“Nem tudo são flores”

Em: 15 de maio de 2025
Pesquisa da dra. Denise Santana, mostra que folhas e frutos são tão importantes como as flores quando a questão é ornamentar.

Quando falamos em plantas ornamentais, pensamos logo em belas flores multicoloridas mas, com o projeto ‘Nem tudo são flores: potencial ornamental de folhas e frutos de aráceas amazônicas’ a pesquisadora Denise Garcia de Santana, doutora em Estatística e Experimentação Agronômica, com experiência na área de Recursos Florestais e Engenharia Florestal, que mostrar esse outro potencial das plantas. Com apoio da Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas), as pesquisas aconteceram nos municípios de Tefé, Alvarães e Uarini e Denise falou, ao Jornal do Commercio, sobre os resultados.

 

Jornal do Commercio: A Amazônia tem um Paraíso de plantas ornamentais. Por que praticamente ninguém as explora?

Denise Santana: Na realidade a exploração existe, muitas espécies amazônicas ornamentais são exploradas comercialmente no mercado de colecionadores. Esse colecionismo de espécies raras e exóticas é antigo e se estende até hoje. As ‘grandes navegações’, que deram início aos gabinetes de curiosidades, exibiam plantas da flora de várias partes do mundo. É a partir deles que surge um olhar fetichista e colecionista sobre as mais diferentes espécies botânicas ao redor do globo. É também nesse contexto que as primeiras expedições de naturalistas e botânicos, com o objetivo de investigar as espécies do assim chamado ‘Novo Mundo’, começam a ter mais destaque devido aos patrocínios e financiamentos de viagens dos governos europeus. Decorrente dessas viagens, a flora amazônica vai se tornar um dos principais objetos de interesse de uma vasta gama de naturalistas que catalogaram, pela primeira vez, a flora brasileira.

 

JC: O seu projeto é focado apenas em folhas e frutos? De que espécies são essas folhas e frutos?

DS: Sim, espécies ornamentais da família da costela de adão, jiboia, os tajás com suas folhas e formas diversas são muito apreciadas no mercado de plantas ornamentais. O projeto faz uma leitura mais otimista da frase de domínio público ‘nem tudo são flores’ ao apontar que beleza estética nas plantas ornamentais não se restringe às flores, mas também na diversidade das formas e folhas. 

 

JC: Qual critério usou para escolhê-las?

DS: Escolhi espécies que poderiam ser facilmente multiplicadas por sementes, para evitar a retirada das plantas da área. Duas espécies foram escolhidas em função dos frutos avermelhados, gerando um lindo componente estético. Outra pelas bordas recortadas das folhas e o efeito delas ao sabor do vento. Identificamos uma costela de adão amazônica com pequenos rasgos nas folhas para a passagem de luz. Uma versão mais sutil da costela de adão comercializada no país

 

JC: A pesquisa também engloba substratos como casca de castanha e caroços do açaí. Fale sobre isso.

DS: A casca do processamento da castanha e do caroço do açaí são subprodutos já comercializados no país na forma de biochar, um condicionador de solo, de adubo orgânico. Em todos esses usos, o material passa por processamento. No caso de biochar pela pirólise (queima) e no caso de adubo orgânico, a compostagem. Na pesquisa, a castanha foi usada da forma bruta sem pirólise e sem compostagem, apenas picada e o açaí parcialmente carbonizado, o que facilita o uso na olericultura de povos tradicionais, onde se incluem as plantas ornamentais. A lista de potenciais substratos de base orgânica da Amazônia é imensa, mas castanha e açaí já passaram da fase de potencial, são realidades comerciais, à semelhança do coco no Norte e Nordeste.

 

JC: Explique em que estágio está o seu projeto? Quais resultados satisfatórios já obteve até agora?

DS: Todas as espécies já passaram pela fase de mudas, desenvolvimento e se tornaram adultas sob cultivo, previsto no projeto, e estariam prontas para a comercialização. Um feito para essas espécies sem melhoramento genético e sem domestificação. 

 

JC: O que se pode fazer, em termos ornamentais, com as folhas e frutos que está pesquisando?

DS: Nesse projeto o diferencial está no manejo dessas plantas por comunidades locais (indígenas, ribeirinhos e não ribeirinhos) para que as espécies não sofram pressão nos locais de ocorrência. O manejo é importante, mas também o cultivo para fins comerciais porque elimina do comércio o colecionador exclusivista. Acredito que os cultivos permitem que um maior número de pessoas tenha acesso a essas plantas ornamentais. Na pandemia, o movimento Urban Jungle, fez as pessoas entenderem a importância delas para o bem-estar, minimizando o estigma de que as plantas são bibelôs supérfluos da decoração (leiam Emanuele Coccia ‘A vida das plantas’).

 

JC: Já tem algum empreendedor interessado no resultado de suas pesquisas? Comercialmente, qual sua ideia, montar uma loja, buscar lojas parceiras?

DS: Meu desejo é assessorar tecnicamente comunidades tradicionais que desejam produzir comercialmente plantas ornamentais da flora brasileira, especialmente as amazônicas. Nesse processo estabelecer, planos de manejo e cultivo e garantir que esse acesso ao patrimônio genético atenda às leis do país, com olhar aos povos que têm essas espécies nos seus territórios. Deixo os meus contatos, para comunidades que tenham interesse no cultivo dessas espécies ornamentais. Desejo que as plantas ornamentais amazônicas não se restrinjam aos colecionadores, mas ganhem o mercado nacional tuteladas por comunidades tradicionais.

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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