A baixa do dólar nos últimos meses está capitalizando o varejo de importados. A constatação é do diretor-geral do Ceceam (Centro do Comércio de Importados do Amazonas), Celso Santos, segundo o qual muitos empresários locais vêm aproveitando os baixos custos da moeda estadunidense (fechada em R$ 1,73 na cotação de sexta-feira, 8) para antecipar o estoque de Páscoa.
Santos disse que essa estratégia é semelhante à utilizada entre maio e agosto do ano passado, quando a moeda estrangeira oscilou nesse mesmo patamar em relação ao real, fato que levou o empresariado a compor o estoque para o período natalino. Segundo o empresário, os produtos já estocados passam a ser vendidos ao preço do dólar do dia, o que pode levar alguns consumidores a estranharem a mudança dos preços nas lojas. “Alguns lojistas estão vendendo os produtos adquiridos com a cotação do dólar em baixa por valores mais altos, prevendo um custo maior no momento da reposição do estoque e visando o equilíbrio em relação a um custo adicional na compra”, explicou.
No entendimento do economista José Laredo, a questão é saber se o varejista que optou por essa manobra de mercado está conseguindo vender igual ao concorrente que pode não estar adotando a mesma estratégia, pois o consumidor também já busca itens com preços reduzidos. “Entretanto, alguns setores como o de automóveis e informática, por exemplo, adotaram a tática de enfatizar o dólar a R$ 1,70 para aumentar o volume de vendas”, disse.
Se a proposta é ampliar estoque a partir da baixa cotação da moeda do ‘Tio Sam’, a boa notícia é que os contratos futuros indexados ao dólar negociados na Bolsa de Mercadorias & Futuros voltaram a cair no início da semana. O vencimento de janeiro de 2010 recuou 1,05%, fechando em R$ 1,747. Em fevereiro, a baixa é de 1,05% (previsão de R$ 1,757). Já os contratos para março perderam 1,04% e fecharam em R$ 1,767.
Equilíbrio de mercado
Esse equilíbrio de mercado ressaltado por Laredo traz outra questão de certa forma preocupante para o mercado local. Se o dólar continuar a subir, na compreensão do especialista, as lojas que comercializam produtos importados podem começar o segundo trimestre com baixo estoque de produtos. “É uma atitude natural dos importadores, supermercadistas e lojas de brinquedos frearem os pedidos e esperarem a estabilização do câmbio para fazer a renovação dos estoques”, explicou o economista.
Apesar de acreditarem que a Páscoa será boa para as vendas, os varejistas estimam que este ano o mercado deverá desaquecer. No caso do varejo popular, por exemplo, as empresas locais almejam crescimento de 7% nas vendas de itens importados, mas apenas 3% em relação a 2009. Em entrevista ao Jornal do Commercio, o presidente da Abipp (Associação Brasileira dos Importadores de Produtos Populares), Gustavo Dedevits, disse que os estoques para este ano estarão baixos. “Estamos em uma praia e vemos a onda lá em baixo, não sabemos se é de surfe ou um tsunami que nos arrebentará. Apenas um dólar no patamar de R$ 2 estaria bom. Ninguém quer comprar agora. Todos vão esperar a taxa de câmbio do começo de fevereiro. Não tem como adiantar as importações”, afirmou.
O empresário Abdias Marcolino, atuante no segmento de veículos importados, reforçou que o ideal é vender tudo para capitalizar. Quanto a repor estoque para a primeira metade deste ano, o executivo foi enfático: “Mal acabou 2009 e boa parte dos comerciantes locais querem viajar ao exterior para renovar o estoque de peças. Viajamos para a Alemanha em maio para receber as mercadorias até outubro”, comentou.
Setor aguarda alta de até 10%
Embora tenha evitado entrar em detalhes, Marcolino concordou que os preços dos carros importados devem variar ao longo do ano por causa da taxa de câmbio. Ele prevê que a moeda estrangeira deve flutuar em torno dos R$ 2,15 durante o ano. “À medida que a economia se fortalece, o câmbio se acomoda. Acredito que o crescimento do varejo de veículos importados em Manaus deve ficar na casa de 4,2% este ano”, completou.
O tamanho do mercado doméstico e o nível atrativo de preços para os produtos de eletroeletrônicos e bens de informática por conta da depreciação do dólar em relação à moeda nacional têm gerado expectativas de crescimento entre 5% a 10% para o primeiro semestre de 2010. Segundo o executivo Arnaldo Rocha, atuante nesses dois segmentos, além de ser um mercado guiado pela variedade, o regime de importação de produtos tecnológicos em Manaus pode alcançar 8% em razão da demanda de laptops, celulares e TV de alta definição. “A despeito dessa depreciação, acredito que a maioria dos lojistas já repôs mais de 60% do estoque ainda no fim do ano passado”, explicou.
Esse foi o caso do empresário José Gustavo Mendes Azevedo, também atuante no setor de bens de informática, segundo o qual, pelo lado da oferta doméstica, são necessários poucos ajustes no processo de reposição de estoque para se decidir qual tipo mercadoria comprar. “A rotatividade tem sido muito grande em virtude dessa redução de preços. Os investimentos necessários para a adequação dos nossos sistemas são elevados, mas compensam em virtude da baixa do dólar”, concluiu o executivo, sem detalhar números.






