“Fogo amigo” é sustentar o falso argumento ambiental contra o interior do Amazonas

Em: 10 de março de 2026

O vídeo com as palavras de Gustavo Igrejas, ditas no Plenário da ALEAM, está no Portal www.thomazrural.com.br, sobre o qual faço o seguinte comentário:

Sem a menor necessidade, o “parêntese” e a citação de “fogo amigo” no discurso de Gustavo Igrejas chamaram minha atenção. Ele é da Suframa, atualmente está na SEDECTI e, na solenidade da SUFRAMA, representou o governador Wilson Lima.

Não é preciso uma tese de doutorado para compreender a realidade do Amazonas. Basta visitar o interior do estado para constatar o caos social e econômico instalado em 61 municípios. O modelo PIM/ZFM simplesmente não chegou ao interior — ninguém nega isso. O próprio Gustavo reconheceu, em seu discurso, a concentração do modelo na capital.

Faço questão de registrar: faço parte do grupo que não concorda com o argumento de que o modelo PIM/ZFM manteve a floresta em pé, porque essa afirmação não corresponde à realidade. Se nem mesmo a capital — que abriga o modelo — conseguiu preservar seus próprios igarapés, hoje em sua esmagadora maioria poluídos e mortos, com que autoridade técnica ou moral se pode afirmar que esse mesmo modelo é o grande guardião ambiental do interior do Amazonas?

Esse argumento simplesmente não se sustenta diante dos fatos.

Isso não significa, em hipótese alguma, diminuir a importância do modelo. Ao contrário. Nunca deixei e nunca deixarei de enaltecer o modelo econômico que sustenta o meu Amazonas, responsável por milhares de empregos, pela arrecadação e pela própria dinâmica econômica da capital.

O problema não é o modelo. O problema é tentar sustentá-lo com uma narrativa que não resiste ao confronto com a realidade social do interior e com os próprios indicadores ambientais de Manaus.

A ideia de que o PIM/ZFM beneficiou todo o Amazonas e levou desenvolvimento para todos é uma construção conveniente, que acabou se tornando o sonho de consumo de falsos ambientalistas especialistas em captar recursos internacionais para “manter o que já está em pé”, seja nos Estados Unidos, seja em países da Europa.

Se essa narrativa for usada como uma “bengala” para responder a críticos de fora — especialmente alguns paulistas que atacam o modelo sem conhecer a Amazônia — até se pode compreender, pois muitos desconhecem completamente a realidade da região. Pode até colar. Mas já li no O Globo a desconstrução dessa narrativa. Nenhuma mentira dura para sempre.

Transformar isso em verdade absoluta, porém, é um erro grave.

Quem não é amazonense raiz — especialmente aliados de ONGs — está usando exatamente esse argumento de que o PIM/ZFM gera renda para todo o Estado e manteve a floresta em pé para travar diversas atividades econômicas no interior, espalhando pelo Brasil e pelo mundo a falsa ideia de que o modelo PIM/ZFM já levou dignidade aos quatro milhões de habitantes do Amazonas.

Sabemos que isso não corresponde à realidade.

Isso é grave, muito grave, para um interior que acaba sendo empurrado para o narcotráfico e para a prostituição como alternativas de sobrevivência.

Não acredito que haja qualquer maldade nas palavras do botafoguense Gustavo Igrejas. Mas é preciso reconhecer que essa narrativa equivocada acaba sendo utilizada para engessar e sufocar o desenvolvimento do interior do estado.

 

10.03.2026

Thomaz Meirelles, jornalista, administrador, servidor público federal, especialista na gestão da informação ao agronegócio. E-mail: [email protected] ou [email protected]

Thomaz Meirelles

Servidor público federal aposentado, administrador, especialização na gestão da informação ao agronegócio. E-mail: [email protected]
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