Excelência e padrão: interdependência (parte 1)

Em: 3 de agosto de 2010
Toda vez que ouço o Réquiem de Mozart (1756 -1791) sinto a alma elevada e por vezes me questiono como pode tanta genialidade
Toda vez que ouço o Réquiem de Mozart (1756 -1791) sinto a alma elevada e por vezes me questiono como pode tanta genialidade

Toda vez que ouço o Réquiem de Mozart (1756 -1791) sinto a alma elevada e por vezes me questiono como pode tanta genialidade. O que mais me impressiona é que mesmo após mais de duzentos anos desde que foi executada pela primeira vez essa mesma peça pode ser reproduzida hoje e, com certeza, ainda poderá ser ouvida pelas futuras gerações. Como que isso pode ser possível? Como uma orquestra, um coral, pode reproduzir a mesma obra escrita há séculos? Parte da resposta está na partitura que é mais que um documento, é a oficialização de um padrão, a garantia de que haverá repetibilidade de sons, tons e demais arranjos. Nós só desejamos que algo se repita quando é bom, quando é a melhor maneira de se realizar algo.
A excelência é a meta principal do padrão. Lembrando o que disse Aristóteles (384-322 a.C.), “Nós somos aquilo que fazemos repetidamente. Excelência, então, não é um modo de agir, mas um hábito”. Isso me faz pensar que talvez o padrão esteja mais presente em nossas vidas do que possamos supor. Se pararmos para observar, existe padrão em tudo: na natureza – é só observar as construções dos formigueiros ou a gravidade da terra; nas artes a escola acadêmica para compor um quadro faz uso das estruturas piramidal, circular, quadrada e laminiscata; nas franquias globalizadas nota-se o mesmo padrão de serviços e produtos em qualquer estabelecimento, etc. Mas afinal, o que é padrão?

Tríplice conceito associado à excelência

Quando penso em excelência operacional de uma manufatura é impossível não lembrar da Toyota Motor Company que há alguns anos já era a maior montadora em lucratividade e que chegou a ser a número um em market share. A Toyota consegue repetir seu elevado padrão de qualidade, consegue performar com custos dentro do planejado e realizar entregas confiáveis mais que qualquer outra automobilística. A origem dessa repetibilidade começa com Taiichi Ohno (1912 -1990) que entre 1937 e 1938 recebeu a missão de criar métodos de trabalho padrão porque os trabalhadores especializados da fábrica estavam sendo transferidos para os campos de batalha da II Guerra Mundial e com eles todo o know-how das operações do processo. Enquanto isso os postos de trabalhos eram cada vez mais ocupados por homens e mulheres inexperientes. Assim, se preocupou em transferir todo o conhecimento e melhor maneira de se fazer as coisas da cabeça do operador experiente para um procedimento padrão simples, claro e direto de modo que qualquer pessoa, até mesmo a mais inexperiente, fossem capazes de fazer a tarefa.
Entende-se padrão como uma regra ou exemplo consistentemente seguido e que gera expectativas claras. O que caracteriza o padrão é que ele é específico e científico, não se baseia nos costumes, na suposição ou na memória; deve ser documentado, comunicado para que as pessoas saibam o que elas estão fazendo, deve ter aderência, senão será inútil. Em suma, padrão pode ser traduzido em algumas sentenças-chave: o que fazer, uma regra, uma determinação, uma referência, um modelo.
Antes de comentarmos mais sobre padrão é importante mencionar outros dois conceitos que por vezes se confundem, trata-se de padronização e trabalho padrão. O primeiro pode ser entendido como a prática de ajustes, de comunicação, acompanhamento e melhoria do padrão de modo a promover consistência por meio de critérios e práticas uniformes. Para que a padronização exista é preciso primeiro que o padrão seja seguido. A efetiva padronização depende de linguagem clara e fácil. O uso de figuras e símbolos pode ajudar e muito na rapidez de comunicação para que todos aprendam a prática padrão. Em linhas gerais, padronização pode ser transcrita como etapas, receita, como fazer, garantia de repetição.
Trabalho padrão pode ser compreendido como um procedimento acordado que estabelece a melhor maneira e a seqüência mais confiável para cada processo e operador. Assim, há como apontar para a maximização de performance e minimização de desperdícios em cada operação e na carga de trabalho de cada operador . O trabalho padrão é rígido e flexível. Rígido porque se não houver outra maneira melhor de fazer a tarefa, deve prevalecer o padrão atual. Flexível porque se for encontrada ou desenvolvida uma maneira bem melhor de fazer o trabalho, deve-se analisá-la, testá-la e, se aprovada, torná-la um novo padrão. O trabalho padrão funciona como uma ferramenta de diagnóstico que expõe problemas e inspira a melhoria contínua suportando o processo de padronização. É um auxiliador adicional no combate ao desperdício durante todo o processo de produção. Com o trabalho padrão no lugar todos se transformam em detetives e continuamente encontram e removem desperdícios do local de trabalho. Em síntese, pode-se perceber trabalho padrão como: uma maneira melhor de fazer as coisas, um método para evolução, o como mudar, o como melhorar.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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