o BC (Banco Central) poderia voltar a elevar os juros caso a inflação subisse. Mas, também não informou se nem quando pretende cortar a Selic.
“O comitê avalia que a conjuntura demanda paciência e serenidade na condução da política monetária e relembra que os passos futuros da política monetária dependerão da evolução da dinâmica inflacionária, em especial dos componentes mais sensíveis à política monetária e à atividade econômica, das expectativas de inflação, em particular as de maior prazo, de suas projeções de inflação, do hiato do produto e do balanço de riscos”, ressaltou a nota.
Com a decisão desta quarta (21), a taxa continua no maior nível desde janeiro de 2017. Essa foi a sexta vez seguida em que o BC não mexe na Selic, que permanece nesse nível desde agosto do ano passado. Entre março de 2021 e a agosto de 2022, a taxa saltou de 2% -o nível mais baixo desde 1986 –para o patamar atual, após 12 reajustes consecutivos, em meio a um ciclo inflacionário iniciado sob o impacto da alta dos preços de alimentos, de energia e de combustíveis. O Copom costuma se reunir a cada 45 dias para definir a Selic. Esta foi a quarta reunião deste ano e a próxima está marcada para os dias 1º e 2 de agosto.
“Contraponto delicado”
O presidente da Fieam e vice-presidente executivo da CNI, Antonio Silva, considerou que a decisão do Copom não foi a mais acertada e destacou que as indústrias, a depender do porte, estão sustentando taxas de juros de 20% a 30% ao ano. “Há outros mecanismos para conter a inflação. Além disso, já é observada uma desaceleração inflacionária. É preciso analisar outros fatores econômicos, ao ponderar sobre a taxa básica. A apresentação do arcabouço fiscal pelo governo e o crescimento do PIB acima do esperado pelo mercado são indicadores que denotam a tendência positiva econômica”, afiançou.
Em sintonia, o presidente do Sinduscon-AM, Frank Souza, ressalta que já havia até uma certa expectativa de que os juros baixassem, e também lamentou que isso não tenha ocorrido. “Quanto maior a taxa, menos investimento, menos produção, menos obras. Isso é básico. Não há, em meu entendimento, ambiente para que isso continue. Tivemos boas notícias no Minha Casa Minha Vida e, para coroar isso, seria ideal que a taxa baixasse. A manutenção é um contraponto delicado e ruim para o setor. Mas, acredito que há expectativa de redução na próxima reunião”, lamentou.
Por ocasião da solenidade de aniversário de 152 anos de aniversário da ACA (Associação Comercial do Amazonas), realizada na noite desta quarta (21), nenhuma liderança do comércio pode ser ouvida para esta reportagem, até o fechamento desta edição.
“Extrema cautela”
A ex-vice-presidente do Corecon-AM e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, concordou com a decisão do Copom, ao pontuar que o ambiente macroeconômico segue de instabilidade e sem base para um crescimento sustentável. A economista ressaltou que o caminho escolhido pela autoridade monetária reflete “extrema cautela” em relação à sua responsabilidade de manter a inflação sob controle. E acrescentou que, diante do comunicado, aguarda estabilidade para a Selic nas próximas duas reuniões do Comitê.
“A decisão está alinhada com o mercado, que ainda aguarda com serenidade os próximos passos em relação ao novo arcabouço fiscal e suas metas, bem como os andamentos da reforma Tributária”, justificou. “A autoridade monetária toma decisões acerca da Selic com base em análise técnica, não se deixando influenciar pela batalha política. Quando decidimos pela autonomia monetária era justamente para dissociar as decisões técnicas das promessas políticas”, emendou.
O ex-presidente do Corecon-AM, consultor empresarial e professor universitário, Francisco de Assis Mourão Júnior, mostra opinião diferente, ao frisar que a inflação estaria estabilizada, que o PIB apresenta crescimento, e que a conjuntura internacional sinaliza menor impacto econômico da guerra na Ucrânia. E acrescenta que as perspectivas de redução da Selic já apresentaram efeitos positivos no mesmo dia, com alta da bolsa e queda do dólar.
“As novas medidas do governo não estão surtindo efeito, e o próprio país está travando, justamente porque os juros estão altos. É uma queda de braço? Sim. Vai continuar essa briga entre o governo e o BC? Sim. Mas, temos de ver que, se os dados macroeconômicos apontam estabilidade, não há necessidade de se continuar com uma taxa tão alta”, pontuou. “Minha perspectiva é de uma probabilidade de a Selic começar a diminuir em agosto. Eu e o mercado esperamos isso, com bastante emoção”, asseverou.
Já o também consultor empresarial e professor universitário, Leonardo Marcelo Braule Pinto, considerou que a decisão já era esperada e apontou que as informações apresentadas para justificá-la são “consideráveis”. Mas, ressalvou que seria possível ao Copom reduzir juros e, com isso, fomentar o consumo e o desenvolvimento das micros e pequenas empresas. “Há espaço para um estímulo keynesiano para gerar emprego, renda e crédito. Entretanto, manter os juros constantes não é o pior dos cenários. A decisão é um pouco política, além de técnica. Mas, não deixa de ser assertiva. Nas próximas reuniões, há de se esperar medidas mais positivas na diminuição de juros”, concluiu.







