Um homem rejeitado por uma adolescente a matou de forma cruel. Não. Isso não aconteceu ontem. A tragédia se deu em 1901, com Etelvina de Alencar, e infelizmente se repete até hoje, com outras mulheres.
A história de Etelvina de Alencar, ‘canonizada’ pelos manauaras como santa Etelvina, imigrante cearense que veio para Manaus com a mãe e morava na Colônia Campos Salles, onde hoje é o bairro de Santa Etelvina, será mostrada hoje, 15, às 20h, na estreia do documentário ‘Etelvina – a ressignificação da tragédia’, do diretor Cleinaldo Marinho.
A exibição acontecerá numa estrutura montada na alameda central do cemitério São João Batista, em frente à capela, com entrada pelo Boulevard Álvaro Maia. O local inusitado se deve ao fato de o túmulo de Etelvina estar localizado neste cemitério e ser um dos mais visitados pelos fieis que acreditam em seus milagres.
“Resolvi filmar a tragédia de Etelvina porque uma cidade que destrói sua arquitetura e ignora seus personagens históricos empobrece o próprio futuro. O resgate de histórias como a dela é também a reconstrução da identidade e do pertencimento. Há, nesse contexto, a violência contra a mulher em toda a sua dimensão estrutural: o controle, a posse e a dominação que tornavam possível interromper a vida de uma mulher sem que isso abalasse a ordem das coisas”, falou Cleinaldo.

Em Manaus é muito difícil conseguir documentos que registrem a história de fatos passados. Para atingir a fidelidade de uma história ocorrida há 125 anos, Cleinaldo fez o cruzamento de diferentes fontes: pesquisas nos arquivos da Biblioteca Estadual, no cemitério São João Batista, na hemeroteca da Biblioteca Nacional, realizou entrevistas, além de levantamentos junto ao Tribunal de Justiça do Amazonas e ainda visitou inúmeras vezes o túmulo de Etelvina e o bairro que leva seu nome, “onde a memória persiste e se mantém viva por meio da devoção, ainda que de poucos populares”, disse.
Feminicídio secular
Como muitos nordestinos que rumaram para a Amazônia, entre 1890 e 1910, atraídos por dias melhores na exploração da borracha, Etelvina veio para Manaus, com a mãe viúva e três irmãs indo morar na Colônia Campos Salles, área agrícola criada pelo Governo do Estado, em 1899, para abrigar imigrantes. Em 1901, então com 16 anos, Etelvina atraiu o olhar dos homens da Colônia prometendo a um deles, José, casamento. Quando a garota desfez a promessa e José descobriu que ela namorava com outros três colonos, Estevam, Henrique e Antônio, teve início a desgraça, que você verá em ‘Etelvina – a ressignificação da tragédia’.

Para o diretor, a obra não pretende encerrar a história, mas abrir caminhos de reflexão sobre memória, violência, fé e construção social de narrativas.
“É também um convite a pensar como transformamos a dor em significado e como determinadas histórias persistem não apenas pelo que aconteceu, mas pelo que passam a representar”, comentou.
As cenas do documentário foram filmadas num grande galpão, transformado em set de filmagem, onde foi montado todo o projeto cenográfico e estruturados os ambientes para recriar a Colônia Campos Salles, que ficava cercada pela floresta intocada daquela época.
“Etelvina – a ressignificação da tragédia’ é um projeto contemplado pelo edital de audiovisual da Lei Paulo Gustavo, via Concultura.
Ária Ramos
Outro documentário realizado por Cleinaldo, ‘Ária – fazendo a vida viver”, também será exibido hoje, e é sobre outra adolescente, Ária Paraense Ramos, de 18 anos, envolta numa morte ocorrida no Carnaval de 1915, igualmente tendo na cena dois homens apaixonados, muito embora a tragédia tenha sido considerada um tiro acidental e fatal.

“Trata-se de um projeto cinematográfico ficcional, baseado em fatos, que retrata a vida de Ária Ramos. O filme valoriza a memória histórica, social e cultural da cidade, ao mesmo tempo em que revisita um crime tratado na época como ‘um tiro de amor’. A obra propõe uma reflexão sobre a violência contra as mulheres e a forma como essas narrativas foram naturalizadas ao longo do tempo, utilizando o cinema como instrumento de preservação da memória e transformação social”, explicou.
‘Ária’ teve sua estreia em fevereiro de 2025, e percorre festivais até hoje, já tendo sido premiado em diversas categorias.
Ária Ramos, assim como Etelvina, está enterrada no cemitério São João Batista e seu túmulo, um dos mais bonitos do local, apresenta uma estátua representando a jovem violinista quase em tamanho natural.
A atriz Rosana Neves, que já havia trabalhado com Cleinaldo em ‘Ária’, retorna agora como protagonista em ‘Etelvina’.
“Foi um processo de descoberta, construção e responsabilidade. O que fica para mim é a força dessa mulher, que passa a fazer parte da minha história como atriz”, revelou.
“É importante ressaltar a nossa criação cinematográfica como instrumento de preservação da história e da memória do nosso lugar, para que não caiam no esquecimento o posicionamento em defesa das mulheres e a denúncia da violência contra elas”, finalizou Cleinaldo.






