Quem diria que Romeu e Julieta viriam até Parintins. Pois virão, no musical ‘Romeu e Julieta de Parintins – ecos da selva’, que será apresentado nos próximos dias 26, 27 e 28, quinta, sexta e sábado, no Teatro Amazonas, encenada pela Buia Teatro Company.
Com patrocínio da Petrobras, por meio do programa Petrobras Cultural, e do Ministério da Cultura, via Lei Rouanet, o espetáculo (com classificação livre) contará com cinco sessões, todas com tradução em Libras e audiodescrição. A primeira acontece na quinta-feira, às 20h, e as demais na sexta-feira e no sábado, às 16h e às 20h.
A história do amor proibido de Romeu, do boi Caprichoso, e de Julieta, do Garantido, traz uma narrativa conduzida pela música, com texto e composições originais de Tim Rescala. Na entrevista, a seguir, ao Jornal do Commercio, Tércio Silva, dramaturgo, diretor teatral e junto com a atriz, figurinista e artista visual Maria Hagge, fundador da Buia Teatro Company, falou mais sobre o espetáculo.

Jornal do Commercio: Quem teve a ideia de escrever a peça ‘Romeu e Julieta de Parintins’?
Tércio Silva: A ideia de criar o musical nasceu de um desejo antigo da Buia Teatro de aproximar grandes clássicos da dramaturgia universal do imaginário amazônico. A virada aconteceu quando percebemos a força simbólica do Festival de Parintins, especialmente na rivalidade entre Garantido e Caprichoso, como uma chave dramatúrgica muito próxima da estrutura de conflito entre as famílias Capuleto e Montecchio. A partir daí, a adaptação se tornou inevitável.
JC: Você se ‘assustou’ ao ver que poderia fazer uma peça com Garantido e Caprichoso cuja rivalidade é, tirando as devidas proporções, a mesma entre as famílias Capuleto e Montecchio?
TS: Não foi exatamente um susto, mas um encantamento. Ao perceber essa correspondência, ficou claro que não se tratava apenas de uma adaptação estética, mas de uma transposição profunda de sentido. A rivalidade dos bois já carrega em si uma dimensão épica, popular e emocional que dialoga diretamente com Shakespeare. O desafio passou a ser honrar essa força sem perder a delicadeza da história.
JC: Em quais momentos ‘Romeu e Julieta de Parintins’ é totalmente igual a ‘Romeu e Julieta’, de Shakespeare?
TS: A estrutura central da obra é preservada: o encontro dos amantes, o amor proibido, o conflito entre os grupos rivais, as tentativas de mediação e o desenrolar trágico da narrativa. Mantemos também personagens-chave e a progressão dramática essencial. No entanto, tudo é recriado a partir da linguagem do boi-bumbá, da musicalidade amazônica e de uma abordagem contemporânea voltada também para as infâncias.
JC: Desde quando estão trabalhando na produção da peça e quando começaram os ensaios?
TS: O projeto começou a ser desenvolvido em 2025, a partir de uma pesquisa dramatúrgica e conceitual. Os ensaios estão acontecendo dentro do cronograma de montagem, acompanhando o desenvolvimento musical e cênico, em um processo integrado entre direção, elenco e equipe criativa.
JC: Além de Manaus, já tem outras cidades agendadas para apresentação da peça? Parintins está na lista?
TS: Sim, o projeto nasce com vocação de circulação nacional. Já estamos articulando apresentações em diferentes cidades do Brasil, especialmente em centros culturais importantes. Parintins, sem dúvida, é um desejo muito forte da companhia e aparece no horizonte como um lugar simbólico essencial para a obra.
JC: A música é do compositor carioca Tim Rescala. São toadas?
TS: A música é assinada por Tim Rescala, um dos grandes compositores do teatro musical e da ópera brasileira. A trilha não dialoga diretamente com o universo das toadas. É uma composição original que mistura referências do boi-bumbá com uma linguagem contemporânea. É a brasilidade falando mais alto, criando uma sonoridade própria para o espetáculo.
JC: Dê um spoiler. O final de ‘Romeu e Julieta de Parintins’ também é trágico?
TS: Posso adiantar que o espetáculo preserva a força emocional do original, mas busca construir uma experiência que dialogue com o público de hoje, especialmente com crianças e jovens. O desfecho carrega intensidade e reflexão, mas também abre espaço para outras possibilidades de leitura e sentimento. Não seria possível montar ‘Romeu e Julieta’ em 2026, nessa nova Verona tupiniquim que, no nosso caso, é a ilha de Parintins, sem considerar toda a força simbólica, afetiva e histórica que envolve o universo do boi.
Dez anos de estrada
A Buia Teatro Company, fundada em 2015, em Manaus, por Tércio Silva e Maria Hagge, é uma companhia dedicada à pesquisa, à criação e à difusão do teatro para crianças. Reconhecida nacionalmente, a Buia desenvolve obras que articulam estética contemporânea, pensamento crítico e uma escuta sensível do público infantil. Em 2022, recebeu o Prêmio Cenym de Melhor Grupo de Teatro do Brasil. Seus espetáculos circulam por importantes festivais e centros culturais, consolidando a companhia como uma das principais referências do teatro para crianças no país.







