“O endividamento virou regra”

Em: 14 de janeiro de 2026
Já faz parte da vida da maior parte dos brasileiros as dívidas de início de ano, que acabam se transformando numa bola de neve financeira.
Stelma, o problema não é só gastar demais, mas pagar muito caro para consumir
Stelma, o problema não é só gastar demais, mas pagar muito caro para consumir

 Parece ser cultural do brasileiro. Todo final de ano ele gasta o que tem e o que não tem viajando, comprando roupas e sapatos, presentes para familiares e amigos, comidas e bebidas para as comemorações do Natal e Réveillon, festejando o hoje como se não houvesse o amanhã, mas o amanhã existe e ele chega logo no início do novo ano com os boletos da água, luz, internet, IPTU, aluguel, IPVA, gastos com a escola dos filhos e o que não pode faltar, a alimentação.

Para retomar o controle da situação e conter os gastos, o primeiro passo é fazer um diagnóstico financeiro. Anotar as despesas fixas, listar as dívidas, priorizar o pagamento das contas com juros mais altos, renegociar valores e evitar novos compromissos financeiros desnecessários e, para que a situação não volte a ocorrer, criar um planejamento mensal.

Para entender melhor como se dá o processo de endividamento do brasileiro e saber se o problema tem solução, o Jornal do Commercio ouviu Stelma Alvarenga, professora do curso de Contabilidade da Uninorte e ela confirmou que, sim, há luz no fim do túnel. A jornada pode ser difícil, mas se houver comprometimento, qualquer gastador/devedor poderá ter tranquilidade financeira durante o ano inteiro.

 

Jornal do Commercio: Todo início de ano são divulgadas dicas de como organizar os gastos para não se endividar, mas parece que a maioria das pessoas nunca aprende. É isso mesmo?

Stelma Alvarenga: Não é que as pessoas não aprendam. O problema é que a maioria nunca foi ensinada de verdade. A educação financeira, no Brasil, ainda é baseada em tentativa e erro. Além disso, o consumo é incentivado o tempo todo, enquanto o planejamento quase nunca é estimulado. Resultado: mesmo quem sabe o que deveria fazer, muitas vezes não consegue aplicar na prática.

 

JC: Segundo especialistas, hoje, 80% das famílias brasileiras têm algum tipo de dívida. O que você teria a dizer sobre isso? Seria uma ‘epidemia’ de endividados? Já viu isso antes?

SA: Sim, podemos chamar de uma crise estrutural, quase uma epidemia financeira. Nunca tivemos tantos instrumentos de crédito disponíveis ao mesmo tempo, com juros tão altos. O endividamento hoje não é exceção, virou regra. O problema não é só gastar demais, mas pagar muito caro para consumir.

 

JC: Dados mostram que o que mais endivida os brasileiros seriam o cartão de crédito e o cheque especial. Os brasileiros não saberiam usar esses mecanismos?

SA: Na verdade, o sistema foi desenhado para que a pessoa se endivide. O cartão de crédito e o cheque especial parecem inofensivos, mas escondem juros altíssimos. Sem educação financeira, o consumidor acha que está ganhando tempo, quando na verdade está comprando dívida.

 

JC: Para piorar, os jogos online entraram na corrida dos endividados, e eles parecem ‘pegar’ a camada mais pobre da população. É isso mesmo?

SA: Sim, principalmente entre a população de renda mais baixa. Esses jogos usam mecanismos psicológicos parecidos com os cassinos, estimulando impulsividade e falsa expectativa de ganho. Para quem já está endividado, isso vira uma armadilha ainda mais perigosa.

 

JC: Uma das suas dicas para não se endividar é fazer um planejamento mensal, mas isso só resolve quando a pessoa sabe se controlar, não é?

SA: O planejamento é essencial, mas sozinho não basta. Ele precisa vir junto com mudança de comportamento, controle emocional e metas claras. O dinheiro está muito ligado à ansiedade, frustração e desejo de status. Organizar finanças é tão psicológico quanto matemático.

 

JC: Existem pessoas especializadas em ajudar a organizar quem não sabe organizar seus gastos, mas aí seria um gasto a mais?

SA: Na prática, é um investimento. Assim como uma pessoa contrata um médico para cuidar da saúde, quem está desorganizado financeiramente pode economizar muito mais do que gasta ao receber orientação correta. Em poucos meses, o retorno costuma ser maior do que o custo.

 

JC: Resumindo, o ideal seria ensinar na escola, no ensino básico, as crianças a, desde cedo, aprenderem a controlar seus gastos? Depois de adulto não teria mais jeito?

SA: Seria a solução mais poderosa. Quem aprende desde cedo a lidar com dinheiro sofre muito menos na vida adulta. Mas mesmo quem já é adulto ainda pode mudar. Nunca é tarde para aprender, desde que haja orientação e vontade de sair do ciclo da dívida. Dinheiro não some por acaso. Ele some quando não é acompanhado. Quem anota, controla. Quem controla, decide. E quem decide, prospera, não importa se é no caderno, no celular ou na planilha. O que muda a vida financeira de uma pessoa é saber exatamente quanto entra, quanto sai e para onde vai cada real.

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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