Consumidor freia gastos em Manaus

Em: 2 de junho de 2026
Pesquisa aponta alta preocupação com preços, endividamento e cenário econômico incerto entre os manauaras.
Consumidores adotam cautela diante da alta dos preços. (Acervo JC)
Consumidores adotam cautela diante da alta dos preços. (Acervo JC)

Pesquisa do Ifpeam (Instituto Fecomercio de Pesquisas Empresariais do Amazonas) aponta que sete em cada dez manauaras estão “um pouco” (42%) ou “muito mais” (28%) mais preocupados com o aumento dos preços, neste ano. Nada menos do que 71% se mostram mais sensíveis aos valores cobrados pelo comércio, na hora de se decidirem pela compra ou não. O levantamento reflete o cenário atual de repique inflacionário impactado pela guerra no Oriente Médio e seus efeitos na precificação de combustíveis, fertilizantes e outros insumos básicos. Nada menos do que 70% dos entrevistados se mostra preocupada com a conjuntura geopolítica.

Em ano eleitoral, 83% percebem o cenário como ainda mais volátil e incerto. E nem mesmo a Copa, que tradicionalmente levar mais pessoas às compras, aparece como trunfo para o varejo: 62% dizem que o mundial tende a impactar pouco ou nada em seus hábitos de consumo. Principalmente porque 61% dos entrevistados estão endividados, sendo que 29% não sabem como sair dessa situação. Apenas 16% têm dinheiro guardado. Como consequência, 76% dos manauaras pretendem controlar seus gastos. A estratégia inclui focar mais nas promoções (27%) e nas lojas com preços mais em conta (25%), além de reduzir as compras por impulso (19%).

“Mais da metade dos consumidores estão mais preocupados com os custos. Esta atenção redobrada com o planejamento financeiro consolida a postura de repriorização, que já se desenvolvia em 2025. Este resultado também é um indicador da sensação de segurança. Quando mais da metade diz estar mais preocupada do que um ano atrás, isso indica que o consumidor percebe o cenário como instável. O ponto central aqui é psicológico: o consumidor opera em modo defensivo”, sintetizou o Ifpeam, no texto da pesquisa, acrescentando que a intenção de contenção de gastos em 87% indica que 2026 tende a ser “ano de disciplina” para o consumidor.

 

Copa e feriados

Dentro da maioria dos entrevistados que avisa que vai controlar os gastos, além de pechinchar e evitar compras por impulso, a ordem do dia inclui “cortar custos com serviços e assinaturas” (15%); “deixar de almoçar fora ou pedir delivery” (14%); “trocar marcas por opções mais baratas” (14%); e “trocar meio de transporte por algo mais barato” (5%). “O consumidor não está apenas economizando, mas mudando seu sistema de decisão. Isso significa redução do consumo emocional e aumento do consumo racional. E aponta para um consumidor mais consciente, com a compra se tornando mais estratégica e menos automática”, pontuou o Ifpeam.

Entre a minoria de 8% que informa pretender elevar gastos, os planos incluem “estudar” (41%); “mais compras em supermercados” (40%); “viajar” (28%); “comprar um carro” (25%); “mais serviços e assinaturas, etc” (23%); “comprar um apartamento” (19%); “casar ou fazer uma grande festa” (9%); e “morar em lugar com aluguel mais caro” (4%). “O destaque para viagens e estudos pode indicar priorização de experiências e investimentos pessoais, enquanto o crescimento previsto nas compras de supermercado pode refletir diferentes ajustes no cotidiano – desde maior valorização do consumo em casa, até a redistribuição de gastos que aconteciam fora do lar”, assinalou o Ifpeam.

A Copa atrai a atenção de 25% dos entrevistados e 13% se dizem neutros. Dentro do público minoritário que espera gastar durante o evento, predominam as intenções de consumo com bebida e comida (51%), em detrimento de roupas/acessórios (38%), festas/eventos (35%), internet/streaming (17%), transporte (12%), eletrodomésticos (12%) e viagens até os países sede do mundial (4%). Os feriados do ano, por outro lado, são vistos como fator que tende a aumentar gastos para 40%, ou pelo menos redistribuir dispêndios (24%), sinalizando maior propensão marginal ao lazer, viagens curtas e alimentação fora do lar, para esse público.

 

Juros e cautela

O presidente em exercício da Fecomercio-AM, Aderson Frota, informa à reportagem que a sondagem visou traçar um perfil mais detalhado, consistente e acionável do consumidor local, submetido a uma nova lógica de gastar melhor. “Buscamos conhecer suas perspectivas, exigências e o que realmente busca nos eventos comerciais do ano. Isso nos permitiu fazer um mapeamento e concluir que o consumidor atual, tem maior cautela nas compras e planeja mais financeiramente. Não é mais aquele consumidor que se deslocava pelo comércio sem planejamento, sem perceber dificuldades de estacionamento ou adotar muita racionalidade em matéria de ofertas e preços”, avaliou. 

O dirigente reforça que o motor do maior controle dos gastos do manauara é seu elevado nível de endividamento e, eventualmente, de inadimplência. “As famílias estão mais conscientes e entendendo as dificuldades promovidas pelos altos juros bancários. Principalmente os juros de mora do cartão de crédito. Por isso, o consumidor está mais planejador e segurando muito mais o seu ímpeto de compra, mesmo nas datas festivas. A pesquisa mostrou um consumidor mais ciente da necessidade de se organizar e respeitar seu orçamento”, enfatizou, acrescentando que tais informações ajudam os comerciantes a se posicionar melhor nesse cenário.

Na mesma linha, o economista da Fecomercio-AM, Max Cohen, destaca à reportagem que a pesquisa em questão apresenta perspectiva diferente das demais realizadas pelo Ifpeam. “Ela apresenta uma divisão de consumidores entre dois blocos: um mais preocupado com o endividamento, e outro menos. É interessante ver que os entrevistados, pelas respostas fornecidas, sabem medir a gravidade da situação econômico-financeira e conseguem moldar seu comportamento. Estamos em um momento de desaceleração da economia e é esperado um menor crescimento e, logo, menores vendas. E uma boa parte dos entrevistados sinaliza isso, ao dizer que vai controlar o seu consumo pois já possui dívidas acumuladas”, concluiu.

 

 

Saiba mais sobre a pesquisa

A pesquisa foi realizada com uma amostra de 1.204 consumidores do varejo de Manaus, que fizeram compras nos últimos 12 meses, e que são totalmente (54%) ou parcialmente (46%) responsáveis pelas compras da casa. Residentes em todas as zonas da cidade, os entrevistados foram ouvidos por meio de entrevistas pessoais presenciais, com apoio de formulário eletrônico em formato Google Forms. Mulheres são 55% e homens, 45%. As faixas etárias predominantes são as que vão de 25 a 29 anos (39%), e entre 30 e 39 anos (33%), seguidas por aqueles que têm de 40 a 49 anos (14%), entre 16 e 24 anos (10%), e acima dessa idade (4%). O Ifpeam não informou os recortes do público ouvido por renda, nível de educação e moradia.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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