A prestação de serviços no Amazonas ganhou impulso em março, em sentido inverso ao da média nacional. Mas, diferente desta, ainda não conseguiu sair do vermelho. Favorecido por três dias úteis a mais, o setor subiu 0,3% na passagem fevereiro para março, em movimento suficiente para eliminar a perda anterior (-0,1%). O confronto com março de 2025, contudo, resultou na quarta maior queda do Brasil (-3,9%), somando-se ao tombo de fevereiro (-7,6%). Com isso, os serviços amazonenses continuaram patinando no trimestre (-2,6%) e amargaram o pior desempenho do país no acumulado dos 12 meses (-2,5%).
Os serviços de todo o país se saíram melhor nas comparações de longo prazo. O ritmo regrediu 1,2% na margem, em resultado disseminado em todas as cinco atividades – principalmente os transportes (-1,7%) – e 13 das 27 unidades federativas do país. Houve, contudo, elevação de 3% ante março de 2025, a 24ª seguida. O desempenho foi induzido por quatro subsetores – com destaque para “informação e comunicação” (+7,9%) – e 51,8% dos 166 tipos de serviços investigados. O trimestre subiu 2,3% e o aglutinado dos 12 meses cresceu 2,8%. Os números são da PMS (Pesquisa Mensal de Serviços), do IBGE.
O turismo, que é contabilizado a parte, também perdeu velocidade. Entre fevereiro e março, o Amazonas declinou 4,2% no IATUR (Índice de Atividades Turísticas), que mede os segmentos de alojamento, alimentação, aluguéis não imobiliários, locação de automóveis, agências de viagens, operadoras turísticas e transporte coletivo. Em janeiro, a atividade já havia tropeçado 1,5%. O Estado, contudo, ainda cresceu 3,2% ante o mesmo mês de 2025, mantendo o trimestre (+5,4%) no terceiro lugar do ranking. No acumulado dos 12 meses (+10,8%), o Estado ainda desponta na vice-liderança nacional. Já a média brasileira (-4%, -3,9%, +0,9% e +3,5%) se saiu comparativamente pior.
Estados e atividades
Segundo o IBGE, o acréscimo de 0,3% perante fevereiro fez os serviços do Amazonas galgaram da 17ª para a décima posição em todo o país, empatando com Sergipe e Paraná. O melhor número veio do Distrito Federal (+10,3%) e o pior, do Mato Grosso do Sul (-6%). Em relação a março do exercício anterior, os serviços amazonenses (-3,9%) passaram 25ª para a 24ªcolocação, em lista iniciada pelo Distrito Federal (+16,2%) e encerrada por Acre (-11,2%). O Estado figura no 20º lugar no comparativo do trimestre (-2,6%) e já está na última posição do ranking do aglutinado dos 12 meses (-2,5%) – tendo também o Distrito Federal (+8,5%) na outra ponta.
O fortalecimento do IPCA de março (+0,88%) evidenciou o descolamento das vendas efetivas em relação à receita nominal dos serviços do Amazonas, principalmente nas comparações de longo prazo. Vale notar que essa diferença é maior no Amazonas do que na média do país, e se tornou mais pesada após a crise hídrica da vazante. O faturamento, nessa medida, encolheu 0,6% na variação mensal, enquanto a comparação com fevereiro de 2025 apresentou incremento de 1,3%. As vendas brutas subiram 0,7%, de janeiro a março, e aumentaram 1%, nos 12 meses. O Estado ficou atrás da média nacional (-0,6%, +8,5%, +6,8% e +7,4%) em praticamente todas as comparações.
O IBGE-AM reforça que, em virtude do tamanho da amostragem, a pesquisa no Amazonas ainda não apresenta os dados desagregados por segmentos de serviços. Em âmbito nacional, a redução de 1,2% observada na PMS de março foi induzida por todos os cinco subsetores acompanhados pelo órgão de pesquisa. A maior influência veio da divisão de transportes, serviços auxiliares e correio (-1,7%), seguida por serviços profissionais, administrativos e complementares (-1,1%), informação e comunicação (-0,9%), “outros serviços” (-2%) e serviços prestados às famílias (-1,5%).
“Momento crítico”
Em texto veiculado pelo site da Agência de Notícias IBGE, o analista da pesquisa, Luiz Carlos de Almeida Junior, assinala que os serviços brasileiros retrocederam em quatro dos cinco últimos meses encerrados em março. “O setor acumula queda de 1,7% desde outubro de 2025, quando atingiu o ponto mais alto da série. O setor de transportes foi o principal responsável pela queda observada no Brasil, sendo influenciado principalmente pela queda observada no transporte rodoviário de cargas e no transporte aéreo de passageiros”, explicou o analista da pesquisa Luiz Carlos de Almeida Junior.
Em vídeo, o chefe de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques, enfatiza que, embora tenham mostrado reação na margem, atividade ainda enfrenta dificuldades no Amazonas, quando comparada aos dados de 2025. “O trimestre aponta para o momento mais crítico do ano, e o resultado consolidado em 12 meses confirma que os serviços amazonenses vivem seu período de maior retração do histórico recente. Em resumo, a situação entrou em descendente, com acumulados cada vez mais negativos. O turismo ainda tem saldo, mas seu desempenho mensal, pelo segundo mês seguido foi negativo”, alertou.
Guerra e vazante
A ex-presidente do Corecon-AM e professora do departamento de Economia da Ufam, Michele Lins Aracaty e Silva, enfatiza à reportagem que a prestação de serviços é o motor da economia com peso de 60% do PIB nacional e destaque também no Amazonas. Na análise da economista, o cenário macroeconômico atual, tende a ser ainda mais desfavorecido pelos impactos da guerra no Oriente Médio e pela estiagem, imponto novos desafios à recuperação do setor no Estado.
“O resultado está dentro do esperado pelos analistas e reflete uma conjuntura de renda comprometida por endividamento, pagamento de dívidas e crédito caro em função da taxa de juros elevada. Para os próximos meses, a expectativa é de um cenário nacional com tendência de instabilidade mediante a indefinição do mercado internacional, ainda impactado pelo conflito internacional. Já no âmbito regional, a previsão de um ‘super El Niño’, com seus efeitos na navegação regional, poderá dificultar a recuperação do setor, contribuindo para esvaziar a atividade econômica do Amazonas”, alertou.
Na mais recente entrevista concedida a reportagem sobre o tema, o presidente em exercício da Fecomercio-AM, Aderson Frota, ressaltou à reportagem a força e a importância dos serviços para o Amazonas. O dirigente lembrou que o setor amargou dificuldades nos meses finais de 2025, em função do peso dos juros, e sofreu com as chuvas e a sazonalidade negativa do começo do ano, período – período em que parte significativa da população viaja para fora de Manaus. Mas, reforçou que a tendência é de recuperação nos próximos meses, principalmente para o turismo. “Isso resulta do esforço das empresas e nos deixa mais otimistas, apesar do quadro ainda de dificuldades da economia e do cenário internacional de guerra”, arrematou.







