O Amazonas já se prepara para a eventualidade de uma seca mais severa neste ano, em função dos sinais mais recentes, captados por órgãos oficiais. Em função desse cenário, A Sedecti e a Defesa Civil do Amazonas promovem, nesta terça (14), uma reunião com lideranças da indústria, comércio, serviços e agropecuária, para tratar das previsões e orientações relacionadas à cheia e à vazante, que vêm sofrendo impactos significativos das mudanças climáticas globais. O foco do encontro é a troca de informações e o alinhamento de estratégias entre o poder público e o setor produtivo, para ampliar a capacidade de planejamento e reduzir a possibilidade de impactos negativos.
Lideranças empresariais ouvidas pela reportagem informam que irão tomar conhecimento das informações fornecidas pelo Executivo estadual e, caso necessário, encaminhar pleitos para reduzir eventuais sinistros. Nos últimos anos, a indústria vem se preparando para não ficar sem partes e peças, durante o período de descida dos rios, por meio da formação de estoques preventivos. Tais ações, por outro lado, são mais pontuais no comércio e serviços – que têm mix de empresas de menor porte e musculatura. Por conta desse diferencial, a ACA (Associação Comercial do Amazonas) já está solicitando medidas tributárias emergenciais ao governo estadual.
Embora ainda seja cedo para precisar o cenário hidrológico efetivo da segunda metade do ano – período de aquecimento de vendas –, o setor produtivo teme pela repetição de uma conjuntura semelhante às de 2023 e de 2024. Dados do Cieam (Centro da Indústria do Estado do Amazonas) informam que as estiagens recordes de 2023 e 2024 custaram ao Polo Industrial de Manaus R$ 1,40 bilhão e R$ 1,50 bilhão, respectivamente, apenas em termos de custos logísticos e aduaneiros. Não há levantamento semelhante para os demais setores econômicos, mas as lideranças são unânimes em apontar os impactos negativos da seca nos indicadores de produção, vendas e empregos.
“Situação de atenção”
Divulgado em 31 de março, pela SGB, o 1º Alerta de Cheias do Amazonas 2026 aponta que a cheia deve ficar “dentro da média” na capital amazonense, em um contexto de La Niña mais fraca. A estimativa para o Rio Negro é de 28,3 metros, entre a cota de “inundação” (27,5 metros) e de “inundação severa” (29 metros). O monitoramento indica níveis elevados nos rios Amazonas, Solimões, Juruá e Purus, com municípios em alerta. Mais de 112 mil pessoas foram afetadas, apesar das ações preventivas para proteger moradores, com impactos na produção rural e mobilidade no interior.
A expectativa da Superintendência Regional do Serviço Geológico do Brasil para a vazante de 2026, no entanto, já é de patamar “severo”, embora esperem-se informações mais precisas sobre o fenômeno somente a partir de agosto. A justificativa apresentada está na redução da incidência das chuvas nas cabeceiras dos rios amazônicos, e também no fim do pico de cheia em áreas significativas para a elevação das águas no entorno da cidade – a exemplo de Tabatinga (situada a 1.114 km de Manaus). Os próximos monitoramentos estão agendados para 30 de abril e 29 de maio.
As sondagens do Inpa, por outro lado, apontam “situação de atenção” para a ocorrência de chuvas na segunda metade do ano. A projeção do Instituto de Pesquisas da Amazônia é que, nos próximos três meses, o nível de precipitação vai se manter “dentro da normalidade”, em razão dos “acúmulos do primeiro trimestre”. O cenário, daí em diante, é de maior preocupação. Em matéria publicada no jornal “A Crítica”, o pesquisador do Inpa, Rento Senna, destaca que as condições de evolução no oceano Atlântico devem influenciar a chuva no meio do ano em direção ao segundo semestre. “Nossa preocupação é que isso possa causar uma deficiência de chuva mais agravada”, frisou
Antecipação e previsibilidade
Trabalhando preventivamente com esse cenário de estiagem severa, a ACA está solicitando ao governo do Estado a adoção de medidas fiscais emergenciais. Em comunicado, a entidade empresarial alertou que a baixa dos rios impacta a logística, eleva custos e pressiona o capital de giro das empresas. Como solução, propõe a flexibilização do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), com parcelamento ou diferimento. As ações citadas foram aplicadas em 2024, pelos decretos nº 49.906/2024 e nº 50.389/2024, e conseguiram dar sobrevida ao comércio e serviços do Amazonas.
O presidente da Associação Comercial do Amazonas, Bruno Loureiro Pinheiro, reforça que as previsões para o segundo semestre indicam grandes chances de um cenário hidrológico adverso, e suas previsíveis consequências para a logística fluvial de Manaus. Por isso, enfatiza que tais medidas são essenciais para minimizar os impactos no capital de giro das empresas, garantindo abastecimento e estabilidade econômica. “A estiagem aumenta custos e exige antecipação de estoques. Precisamos de previsibilidade para manter a economia funcionando”, justificou, acrescentando que a ACA se coloca à disposição do Executivo para colaborar tecnicamente na construção das medidas.
O presidente da Fieam, Antonio Silva, disse à reportagem que a indústria acompanha o cenário hidrológico com “extrema prudência”. “A expectativa é que a reunião estabeleça um diagnóstico técnico e realista. Nosso principal pleito está na garantia da previsibilidade logística para o escoar a produção e receber insumos. Pretendemos reforçar a urgência de um plano de contingência integrado, que inclua máxima celeridade no licenciamento e execução de dragagens preventivas nos trechos críticos, além da estruturação antecipada de rotas alternativas. A experiência do último ano evidenciou a necessidade de medidas estruturantes e ágeis. Nossa postura não é de alarmismo, mas de articulação responsável”, salientou.
O presidente da Faea (Federação da Agricultura e Pecuária do Amazonas), Muni Lourenço, confirmou à reportagem que irá acompanhar a reunião de hoje sobre a cheia e previsões da vazante. “Iremos analisar as informações dos órgãos oficias. Em se confirmando uma seca acima da normalidade, a Faea poderá pleitear perante os governos medidas mitigadoras do impacto social e econômico que porventura venha a ocorrer em relação ao setor agropecuário e ao interior do Estado. Seriam medidas visando a navegabilidade de rios, ações humanitárias a comunidades rurais, renegociação de dívidas rurais, etc”, arrematou.







