João Guimarães Rosa advertiu: “não basta mudar os jogadores se não se mudar as regras do jogo”.
O Brasil foi palco há vinte anos de atuação delituosa de dirigente público, que lhe custou o governo.
Contudo, malgrado o escândalo e os rios de tinta gastos em profligar essa atuação, não se modificaram as regras do jogo.
Trocaram-se os jogadores, expulsando de campo o time responsável pelo escândalo e colocando, tempos depois, justamente seu então tido como oposto e maior adversário.
O que aconteceu? Em linhas gerais, as mesmas coisas, tanto para fazer caixa de campanha como para comprar adesão e votos de deputados para obter apoio legislativo, alguns (ou muitos) apoderando-se também das eufemisticamente denominadas “sobras de campanha”, nesse toma lá e dá cá favorecendo em licitações e publicidades oficiais os alimentadores e guarnecedores das caixinhas.
Não podem ser esquecidos, nessa prática, os demais concorrentes, um deles até inaugurando o esquema em nível estadual e outro adquirindo, pela mesma época, com pagamento em espécie, votos parlamentares para aprovação do sistema reeleitoral e, no momento, entre diversos esquemas corruptores, o do enrolado grupo do Distrito Federal.
A causa dessas e de outras práticas reside na necessidade de se amealhar dinheiro para enfrentar o extraordinário custo das campanhas eleitorais. Por baixo, hoje, mais de cem milhões de reais para a presidência da república e, conforme o caso, de dois a cinco milhões de reais, quando não mais e raramente menos, para a campanha a deputado federal. Kassab, o prefeito eleito de São Paulo, gastou R$ 29,7 milhões na campanha!
Quem, destituído de posses, de largas posses, e não se sujeitando a se tornar refém de financiamentos de grupos econômicos, pode enfrentar essas dispendiosas campanhas eleitorais?
É grave, além de antidemocrática, a impossibilidade da maioria esmagadora das pessoas não terem, nessas circunstâncias, condições financeiras para se candidatarem. Contudo, mesmo as tendo, para que e por que gastá-las?
Porém, é gravíssimo não tê-las, consegui-las e se elegerem. Quem, então, as financiou? Com que intuito? Para que?
Mark Twain, o célebre escritor estadunidense, afirmou que “Os Estados Unidos têm o melhor Congresso que o dinheiro pode comprar”. E o Brasil? E os demais países subdesenvolvidos e explorados de todas as maneiras e modos pelos desenvolvidos?
Perguntas, indagações, perplexidade.
Não adianta, pois, apenas (ressalte-se o apenas) deblaterar contra os autores e atores dessas tragédias vividas pelo Brasil. Já se fez isso – e até se foi às ruas – há anos atrás e não adiantou. Os rombos, as malversações, os desvios, os caixas dois até recrudesceram. Por quê? Porque não se mudaram as regras do jogo, que permaneceram incólumes e assim permanecerão se a sociedade apenas se limitar a se indignar e a deblaterar, não se interessando nem se esforçando para saber porque aconteceu tudo isso e, conhecidas as causas, não agir para extirpá-las, contentando-se apenas em apontar, processar, cassar, condenar e prender os desvairados jogadores sem alterar as regras do jogo.
É imprescindível, pois, que se pressione e se exija do Governo e do Congresso reforma político-partidária-eleitoral que democratize as organizações partidárias e impeça a orgia financeira das campanhas eleitorais, disciplinando-as rigorosamente e impedindo nelas quaisquer gastos particulares, próprios ou doados, substituindo-os pelo igualitário e única e verdadeiramente democrático financiamento público.
Só isso, porém, não vai melhorar de imediato a administração do país e a defesa, interna e externa, de seus interesses. Mas, é o primeiro passo. Sem ele, continuará o país a patinar no lodaçal da política fisiológica, oportunista, clientelista, carreirista e farisáica.
Não adianta combater os efeitos se não se extirparem as causas.
Mensalões: efeitos e causas
Em: 8 de abril de 2010
João Guimarães Rosa advertiu: “não basta mudar os jogadores se não se mudar as regras do jogo”
Redação
Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
Veja também

Missão comercial leva empresas brasileiras ao Paraguai e à Argentina
18 de setembro de 2026


Nanoempreendedor está livre do CNPJ Técnico
18 de setembro de 2026

‘Passagem secreta’ e mais de R$ 700 mil: o que a polícia encontrou na casa de Milton Leite
18 de setembro de 2026

Flávio Bolsonaro repete estratégia do pai e recruta ‘fiscais’ para as eleições
18 de setembro de 2026

Brasil terá programa Tax Free para devolver CBS e IBS a turistas estrangeiros
18 de setembro de 2026

Cultura no DNA: Titãs volta aos palcos da Nilton Lins após show histórico na década de 90
18 de setembro de 2026

Sindifisco-AM realiza palestra sobre equilíbrio fiscal e desenvolvimento econômico
18 de setembro de 2026