No próximo dia 30 de março, se vivo estivesse, Thiago de Mello, o poeta da Amazônia, completaria 100 anos. O Grupo Valer celebrará a vida e a obra de um dos poetas mais influentes da literatura latino-americana e um dos mais expressivos do Brasil, com um Festival de Poesia e uma série de eventos, ações educativas e culturais, em 2026, dentro da programação ‘Thiago de Mello: 100 anos de vida e poesia’.
“Manaus e os leitores terão uma festa com a participação de poetas da Amazônia e a celebração de suas obras. A programação terá ainda palestras, exposições, exibição de documentários, recitais e oficinas temáticas em torno da obra de Thiago de Mello”, adiantou o escritor Tenório Telles, curador da programação que, na entrevista, a seguir, ao Jornal do Commercio, falou um pouco mais sobre quem foi o poeta.

Jornal do Commercio: Se tivesse que igualar Thiago de Mello a poetas da Amazônia, do Brasil e do mundo, a quais outros nomes ele estaria no mesmo patamar?
TT: É difícil fazer comparações entre escritores ou igualá-los, pois cada autor tem suas peculiaridades, histórias, processos pessoais de autoconstrução, circunstâncias culturais e, especialmente, a forma peculiar de lidar com a linguagem, a singularidade do processo criativo e as soluções estéticas encontradas para o dilema da criação. Nesse sentido, a lírica de Thiago de Mello, de modo geral, vincula-se à tradição da poesia social, que teve no Brasil Ferreira Gullar, como figura de destaque, e Pablo Neruda, na América Latina.
JC: Thiago de Mello conseguiu viver seus 96 anos somente como poeta?
TT: O poeta viveu uma longa jornada intelectual: durante as primeiras décadas sua sobrevivência foi assegurada pelo jornalismo. Thiago foi um exímio cronista, trabalhando em grandes jornais, como Correio da Manhã e O Globo. Em paralelo, ocupou diversos cargos públicos, encerrando essa jornada como adido cultural da embaixada do Brasil, no Chile. Após o retorno do exílio, passou a trabalhar como conferencista, tradutor, editor, escrituras de textos sob encomenda, além claro de sua criação poética – publicando seus livros e recebendo direitos autorais.
JC: No Rio, onde morou, Thiago buscou estar entre os grandes poetas daqueles tempos. Isso o fez aprimorar a sua poesia, ou ele foi logo considerado um grande entre os grandes?
TT: Em muitos de seus depoimentos ele considera, como relevantes na sua formação, os ensinamentos de suas professoras primárias e a leitura dos clássicos nacionais. No Rio de Janeiro, foi importante, no seu amadurecimento intelectual, sua relação com Manuel Bandeira, José Lins do Rego, Carlos Drummond, além do convívio com grandes jornalistas como Carlos Heitor Cony, Armando Nogueira, entre outros.
JC: Thiago de Mello saiu de Barreirinha (ainda hoje uma pequena cidade) e conquistou o mundo. Tem algum poeta amazonense seguindo esse mesmo caminho?
TT: Thiago é um caso particular da poesia da Amazônia. Talvez seja o poeta com maior projeção e reconhecimento em termos nacionais e internacionais. Penso que sua capacidade criativa, sua coragem e o contexto histórico contribuíram para isso, especialmente após o golpe de 1964, e a guinada política que se percebe no seu discurso lírico, como se percebe a partir do livro ‘Faz escuro mas eu canto’.
JC: Você foi íntimo com Thiago. Que curiosidades poderia contar sobre sua vida pessoal?
TT: O convívio com o Thiago foi de trabalho e amizade. Durante quase duas décadas fui seu editor: cuidamos de várias edições de suas obras. Ele era muito comprometido com as questões sociais. Preocupava-se com as pessoas de sua cidade e tentava ajudar as que o procuravam. Embora fosse muito austero, ele tinha um forte senso de humor. Um aspecto que tinha um lado cômico era sua relação, nem sempre amistosa, com o poeta Luiz Bacellar. Thiago tinha admiração pelo autor de ‘Frauta de barro’.
JC: Qual o maior reconhecimento que Thiago de Mello teve em vida? Ele considerava ter cumprido seu papel enquanto poeta?
TT: Ele tinha a compreensão de que tentou fazer o melhor, até porque, depois de ‘Faz escuro mas eu canto’, passou a associar a poesia com a vida, com a sua luta por justiça e liberdade. Ele se alegrou muito com o trabalho musical de Claudio Santoro em torno dos ‘Estatutos do homem’. Sentia certo orgulho por ter ajudado os exilados políticos brasileiros que foram para o Chile. Ressaltava sempre o caráter utópico de sua poesia como algo relevante.
JC: Como está a poesia amazonense dos tempos atuais?
TT: A poesia é misteriosa e dinâmica. Está sempre se renovando e, de forma inesperada, dando seus frutos. Hoje é perceptível o surgimento de uma nova geração de poetas, com a presença predominante de mulheres talentosas e obras expressivas estéticamente. Vou citar algumas dessas criadoras contemporâneas: Pollyanna Furtado, Priscila Lira, Mayanna Velame, Grace Cordeiro, Luciana Nobre. Entre os poetas, destacaria Efraim Amazonas, Saturnino Valladares, Gabriel Albuquerque. Evidentemente que outros nomes vivem seus processos de depuração.







