Safra de café cresce 9,9%

Em: 9 de fevereiro de 2026

A Conab projeta mais um ano de crescimento para o cultivo de café no Amazonas. No primeiro levantamento para a safra de 2026, a Companhia Nacional de Abastecimento estima que a quantidade de sacas de 60 kg beneficiadas deve saltar 9,9%, de 35.200 (2025) para 38.700 (2025). Vale notar que o crescimento esperado se dá sobre uma base sólida, já que a atividade alcançou 87,2% de aumento na safra do ano anterior – que foi de retomada. Mas, embora o Estado figure entre as seis maiores altas do país, a produção ainda está longe dos picos de 2021 (75.200) e de 2022 (75.300), marcados pelo fim da pandemia e também pela disparada nos custos de produção.

Embora ainda incipiente, a cultura começa a recuperar terreno, alimentada por uma conjunção de políticas públicas, pesquisas científicas e tendência de valorização do produto. O ganho no nível de produção apontado pela estatal se deve, em boa parte, ao aumento proporcional na área total de cultivo de café por aqui. O Amazonas deve saltar de 985.500 (2025) para 1.043.700 (2026) hectares entre um exercício e outro, configurando uma diferença de 5,9%. A produtividade, por outro lado, aparece com papel mais destacado neste ano. O índice de expansão aguardado para a safra amazonense deste ano progrediu é de 3,8%, elevando o rendimento médio do parque cafeeiro amazonense para 37.100 sacas por hectare. Os dados foram divulgados nesta quinta (5).

O Amazonas (+9,9%) aparece entre as oito unidades federativas com resultados positivos de um ranking que reúne um total de dez Estados. A safra brasileira está estimada em 66,19 milhões de sacas beneficiadas, registrando crescimento de 17,1%. Caso confirmado, será um novo recorde na série histórica, ultrapassando a safra de 2020 (63,1 milhões). Conforme a Conab, a estimativa é influenciada pela elevação de 4,1% na área em produção (1,93 milhão de hectares), por condições climáticas mais favoráveis registradas ao longo do ciclo da cultura e pela adoção de tecnologias e boas práticas de manejo nas lavouras, que impactaram na produtividade (+12,4% e 34,2 sc/ha).

A maior parte da oferta nacional do produto ainda é da variedade arábica (44,10 milhões), que deve ter ampliação de 23,3% neste ano. A Companhia Nacional de Abastecimento destaca que esse tipo de café, que tem sua maior oferta em Minas Gerais, sofre maior influência da “bienalidade positiva” para a presente safra. Já o café conilon (22,10 milhões), que é a espécie cultivada no Amazonas, aparece com acréscimo mais modesto, de 6,4%. A estimativa também é recorde nessa variedade, que tem sua maior produção no Espírito Santo. 

 

“Floresta em pé”

O parque cafeeiro do Amazonas deve fechar 2026 somando 4,87 milhões de covas, equivalendo a um salto de 5,9% sobre o saldo de 2025 (4,60 milhões de covas). A maior parte é de covas em produção (2,99 milhões) e o restante, de covas em formação (1,88 milhão). Na comparação com a safra anterior, as altas respectivas também são de 5,9%, cada. A colheita deve ser iniciada em abril (9.700 sacas), intensificada em maio (19.400), e concluída em junho (9.700). “O cultivo é recente e está em expansão, sendo impulsionado por políticas públicas, como a distribuição de mudas a pequenos produtores e cultivares adaptadas à região”, pontuou a Conab, no texto do boletim.

A Conab salienta que o Amazonas vem ampliando seu espaço para a cafeicultura. “A marca ‘Café Amazônico’ vem se consolidando e agregando valor ao produto, que é fonte de recurso sustentável aos produtores, principalmente em âmbito familiar, além de trazer consigo um cultivo com características agronômicas e socioambientais agregadoras, tais como: atividade desenvolvida em pequenas áreas, mão de obra prioritariamente dos membros da família, pouco uso de insumos sintéticos, entre outras”, avaliou, reiterando o papel das ações de fomento no resultado positivo da cultura, assim como seu caráter sustentável.

De acordo com a estatal, o cultivo fica mais concentrado em Apuí. “Ali se tem o primeiro café 100% robusta orgânico cultivado em agrofloresta na Amazônia brasileira. O café tornou-se umas das alternativas de manter a floresta em pé. O grão até se beneficia dessa condição de manejo na floresta, já que seu plantio sombreado, em meio às árvores, garante mais qualidade e sabor. A cultura já se encontra nos estádios reprodutivos, especificamente na fase de enchimento dos grãos. O clima tem sido um fator preocupante no desenvolvimento geral das lavouras, visto que os episódios de estiagem e altas temperaturas têm sido recorrentes e podem impactar no potencial produtivo”, ponderou.

 

Rentabilidade e tecnologia 

Em entrevistas anteriores à reportagem, o presidente da Faea, Muni Lourenço, informou que os municípios amazonenses que se destacam na produção de café são Humaitá, Apuí, Rio Preto da Eva e Silves. E acrescentou que o cultivo do café arábica foi anteriormente abandonado no Estado, em favor do conilon, que “é recomendado para regiões com temperatura mais altas, como a nossa”. Segundo o dirigente, a retomada de produção em 2025 veio após os impactos negativos das estiagens de 2023 e 2024, em um contexto em que a Embrapa já havia desenvolvido introduzindo um café clonal de maior produtividade, a partir de híbridos conhecidos como “robustas amazônicos”.

Muni Lourenço diz que ainda há alguns obstáculos a serem contornados para maximizar o potencial da cultura cafeeira no Amazonas, principalmente em questões ambientais e fundiárias. Mas, ressaltou que as perspectivas seguem otimistas para atividade. “Os principais fatores responsáveis pelo crescimento da produção são a rentabilidade da cultura para um mercado altamente demandante, assim como a segurança tecnológica da existência do robustas amazônicos, adaptado as condições de nosso Estado. ⁠A perspectiva é de contínuo crescimento da produção de café em nosso Estado, principalmente porque o produtor está verificando o bom preço do café, decorrente em muito da escassez do produto em nível mundial”, afiançou.

O consultor e especialista na gestão do agronegócio, e também articulista do JC, Thomaz Meirelles, considera que o levantamento traz uma notícia animadora e que exige reflexão. “Os números são positivos, mas ainda representam só uma fração do nosso potencial. Rondônia, com segurança jurídica consolidada, produz mais de 2,7 milhões de sacas. O que falta para o Amazonas? Falta decisão técnica e política, com Zoneamento Econômico-Ecológico aprovado, regularização fundiária destravada e licenciamento ambiental ágil. Esses são os pilares da segurança jurídica e do acesso ao crédito rural que o produtor precisa para investir e crescer”, asseverou. 

O especialista frisa que o Estado precisa de mais produtos com o selo “Amazonas” nas prateleiras, para gerar riqueza real no bolso de quem planta, colhe e preserva. “Hoje, a marca ‘Amazonas’ muitas vezes vira vitrine internacional, com discursos e eventos, mas pouca produção efetiva. Produtor não vive de palestra, mas de safra colhida e vendida. A tecnologia existe, com os clones de café robusta da Embrapa adaptados à região. A terra é boa e o produtor quer trabalhar. Os dados da Conab mostram que o motor está ligado. Só precisamos tirar o freio de mão”, arrematou.

 

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
Pesquisar