O enigma chinês

Em: 1 de outubro de 2010
Iniciando seu artigo de 24.09.10 no jornal “Financial Times”, Martin Wolf escreveu: “No caso da China, há falta de equilíbrio, coordenação e sustentabilidade no desenvolvimento econômico.”
Iniciando seu artigo de 24.09.10 no jornal “Financial Times”, Martin Wolf escreveu: “No caso da China, há falta de equilíbrio, coordenação e sustentabilidade no desenvolvimento econômico.”

Iniciando seu artigo de 24.09.10 no jornal “Financial Times”, Martin Wolf escreveu: “No caso da China, há falta de equilíbrio, coordenação e sustentabilidade no desenvolvimento econômico.” Quem ousaria fazer uma avaliação tão pessimista a respeito da economia mais dinâmica do mundo antes de um encontro de estrangeiros influentes, no coração da própria China? A resposta é: o primeiro-ministro Wen Jiabao, na ‘Davos de verão,’ ocorrida em meados de setembro, em Tianjin.” Como se vê, os próprios chineses reconhecem suas deficiências. Mas é preciso tirar da pobreza um país com 1,3 bilhão de habitantes. Saber reconhecer deficiências, o que em geral é difícil para os brasileiros, é virtude essencial no processo de transformação.
Entretanto, as queixas contra os chineses avolumam-se. Estatísticas do Banco Mundial mostram que a China tem o maior número de pedidos de investigações antidumping nos últimos 30 anos: 820 processos, com os EUA liderando (157) e o Brasil com 47 reclamações, sendo que 27 levaram à imposição de sobretaxas nas importações de produtos em que se verificou a prática desleal de preços artificialmente baixos. Diante disso, aumenta cada vez mais a dúvida se o Brasil não agiu com precipitação ao considerar a China uma “economia de mercado”, antes de qualquer outro país do mundo. Tudo indica que os próprios chineses alimentam dúvidas sobre essa condição que o governo brasileiro de forma equivocada reconheceu. Avaliações negativas quanto aos procedimentos da China chegam de toda a parte e crescem continuamente. E não se referem apenas ao ambiente poluído pelas práticas desleais em seu comércio exportador.
A Câmara de Comércio das Empresas Europeias na China (CCEE), constituída por quase 1.500 sócios, publica anualmente avaliações quanto ao ambiente de negócios nesse país com relação a elas. Não é de hoje que a CCEE aponta dificuldades crescentes de convivência com as orientações impostas pelo Partido Comunista por intermédio do seu órgão máximo. O órgão insiste em alterar de forma exagerada o processo produtivo, inclusive transferência de segredos protegidos por patentes.
Em 2010, finalmente, o relatório da CCEE deixou de lado o tratamento diplomático (que sempre foi usado por temor de retaliação) e acusou a China de elevar progressivamente o seu protecionismo a empresas chinesas em detrimento de empresas estrangeiras que acreditaram na continuidade das regras combinadas com o Governo quando se instalaram em solo chinês, inclusive descumprindo dispositivos aceitos por ela quando assinou o acordo de entrada na OMS (Organização Mundial de Comércio).
  Segundo e ex-ministro Delfim Netto, com base em informações da CCEE, 40% das empresas acreditam que o ambiente de negócios para estrangeiros na China vai continuar a piorar nos próximos anos. No entanto, considerando que a China, que já ocupa o segundo lugar entre as maiores economias mundiais, caminha celeremente para alcançar a primeira posição (superando o PIB dos EUA) até meados deste século – caso permaneçam as tendências atuais –, é preciso que o mundo se esforce para compreender o “ethos” dessa cultura de sete mil anos.

Segredos e falta de controle
Em entrevista recente, a cientista política Maria Celina D’Araujo, autora de “A Elite Dirigente do Governo Lula”, diz que o vazamento de dados da Receita Federal ilustra o “maior déficit” da democracia brasileira. Especialista nos governos de Getúlio Vargas (1930-45 e 1951-54), Maria Celina D’Araujo diz que Lula usufrui de um lastro de democracia no país que o trabalhista não tinha, sem uma chance de intervenção militar. De acordo com seu ponto de vista, nós não estamos sabendo cuidar bem desse lastro. Cuidar bem é pensar a gestão pública, mais controle, mais transparência. É examinar quais são os déficits da democracia brasileira. Na entrevista, a cientista social fez a seguinte reflexão: “O episódio da Receita Federal reflete a falta de controle. Quem controla quem. Quem controla as contas públicas, quem controla os funcionários públicos, as agências. Quem controla o Estado que deveria nos servir. Este é um dos grandes déficits da democracia brasileira. Falta controle, transparência. É um fenômeno generalizado. Temos pouca avaliação da qualidade dos serviços, do desempenho dos funcionários. O Brasil não tem uma cultura de controles. A Presidência da República não tem favorecido a questão. Tem criticado muito as agências controladoras, o Tribunal de Contas. É um problema sério da democracia brasileira a falta de uma maior visibilidade para o cidadão do que é feito com nosso dinheiro. Ainda vivemos uma cultura de que o serviço público é o lugar do segredo. Por exemplo, segundo os dados do governo, em 2009 o Brasil tinha 8,3 milhões de funcionários estatutários na administração pública nos três níveis – federal, estadual e municipal. É muita gente numa população de 41 milhões de trabalhadores formalizados. A gente não sabe como essas pessoas estão organizadas, a quais sindicatos pertencem, se elas se identificam mais com um partido. A gente não sabe nada dessas pessoas”.

O caminho do desenvolvimento
Diferentemente de crescimento econômico, que é uma questão meramente quantitativa, o desenvolvimento de um país implica melhorar a qualidade de vida da sociedade. Verdadeiro salto qualitativo social, o desenvolvimento pressupõe, acima de tudo, oferta de serviços públicos de boa qualidade: saneamento básico (água encanada potável, coleta e tratamento de esgoto), educação, saúde pública, transportes públicos de boa qualidade etc. As estatísticas mostram que o Brasil vem avançando nos últimos anos, em algumas áreas a passos largos e em outras a passos curtos, mas há ainda um longo o caminho para chegar a ser um país desenvolvido. “As condições de base estão dadas para que o país se torne uma potência”, declarou o representante no Brasil do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), José Lupo, para quem a concretização desse potencial depende de ações do governo por reformas. “O Brasil enfrenta desafios importantes para se transformar de país de renda média para uma economia inovadora movida pelo conhecimento”, afirma a consultora suíço-americana Suzanne Rosselet-McCauley, vice-diretora do Centro Mundial de Competitividade da escola suíça de administração IMD, uma das cinco principais da Europa. “Ainda está para ser visto se o país pode evitar a ‘armadilha do rendimento médio’ ao manter seus ganhos de estabilidade macroeconômica e política e se beneficiar de níveis mais altos de crescimento”, avalia. Para concretizar suas aspirações, o Brasil precisará resolver com sucesso o problema educacional.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
Pesquisar