Varejo recua em dezembro no Amazonas

Em: 16 de fevereiro de 2026

As vendas do comércio do Amazonas encolheram em dezembro, mas o setor ainda conseguiu fechar 2025 no azul. O varejo restrito recuou 3,2% diante de novembro, mesmo favorecido por um dia útil a mais, e pelo movimento de fim de ano. O resultado eliminou o ganho parcial anterior (+0,3%). O confronto com dezembro de 2024 apontou redução de 1,5%, no segundo maior tombo do país. Com isso, o setor encerrou o ano com alta de 0,6%, no desempenho mais fraco desde 2021 (-1,2%). No mês do Natal, o volume comercializado pelo varejo ampliado, que inclui bens de maior valor agregado e dependentes de crédito, não se saiu muito melhor.

O varejo brasileiro teve números mais animadores. Puxado para baixo por seis das oito atividades, recuou 0,4% na variação mensal, reduzindo parte do ganho de novembro (+1%). A queda foi sentida principalmente em “artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria” (-5,1%). As vendas, no entanto, aumentaram 2,3% em relação a dezembro de 2024, induzidas por seis segmentos, com destaque para “equipamentos e material para escritório, informática e comunicação” (+31,1%). O ano fechou com alta de 1,6%, embora o varejo ampliado não tenha se saído melhor do que o do Amazonas. É o que revela a Pesquisa Mensal do Comércio, do IBGE, divulgada nesta sexta (13).

Nada menos do que 19 unidades federativas perderam o fôlego na passagem de novembro para dezembro. O varejo do Amazonas (-3,2%) permaneceu na 19ª colocação, empatando com o Mato Grosso, em um rol com o melhor desempenho no Rio de Janeiro (+1,9%) e o pior em Rondônia (-0,2%). Com o decréscimo de 1,5% na variação interanual, o Estado caiu do 21º para o penúltimo lugar, tendo Amapá (+15,9%) e Roraima (-2,4%) nos extremos. O varejo amazonense desceu da 18ª para a 19ª posição, no acumulado de 2025 (+0,6%), tendo também Amapá (+8,5%) e Roraima (-2,7%) nas duas pontas.

 

Inflação e crédito

O aumento do IPCA de dezembro (+0,33%) manteve o descolamento das vendas efetivas em relação à receita nominal, que não contabiliza a inflação. A diferença é mais significativa nas comparações de longo prazo, e se tornou mais pesada no Amazonas após as crises hídricas/logísticas das vazantes. Nesse cenário, o faturamento bruto diminuiu 2,8% perante novembro. O varejo amazonense subiu 0,9% em relação a dezembro do exercício anterior, com reflexos positivos no aglutinado do ano (+5%). A média nacional (-0,4%, +4,4%, +6,4%) superou o Estado em todas as frentes.

Em razão do tamanho da amostragem, o IBGE ainda não segmenta o desempenho do comércio no Amazonas. Sabe-se apenas que, assim como no do mês anterior, os subsetores de veículos, autopeças e material de construção foram de pouco ajuda para mover o comércio amazonense como um todo. O varejo ampliado regrediu 3% em relação a novembro de 2025. Em relação a dezembro de 2024, o decréscimo foi de 0,4%, embora o ano (+1,2%) tenha fechado no azul. A média brasileira (-1,2%, +2,8% e +0,1%) foi menos fraca em todas as comparações.

Os dados nacionais da PMC mostram que seis das oito atividades do varejo nacional amargaram perda de vendas, em dezembro: artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria (-5,1%); livros, jornais, revistas e papelaria (-2%); artigos de uso pessoal e doméstico (-1,8%); móveis e eletrodomésticos (-0,7%); tecidos, vestuário e calçados (-0,4%); e hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (-0,3%). Os dados positivos se limitaram aos segmentos de equipamentos e material para escritório, informática e comunicação (+6%); e combustíveis e lubrificantes (+0,3%).

 

Incertezas e cautela

O chefe de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques, reforça que, embora tenha fechado o ano com saldo positivo, o Amazonas demonstrou “nítida desaceleração” nos últimos meses de 2025. “Dezembro foi marcado por uma retração expressiva, a mais acentuada em quase um ano. Já o resultado anual avançou de forma mais contida que a média nacional, evidenciando obstáculos mais severos que a maioria das outras unidades federativas. E a média móvel trimestral aponta para uma trajetória de declínio, sugerindo cenário de cautela para este ano”, frisou. 

Em texto postado no site da Agência de Notícias IBGE, o gerente da pesquisa, Cristiano Santos, salienta que a média nacional também perdeu força. “O setor fecha 2025 com aumento de 1,6% nas vendas do varejo, mas a amplitude foi menor. No ano anterior, o acumulado de ganhos chegou a 4,1%. O crescimento de 2025 foi razoavelmente distribuído, puxado pela farmacêutica, móveis e eletrodomésticos e equipamentos para escritório, informática e comunicação. Essa última foi fortemente influenciada pela significativa desvalorização do dólar frente ao real, que ajudou nas vendas de produtos eletrônicos importados, como celulares e laptops”, analisou. 

O presidente da ACA, Bruno Loureiro Pinheiro, disse à reportagem que o cenário apontado pelos números do IBGE já era esperado. Para o dirigente, o indicador demonstra que o consumo está contido e que o empresário “vem operando no limite”. “A queda de dezembro, mesmo com o apelo do Natal e um dia útil a mais, reforça que o problema é estrutural. O varejo amazonense é mais sensível ao crédito caro, ao endividamento das famílias, à renda pressionada e, sobretudo, ao elevado custo logístico, que impacta diretamente preços, margens e competitividade”, alertou. 

Segundo o presidente da Associação Comercial do Amazonas, o desempenho do varejo ampliado explicita que o consumidor está adiando compras de maior valor e evitando novas dívidas. “Quando até segmentos tradicionalmente resilientes apresentam retração, fica evidente um comportamento defensivo do mercado. A expectativa é de um primeiro semestre difícil, com crescimento baixo ou estagnação. No segundo semestre, além das incertezas econômicas, teremos um cenário atípico, com eleições, Copa número maior de feriados. O varejo do Amazonas não está em colapso, mas opera sob forte pressão. O momento exige cautela, ajuste de custos e ações concretas de estímulo à economia regional para evitar um agravamento do cenário”, finalizou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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