Romeu e Julieta em Parintins?

Em: 25 de março de 2026
Buia Teatro Company encenará um dos maiores clássicos do teatro mundial revivido na Ilha Tupinambarana.
Tércio, "a rivalidade dos bois já carrega em si uma dimensão épica, popular e emocional"
Tércio, "a rivalidade dos bois já carrega em si uma dimensão épica, popular e emocional"

Quem diria que Romeu e Julieta viriam até Parintins. Pois virão, no musical ‘Romeu e Julieta de Parintins – ecos da selva’, que será apresentado nos próximos dias 26, 27 e 28, quinta, sexta e sábado, no Teatro Amazonas, encenada pela Buia Teatro Company.

Com patrocínio da Petrobras, por meio do programa Petrobras Cultural, e do Ministério da Cultura, via Lei Rouanet, o espetáculo (com classificação livre) contará com cinco sessões, todas com tradução em Libras e audiodescrição. A primeira acontece na quinta-feira, às 20h, e as demais na sexta-feira e no sábado, às 16h e às 20h.

A história do amor proibido de Romeu, do boi Caprichoso, e de Julieta, do Garantido, traz uma narrativa conduzida pela música, com texto e composições originais de Tim Rescala. Na entrevista, a seguir, ao Jornal do Commercio, Tércio Silva, dramaturgo, diretor teatral e junto com a atriz, figurinista e artista visual Maria Hagge, fundador da Buia Teatro Company, falou mais sobre o espetáculo.

"A história do amor proibido de Romeu, do boi Caprichoso, e de Julieta, do Garantido, traz uma narrativa conduzida pela música."
“A história do amor proibido de Romeu, do boi Caprichoso, e de Julieta, do Garantido, traz uma narrativa conduzida pela música.”

Jornal do Commercio: Quem teve a ideia de escrever a peça ‘Romeu e Julieta de Parintins’?

Tércio Silva: A ideia de criar o musical nasceu de um desejo antigo da Buia Teatro de aproximar grandes clássicos da dramaturgia universal do imaginário amazônico. A virada aconteceu quando percebemos a força simbólica do Festival de Parintins, especialmente na rivalidade entre Garantido e Caprichoso, como uma chave dramatúrgica muito próxima da estrutura de conflito entre as famílias Capuleto e Montecchio. A partir daí, a adaptação se tornou inevitável.

 

JC: Você se ‘assustou’ ao ver que poderia fazer uma peça com Garantido e Caprichoso cuja rivalidade é, tirando as devidas proporções, a mesma entre as famílias Capuleto e Montecchio?

TS: Não foi exatamente um susto, mas um encantamento. Ao perceber essa correspondência, ficou claro que não se tratava apenas de uma adaptação estética, mas de uma transposição profunda de sentido. A rivalidade dos bois já carrega em si uma dimensão épica, popular e emocional que dialoga diretamente com Shakespeare. O desafio passou a ser honrar essa força sem perder a delicadeza da história.

 

JC: Em quais momentos ‘Romeu e Julieta de Parintins’ é totalmente igual a ‘Romeu e Julieta’, de Shakespeare?

TS: A estrutura central da obra é preservada: o encontro dos amantes, o amor proibido, o conflito entre os grupos rivais, as tentativas de mediação e o desenrolar trágico da narrativa. Mantemos também personagens-chave e a progressão dramática essencial. No entanto, tudo é recriado a partir da linguagem do boi-bumbá, da musicalidade amazônica e de uma abordagem contemporânea voltada também para as infâncias.

 

JC: Desde quando estão trabalhando na produção da peça e quando começaram os ensaios?

TS: O projeto começou a ser desenvolvido em 2025, a partir de uma pesquisa dramatúrgica e conceitual. Os ensaios estão acontecendo dentro do cronograma de montagem, acompanhando o desenvolvimento musical e cênico, em um processo integrado entre direção, elenco e equipe criativa.

 

JC: Além de Manaus, já tem outras cidades agendadas para apresentação da peça? Parintins está na lista? 

TS: Sim, o projeto nasce com vocação de circulação nacional. Já estamos articulando apresentações em diferentes cidades do Brasil, especialmente em centros culturais importantes. Parintins, sem dúvida, é um desejo muito forte da companhia e aparece no horizonte como um lugar simbólico essencial para a obra.

 

JC: A música é do compositor carioca Tim Rescala. São toadas?  

TS: A música é assinada por Tim Rescala, um dos grandes compositores do teatro musical e da ópera brasileira. A trilha não dialoga diretamente com o universo das toadas. É uma composição original que mistura referências do boi-bumbá com uma linguagem contemporânea. É a brasilidade falando mais alto, criando uma sonoridade própria para o espetáculo.

 

JC: Dê um spoiler. O final de ‘Romeu e Julieta de Parintins’ também é trágico?

TS: Posso adiantar que o espetáculo preserva a força emocional do original, mas busca construir uma experiência que dialogue com o público de hoje, especialmente com crianças e jovens. O desfecho carrega intensidade e reflexão, mas também abre espaço para outras possibilidades de leitura e sentimento. Não seria possível montar ‘Romeu e Julieta’ em 2026, nessa nova Verona tupiniquim que, no nosso caso, é a ilha de Parintins, sem considerar toda a força simbólica, afetiva e histórica que envolve o universo do boi.

 

 

Dez anos de estrada

A Buia Teatro Company, fundada em 2015, em Manaus, por Tércio Silva e Maria Hagge, é uma companhia dedicada à pesquisa, à criação e à difusão do teatro para crianças. Reconhecida nacionalmente, a Buia desenvolve obras que articulam estética contemporânea, pensamento crítico e uma escuta sensível do público infantil. Em 2022, recebeu o Prêmio Cenym de Melhor Grupo de Teatro do Brasil. Seus espetáculos circulam por importantes festivais e centros culturais, consolidando a companhia como uma das principais referências do teatro para crianças no país.

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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