Juros ajudam na recuperação

Em: 21 de março de 2024

Economistas e lideranças classistas ouvidas pela reportagem do Jornal do Commercio são unânimes em considerar correta a renovação da rodada de cortes de juros básicos. Na quarta (20), o Copom voltou a confirmar as expectativas do mercado e, por meio de nova decisão unânime, arbitrou uma nova redução de 0,5 ponto na Selic. Com isso, a taxa ficou em 10,75% ao ano, o menor nível desde março de 2022 (10,75%). Em seu comunicado, no entanto, o Comitê de Política Monetária abriu espaço para apenas mais uma redução do mesmo calibre, sinalizando que pode pausar os cortes.

No texto de seu comunicado, o Copom assinala que o cenário para a inflação permanece inalterado, com riscos tanto de alta como de baixa. “Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores de atividade econômica segue consistente com o cenário de desaceleração da economia antecipado pelo Copom. A inflação cheia ao consumidor manteve trajetória de desinflação, enquanto as medidas de inflação subjacente se situaram acima da meta para a inflação nas divulgações mais recentes”, analisou.

Entre os fatores apontados para um eventual repique inflacionário estão o aquecimento do setor de serviços e a persistência das pressões inflacionárias globais – em um “ambiente externo volátil” e “marcado pelos debates sobre o início da flexibilização monetária nas principais economias”. Os possíveis fatores de queda incluem a desaceleração da economia global maior que a projetada e impactos mais fortes que o esperado das altas de juros em outros países. “O Comitê avalia que as conjunturas doméstica e internacional estão mais incertas, exigindo cautela na condução da política monetária”, frisou.

Esse foi o sexto corte consecutivo nos juros básicos. De março de 2021 a agosto de 2022, o Copom elevou a Selic por 12 vezes consecutivas, em um ciclo de aperto monetário que começou em meio à alta dos preços de alimentos, de energia e de combustíveis. Por um ano, de agosto de 2022 a agosto do ano passado, a taxa foi mantida em 13,75% anuais, por sete vezes seguidas. Antes do início do ciclo de alta e em decorrência dos impactos da pandemia, a Selic tinha sido reduzida para 2% ao ano, no nível mais baixo da série histórica iniciada em 1986.

“Patamar elevado”

O presidente da Fieam e vice-presidente executivo da CNI, Antonio Silva, considerou que a redução foi positiva. Mas, ratificou novamente à reportagem do Jornal do Commercio seu posicionamento de as condições econômicas presentes permitiriam um corte mais acentuado da Selic. e acordo com o dirigente, mesmo com as consecutivas reduções, a taxa de juros real ainda permanece em 7,5% ao ano, o equivalente a 3 pontos percentuais acima da taxa de juros neutra.

“O IPCA fechou em 4,50% nos 12 meses encerrados em fevereiro, dentro do limite superior da meta de inflação para o ano. Da mesma forma, o Relatório Focus projeta que a inflação deverá ser de 3,79% no final de 2024 e de 3,51% no final de 2025. No meu entendimento, a taxa de juros permanece em patamar elevado, com impactos negativos sobre o mercado de crédito, implicando em aumento na inadimplência e diminuição das concessões. Esse cenário inibe o investimento e prejudica a dinâmica econômica”, lamentou.

O presidente do Sinduscon-AM, Frank Souza, aponta que a nova diminuição da Selic veio porque a inflação já se encontra em um patamar estabilizado. “Não há mais ambiente para aumento de preços e já era esperado que o corte fosse dessa magnitude. É muito bom, porque reduz o custo dos financiamentos e as prestações dos imóveis ficam menores. Cada 0,5 p.p. na Selic a menos é mais investimento no setor. A nossa expectativa é que a Selic chegue a 9% ou 9,5% no final deste ano. Vamos torcer para que isso aconteça”, afiançou.

O presidente em exercício da Fecomercio-AM, Aderson Frota, disse que a decisão do Copom era “extremamente necessária”, em face de um consumidor endividado e inadimplente. “A redução da Selic significa um arrefecimento das dificuldades de negociação dessas dívidas. A perspectiva de pressão inflacionária existe, porque há um componente interno e externo. Mas, temos de observar que estamos com as vendas paradas. O Comitê tem de reduzir a taxa de juros de olho no consumidor inadimplente. Mas, o governo tem de criar estímulos para os setores que geram mais empregos e podem movimentar a economia, como comércio e serviços”, recomendou.

“Inflação e estagnação”

A ex-vice-presidente do Corecon-AM e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, assinala que a sexta queda seguida da Selic era um movimento “já esperado por seis em cada dez analistas de mercado”. No entendimento da economista, essa foi mais uma decisão técnica do BC, em sintonia com a vigilância a pressões inflacionárias oriundas do cenário doméstico e do âmbito internacional.

“Tal decisão deve impactar a economia nos próximos 60 dias, contribuindo para mitigar a desaceleração econômica. Mas, levando-se em consideração a fotografia do atual cenário econômico, incluindo efeitos da mudança climática, mercado de petróleo e uma possível deterioração do quadro fiscal brasileiro, há uma forte tendência para o fim da trajetória de queda dos juros [nas próximas reuniões]”, sentenciou.

O atual vice-presidente do Corecon-AM, e economista com especialização em Gestão Empresarial, José Altamir Cordeiro, concorda que o mercado já aguardava essa decisão. Ele diz que a nova diminuição no custo do dinheiro tende a gerar impactos positivos na busca de créditos para investimentos, mas ressalva que esses efeitos levam tempo para refletir na economia. Por outro lado, vê também menos espaço para a manutenção do ritmo das reduções da Selic na conjuntura atual.

“O Comitê de Política Monetária está preocupado com a resiliência da inflação externa e a estagnação das maiores economias mundiais. A economia global não está bem, e isso pode afetar as exportações brasileiras. Olhando para esse cenário, é possível que os cortes promovidos nas próximas reuniões do Copom sejam mais suaves. Talvez as reduções fiquem limitadas a 0,25 ponto percentual”, estimou.

Já a consultora empresarial, professora universitária e conselheira do Cofecon, Denise Kassama, entende que a redução da Selic traduz um recado otimista para o mercado, em direção de um ciclo virtuoso de crescimento de consumo, produção, emprego e renda. A economista lembra que há boas notícias no fronte econômico para embasar essa estimativa, como o crescimento do setor de serviços – uma atividade mais sensível às flutuações do consumo. Ela ressalva, no entanto, que o voto de confiança do BC vem necessariamente acompanhado de cautela. 

“Esse é o recado dado, mesmo que o ambiente macroeconômico ainda não esteja tão estável. Pairam no mundo duas guerras, que mexem nos mercados de petróleo e alimentos. Pesa também o fato de que a última safra não foi tão grande, e essa oferta menor pressiona os preços para cima. Enquanto existirem essas pressões inflacionárias, há necessidade de prudência. Entendo que a medida foi acertada e o efeito disso é a retomada do crescimento, mesmo em face de todas essas pressões externas. Vamos aguardar os próximos capítulos dessa novela”, arrematou. 

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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