Cordéis, do Nordeste para Manaus

Em: 13 de fevereiro de 2026
Alguns dos onze títulos publicados por Gui Cordel, com variados temas

Literatura típica do Nordeste, o cordel são poemas escritos em linguagem popular, ricos em rimas e na perfeição métrica dos seus versos, publicados em livretos multicoloridos, geralmente vendidos em feiras onde ficam pendurados em cordéis, daí o nome.

Em Manaus o cordel tem um representante pernambucano que carrega o cordel até no nome: Guilherme Henrique Diniz de Santana, o Gui Cordel.

“Em 2006, a empresa que eu trabalhava, lá em Recife, abriu uma filial em Manaus e trouxe 40 profissionais para cá, e depois mais 40. Eu fui um desses, que passei na seleção, e estou aqui até hoje. Fiz a faculdade de pedagogia e comecei a atuar artisticamente com projetos ligados à literatura de cordel”, contou.

Gui Cordel começou a gostar de poesias ainda na adolescência, participando de concursos escolares. Um dia, estava num show da banda Cordel do Fogo Encantado.

“Quando eu vi aquele cara, o Lirinha, declamando, parece que uma chave virou no meu cérebro, no coração, então me interessei em querer decorar poemas para declamar. Depois, num congresso em João Pessoa, conheci a banda Sal da Terra. Quando o vocalista passou a declamar cordéis, um deles, o Monólogo de Pedro Peixeira, me apaixonei de vez. Esse foi o primeiro cordel que decorei, e a partir daí continuei decorando e declamando cordéis para as pessoas”, lembrou.

Percebendo que todos gostavam de suas performances, Gui Cordel começou a escrever os seus próprios cordéis e estudar sobre literatura desse estilo literário, como eram as métricas, as modalidades, como funcionava a métrica e a rima, onde a rima tem que acontecer em determinada modalidade, e assim foi aprendendo.

 

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Moacir Andrade, em ‘Moacir imortal’, também virou um cordel de Gui Cordel

 

Temas variados

“Em Manaus isso tomou uma proporção maior. Conheci o pessoal do Pirão, um movimento de artistas que realiza eventos descentralizados, me aproximei da galera e passei a apresentar alguns dos eventos deles e quando eu declamava cordéis, o pessoal delirava, então decidi me profissionalizar apresentando eventos e fazendo intervenções literárias. Foi em Manaus que essa veia artística começou a se estruturar, por isso tenho muita gratidão pelo povo manauara que me acolheu, e à minha arte, com tanta generosidade e carinho”, disse.

Os temas dos cordéis de Gui são os mais variados. Ele escreve sobre machismo e violência doméstica (folheto Machismo e violência), questões nordestinas (Cabôco nordestino), Paulo Freire (Um barbudo arretado), Moacir Andrade (Moacir imortal) e Amazônia (SOS Amazônia), entre outros títulos.

“Eu falo, por exemplo, da minha vinda de Recife para Manaus usando expressões amazônicas, o caboquês, como ‘pai d’égua’, ‘chibata do balde’, ‘morreu de colar’, ‘brocado’, entre outras”, recordou.

O cordel ‘Machismo e violência’ lhe rendeu o prêmio de melhor poesia da coletânea ‘Aventuras manauaras’.

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“Foi em Manaus que essa veia artística começou a se estruturar”

“Gosto de observar o que está acontecendo na sociedade e tentar, de alguma forma, transformar isso em poesia. Quero expressar a minha forma de pensar, de como enxergo o mundo, e transformar isso nos cordéis”, revelou.

As atividades de Gui Cordel, como cordelista, o tem levado a participar de vários eventos tanto em Manaus quanto em outros estados, e são tantos que ele até já perdeu a conta. Acontecem em escolas, empresas, universidades, e até casamentos, aniversários, chás de revelação, e chás de bebê.

“Já fiz até cordel para uma funerária (Carpe diem), com palavras de alento lembrando dos bons momentos com o ente querido que partiu”, riu.

“Os mais recentes eventos em que estive foram o ‘Manaus Passo a Paço’ onde, novamente, me apresentei num dos palcos junto com cordelistas residentes em Manaus, e num sarau literário realizado no FLIM (Festival Literário de Manaus)”, informou.

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Gui, “quando eu vi aquele cara declamando, parece que uma chave virou no meu cérebro”

Oficinas de cordel

Sobre os famosos livrinhos, os folhetos vendidos nas feiras nordestinas, Gui Cordel já tem onze títulos publicados.

“Muitos nordestinos sabem fazer cordel porque aprenderam, ouviram ou foram ensinados pelos pais ou por familiares. Isso faz parte da nossa cultura, mas nem todo nordestino traz isso consigo, não é algo que nasce com a gente. O cordel é uma arte, como várias outras, que muitos nordestinos dominam porque aprenderam a fazer desde pequenos, se exercitaram e se tornaram profissionais”, ensinou.

“Devido à complexidade das regras, o cordel é uma literatura que precisa ser estudada e exercitada para ser produzida. Eu ministro oficinas, palestras, palestras-show sobre como fazer cordel, tanto a parte da escrita quanto a teoria. A minha pesquisa de mestrado foi sobre literatura de cordel. Nas minhas oficinas, ensino as pessoas a escreverem seus próprios textos, criarem ilustrações, e adquirirem um estilo próprio. Depois é só declamar para o público”, avisou.

Quem desejar adquirir os cordéis de Gui Cordel, pode solicitar pelo Instagram @guicordel, ou pelo telefone: 9 8103-3211.

 

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Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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