Fumaça e clima impactaram vendas do comércio presencial de Manaus

Em: 17 de outubro de 2023
Fumaça toma conta de Manaus na última semana

O comércio de Manaus ainda não fechou o balanço do Dia das Crianças, mas calcula que a piora do clima e das condições atmosféricas reduziu o movimento das lojas de rua. Diante da pesada fumaça que tomou conta da cidade, boa parte da clientela preferiu não sair de casa ou, na melhor das hipóteses, optou por shoppings e lojas online. Aposentadas após a pandemia, as máscaras voltaram à moda. Lideranças do setor dão como certo que o varejo sofrerá perdas em sua terceira data mais relevante. A expectativa negativa soma-se à perspectiva de desabastecimento em razão da seca. 

Nesta sexta (13), a capital amazonense entrou em seu terceiro dia completamente encoberta pela fumaça oriunda de queimadas em municípios pelos quais passa a BR-319 (Autazes, Careiro da Várzea) ou situados no Sul do Amazonas (Novo Aripuanã). A qualidade do ar permaneceu péssima em vários pontos da capital. Na escala da plataforma Selva, que mede os níveis de poluição do ar de 0 a 160 µg/m3 (microgramas por metro cúbico), Manaus ultrapassou novamente a perigosa marca dos 200 µg/m3.

Com isso, o Estado está registrando o maior nível de queimadas para meses de outubro nos últimos 25 anos, conforme o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) – embora o mês ainda não tenha chegado a sua metade. Somente até a última quarta (11), o Amazonas já contabiliza 2.704 focos de calor. A estimativa é que o número pode chegar até ao dobro, caso o ritmo de incêndios continue na mesma velocidade e intensidade dos últimos dias. Somando os meses de setembro e outubro, já são mais de 9 mil ocorrências.

“Queimadas criminosas”

O presidente da FCDL-AM (Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Amazonas), Ezra Azury, concorda que a piora na qualidade do ar e da temperatura, assim como a queda de umidade, estão afetando negativamente o fluxo da clientela do comércio de rua, em detrimento dos shoppings centers da cidade, que têm ar condicionado e ambiente climatizado. O dirigente estima também, no entanto, que o setor dificilmente sairá desse cenário com as vendas para o Dia das Crianças e para o dia a dia em geral no ‘zero a zero’.

“Sair para fazer compras não envolve apenas necessidade, mas também um prazer e uma experiência. Se você sai de casa em uma situação atmosférica ruim, muito quente e difícil de respirar por causa da fumaça, dará preferência sempre a locais mais agradáveis. Não podemos negar que isso ocorreu. Só que é muito difícil mensurar qual foi o tamanho desse prejuízo com relação a essa situação sintomática dessa mudança climática e dessa questão das queimadas criminosas que estão ocorrendo em nosso Estado”, desabafou.

O vice-presidente da ACA (Associação Comercial do Amazonas), Paulo Couto, concorda. O dirigente vai mais além e acrescenta que, aliado às baixas vendas dos meses anteriores, o desarranjo climático ajudou não apenas a esvaziar a clientela do varejo, mas também a deixar os estabelecimentos da capital e do interior do Amazonas em uma situação de penúria contábil. 

“O comércio do Centro, em especial, está efetivamente prejudicado pela intensa fumaça. Nos bairros com comércio de rua mais intenso, isso também ocorre. Pelas notícias que estamos tendo, a situação ainda se agravará. Informo também que as redes de lojas do interior estão com vendas baixas e grande inadimplência. E, por intermédio da ACA, estão fazendo apelo ao governo do Estado para prorrogação de prazo de recolhimento do ICMS”, lamentou.

“Problema é a vazante”

O presidente da assembleia geral da ACA, Ataliba David Antonio Filho, avalia que a combinação de fumaça e calor tende a gerar um efeito mais limitado no fluxo de clientela das lojas de rua. No entendimento do dirigente, os fenômenos climáticos da temperatura e impureza do ar tendem a gerar menos impactos do que a seca atípica deste ano, que traz ao setor a “preocupante” perspectiva de ficar desabastecido para atender a demanda das festas de fim de ano.

“Vejo a situação da fumaça aliada ao calor muito grave para pessoas idosas, crianças e cidadãos com comorbidades, principalmente problemas respiratórios. O que preocupa mesmo é o abastecimento do comércio em função do fenômeno El Niño. A estiagem severa tem ocasionado aos rios Madeira, Negro e Solimões a baixa do nível de maneira crítica aos calados da matriz do nosso transporte, que é 90% fluvial. Daí a necessidade da BR-319. Quando ela funcionava, a mercadoria chegava em 15 dias. Hoje, com navegação normal, a carga leva de 30 a 40 dias”, comparou.

Na mesma linha, o presidente em exercício da Fecomercio-AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Amazonas), Aderson Frota, também considerou que a fumaça e o calor não ajudam o setor em um momento decisivo. Mas, também considerou que o principal foco de preocupações do comércio amazonense atualmente é o estrangulamento logístico proporcionado pela vazante e a ameaça aos estoques dos lojistas.

“Estamos com um problema muito sério. A estiagem baixou de tal maneira o calado dos rios, que a navegabilidade e a portagem estão sofrendo um abalo muito sério. Isso significa que vai haver aumento de frete e no custo das operações portuárias, que certamente repercutirão nos preços das mercadorias que chegarem aqui. A caminhar essa situação, o comércio do Amazonas ficará totalmente desabastecido. E, mesmo que não fique, vamos ter aumentos de preços ao consumidor”, sentenciou.

“Fluxo significativo”

A reportagem do Jornal do Commercio procurou ouvir os shoppings da cidade, para saber sua avaliação sobre os possíveis impactos da situação atmosférica adversa no fluxo dos centros de compra na reta final do Dia das Crianças. A assessoria de imprensa do Shopping Ponta Negra, que não conseguiria responder, pois não costuma divulgar o balanço das campanhas e também porque ainda não tem os números fechados. Situação semelhante ocorreu com o Millennium Shopping.

O único a responder foi o Amazonas Shopping. Em nota, a empresa sinalizou que não sofreu abalos. “O Amazonas Shopping tem registrado ao longo da semana um fluxo significativo de pessoas, impulsionado principalmente pelo Dia das Crianças e feriado prolongado. Muitas famílias optam por aproveitar a comodidade oferecida pelo centro de compras, com lojas, restaurantes e atrações culturais, tudo em um único ambiente. O Amazonas Shopping reforça que atua constantemente para manter um mix de lojas e restaurantes, que atendam a necessidade de todos, além de eventos para toda a família”, encerrou. 

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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